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(A) :: Bárbara Branco, a atriz que foi dos teatros caseiros às tragédias de Shakespeare e que ainda se pergunta: "Estarei à altura?"

Bárbara Branco, a atriz que foi dos teatros caseiros às tragédias de Shakespeare e que ainda se pergunta: "Estarei à altura?"

Estreou-se aos 13 anos, fez telenovelas e aos concerto teatrais e é agora a narradora de “Os Escândalos de uma Revolucionária”, o Podcast Plus do Observador. Esta é a história de Bárbara Branco.

Andreia Costa
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Os lençóis desapareciam das gavetas para se transformarem em telas e as toalhas de mesa viravam tendas. Cortinados, mantas, almofadas e, sobretudo, a imaginação construíam o cenário das primeiras peças de teatro de Bárbara Branco. Os restantes atores eram os quatro irmãos e os primos; o público era composto pelos pais, tios e amigos; e as histórias replicavam aquilo que os miúdos viam na televisão. “Era a Floribella que usávamos como referência”, recorda ao Observador.

Desde essa altura, no início da adolescência, nunca houve grandes dúvidas quanto ao futuro de Bárbara. Estreou-se no teatro aos 13 anos e nunca mais parou, com uma “pressa de viver” que, garante, tem vindo a dosear nos últimos tempos. A mesma ânsia é comum a Annie Silva Pais — embora de forma bem mais rebelde —, a protagonista de Os Escândalos de uma Revolucionária, o Podcast Plus do Observador que conta a história da filha do último diretor da PIDE. Bárbara Branco é a narradora dos seis episódios e diz que este encontro parecia destinado a acontecer. “Algum dia tinha de me cruzar com a Annie. Cheguei a fazer o casting para Cuba Libre [série da RTP], não fiquei com o papel, mas ela fascinou-me logo. Ainda assim, não sabia que tinha tido uma vida tão agitada e que se tinha relacionado com tanta gente.”

Além de ser filha do diretor da polícia política da ditadura portuguesa, Annie escapou a todos os moldes que lhe estavam reservados, fugindo ao marido diplomata e juntando-se à revolução cubana. Todos os detalhes da vida da portuguesa ajudaram a que fosse fácil contar a história, garante a atriz. “Acho que, neste tipo de projeto, o desafio é encontrar o tom certo. A partir daí, temos de deixar a história guiar a narração. Estou muito contente com o resultado, o que é estranho para mim, normalmente não gosto de nada do que faço. Acho que é a primeira vez que estou verdadeiramente empolgada com um trabalho do início ao fim, porque acho mesmo que está bem conseguido.”

[o trailer de “Os Escândalos de uma Revolucionária”:]

https://www.youtube.com/watch?v=bAHS8B9UF64&list=TLGGen1jgAaa29kwOTEwMjAyNg

Bárbara Branco nasceu a 28 de outubro de 1999 na Maternidade de Cascais. Apesar de ter mudado de casa inúmeras vezes, cresceu e viveu sempre naquela zona. Além dos pais, também a avó e os primos estavam por perto. “A minha avó tem uma irmã gémea e viveram muito juntas sempre. As casas delas são, até hoje, porta com porta, têm um terreno em comum. Habituei-me a ir para lá depois da escola, a brincar com os meus primos, portanto essa rede de apoio foi uma constante na minha vida.”

É a “mais velha de cinco irmãos”, diz-nos, lembrando as etapas de uma família que “foi crescendo”. Ela e o irmão, Guilherme, são filhos do primeiro casamento da mãe. Depois, a mãe refez a vida e o padrasto também tinha uma filha e um filho, Leonor e Henrique. Desta união nasceu depois Clara.

No início, nada nesta dinâmica foi fácil para Bárbara, que viu a vida mudar radicalmente quando tinha 11 anos. “Tinha imensos ciúmes, era um infernozinho naquela família. Foi numa idade muito complicada, mas tive a sorte de ter terapia desde logo e o trabalho com o psicólogo ajudou-me a lidar com essa confusão toda que estava na minha cabeça e no meu coração.”

No entanto, também considera que cresceu rapidamente devido a essa revolução. “Sou muito organizada e acho que teve a ver com essa fase.”

Clara nasceu quando Bárbara tinha 13 anos, portanto a atriz sempre teve uma ligação muito maternal com a irmã — tanto que os pais faziam constantemente uma piada que a apanhava sempre de surpresa. “Às vezes íamos a um restaurante, eu entrava com ela [a irmã Clara] ao colo e os meus pais viravam-se e diziam: ‘Soubeste fazê-la, agora tens de cuidar dela’.”

Passados os primeiros anos de adaptação para todos, o padrasto também passou a pai e os filhos dele passaram a ser irmãos. Para Bárbara, essas definições são hoje naturais e indiscutíveis. “Conseguimos, de facto, construir uma família onde nos compreendemos, onde discutimos e chocamos muito porque temos personalidades diferentes. Mas, no fim do dia, há muito amor.”

Na escola gostava de ter boas notas — “era um bocado seca, na verdade”, diz —, e adorava fazer espetáculos, tanto no horário escolar como depois. A avó paterna fazia teatro amador e Bárbara ia a muitos ensaios com ela. Também em casa, inventava constantemente produções — e bastante elaboradas. “No verão, íamos para a lagoa de Albufeira de férias com os primos todos, juntávamo-nos com um vizinho, íamos para a praia, preparávamos danças, construíamos cenários e, no final do dia, quando os nossos pais estavam a comer, fazíamos a apresentação. Coitados, não tinham um jantar descansado.”

Ainda hoje, das coisas que mais gosta na profissão de atriz é poder trabalhar em equipa. “Sempre associei o teatro a uma atividade divertida e principalmente de grupo, é algo para fazer com pessoas de quem gosto.”

Inscreveu-se numa agência de modelos e atores em Cascais que tinha workshops e cursos. Um dos professores era Raimundo Cosme, fundador da Plataforma 285, que a convidou para fazer uma peça. Tinha 13 anos quando se estreou no teatro, em Lisboa. “Saía da escola, os Salesianos, ia para o teatro e os meus pais iam buscar-me à noite. Tive muita sorte porque eles faziam esse esforço.”

Por essa altura já todos sabiam que o caminho de Bárbara seria por ali. “A minha mãe era administradora financeira e o meu pai diretor financeiro, portanto a economia também estava muito na família, também tinha essa opção, mas a partir de um certo momento a decisão foi-se tornando muito clara.”

Arriscou-se a fazer um monólogo uma única vez, o que descreve como uma das experiências “mais aterradoras” que já teve. “Tinha 17 anos e, na altura, escrevemos um monólogo baseado num livro da Maria Teresa Horta e apresentámo-nos no Teatro Experimental de Cascais. O meu corpo estava sempre em fuga. Tinha muito, muito medo. Não tenho vontade de voltar a tentar, porque os monólogos representam um pouco esse medo.”

Durante muito tempo trabalhou a um ritmo que não seria sustentável a longo prazo. Com muito esforço reeducou-se e agora consegue tirar uma manhã só para ela, para fazer exercício, ir à praia ou visitar os pais. “Sinto que o caminho para mim é mesmo tentar não ceder a essa pressão de dar resposta constantemente.”

Estudou na Escola Profissional de Teatro de Cascais de 2014 a 2018 e no segundo ano Carlos Avilez convidou-a para fazer um espetáculo no Teatro Experimental de Cascais. Seguiu-se outra peça, depois uma novela, mais tarde um filme, e nunca esteve sem trabalho. Isso trouxe uma contrapartida de que só se apercebeu mais tarde: a relação com os amigos foi prejudicada, o tempo em família também. “Estava sempre numa corrida: agora tenho de decorar o texto, depois tenho de estudar o texto da novela, agora tenho ensaios. Só mais tarde é que fui acalmando e dando importância a outras coisas, acho que agora estou muito mais focada em valorizar as relações com as pessoas que me rodeiam.”

Em 2014 estreou-se em televisão, em Água de Mar, seguindo-se papéis em Jogo Duplo (2017) ou Bem Me Quer (2020). Em 2023 foi protagonista da novela Flor Sem Tempo e atualmente é possível vê-la em Páginas da Vida, na SIC. A estreia no cinema aconteceu em 2020, quando intepretou Fátima Padinha, uma das Doce, em Bem Bom.

Durante muito tempo trabalhou a um ritmo que não seria sustentável a longo prazo. Com muito esforço reeducou-se e agora consegue tirar uma manhã só para ela, para fazer exercício, ir à praia ou visitar os pais. “Sinto que o caminho para mim é mesmo tentar não ceder a essa pressão de dar resposta constantemente.”

Um Globo de Ouro em casa da mãe

Lulu, que dava nome à peça que fez no Teatro Experimental de Cascais, foi uma personagem difícil de interpretar, porque a confrontou com as mudanças que estava a atravessar na vida pessoal. “Ela passava de menina a mulher e eu também estava numa fase em que, como mulher, estava a descobrir outras coisas em mim e acho que o confronto com aquela personagem foi muito difícil por causa disso.”

A peça As You Like It valeu-lhe as nomeações para os prémios SPA e Globos de Ouro, ambos na categoria de Melhor Atriz de Teatro. Conseguiria essa mesma estatueta em 2021, com a peça Bruscamente no Verão Passado. A memória dessa noite é turva. “Fiquei muito feliz, mas acho que do momento em que ouvi o meu nome até ao momento em que saí do palco depois de receber o Globo, foi tudo uma cápsula do tempo meio estranha. Lembro-me de ter falado do Carlos Avilez, porque queria dedicar-lhe o prémio, mas de pouco mais.”

Poder fazer essa homenagem a alguém que lhe marcou a carreira e a vida foi o mais importante para Bárbara Branco. Em termos práticos, garante, nada mudou. “O que é ser considerada a melhor atriz de teatro? Não acredito nessa hierarquização dos melhores atores do ano. É um reconhecimento importante, não estou a tirar importância, mas acho que é uma coisa tão subjetiva que se torna estranha.”

O galardão está em casa da mãe, que sempre foi a colecionadora do currículo da filha. “Antes comprava todas as entrevistas, mas já percebeu que não vale a pena o investimento”, desvaloriza.

Também canta, chegou a participar na quarta temporada do programa A Máscara, mas garante que sempre encarou a música como um complemento. Ainda assim, foi uma das protagonistas de Quis Saber Quem Sou, o concerto teatral encenado por Pedro Penim que assinalou o 50 anos do 25 de abril.

Atualmente, está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa. Aceitou fazer parte de Macbeth com a impulsividade de quem sabe que é um trabalho irrecusável, mas com o arrependimento imediato de quem acha sempre, à partida, que não é capaz. “Mantenho uma coisa de miúda que é uma inconsequência qualquer. Depois chego ao momento e penso: ‘O que é que fui fazer? Não estou à altura’.”

Assim que a atuação termina, voa para casa. Precisa de sair dali, sente-se vazia e demora muito tempo a acalmar. “Preciso mesmo de interromper o fluxo de adrenalina do meu corpo. Demoro duas ou três horas para conseguir dormir.”

Fica extremamente cansada, mas diverte-se na mesma proporção. “A história é sobre morte e traição, sobre um tirano que dizima tudo o que vê à frente, mas é divertido brincar a isto. Não quero ser mal interpretada ao dizer que é brincar, mas é um trabalho estimulante para mim.”

O núcleo caótico é a base para tudo na vida de Bárbara Branco. É no meio dessa confusão que tem sempre um lugar guardado, que lhe dá paz e clareza. E, mesmo que tenha saído de casa dos pais aos 20 anos, não conseguiu ir para muito longe: “Mudei-me literalmente para o fundo da mesma rua”.

Gosta de estar simplesmente em casa, a cozinhar só para ela ou a ver uma série. “Adoro cozinhar massas, coisas de forno, bolos. Relaxa-me, talvez por estar concentrada em algo que não me exige tanto mentalmente.”

Admite que durante algum tempo se sentia condicionada em eventos públicos, mas que o facto de se resguardar agora permite-lhe encarar esses compromissos com outra abertura. “Estou mais disponível para estar verdadeiramente a falar com as pessoas e poder estar à vontade e tranquila porque tenho as pilhas carregadas.”

Quando está envolvida em algum trabalho mentalmente exigente, como agora, precisa de chegar a casa e fazer exatamente o oposto, como ver trash TV. “Não podemos estar sempre embrenhados em [George] Orwell, às vezes temos de ir ao Big Brother.”

Ouve Chico da Tina e Mónica Sintra e não tem vergonha de dizê-lo. “Às vezes há uma ideia qualquer de que os atores, que criam, que interpretam, que escrevem um espetáculo, têm de ser super intelectuais. Posso ser uma atriz competente, trabalhar em cinema, trabalhar em teatro, fazer uma data de coisas, mas não sou uma intelectual.”

Uma das coisas que tem vindo a trabalhar nos últimos anos é o medo de entrar numa sala de ensaios ou de aceitar um trabalho novo e sentir que não está à altura. “Demorei muito tempo a fazer as pazes com a ideia de que há livros que, se calhar, nunca vou ter a capacidade de compreender. Há livros que eu não vou conseguir ler, por muito que queira, e por muito que sejam canónicos. E está tudo bem.”

De vez em quando dá workshops de representação e sai sempre deles a achar que recebeu mais do que aquilo que deu. “A nível humano é uma experiência muito enriquecedora.” Recorda um workshop de quatro dias que dinamizou com o colega e namorado, Vítor Costa e Silva. Havia miúdos de 15 anos, mas também pessoas de 50. “Tivemos malta que começou super tímida e fechada e, no final, vimo-los a fazerem coisas extraordinárias que se calhar nem eles imaginavam que podiam fazer. Encaro isto como: ‘Vou ensinar-te algumas coisas que aprendi ao longo destes anos, mas tu vais devolver-me em triplo o meu investimento aqui e a minha partilha’. É uma coisa que me interessa muito.”

Se não fosse atriz, diz-nos que teria sido professora primária. No entanto, apesar de adorar crianças, admite que não se imagina a construir uma família numerosa como aquela em que cresceu. “É muito divertido ir a casa dos meus pais e ter esse caos. Mas em minha casa, se puder escolher, não, obrigada.”

Tem projetos marcados até 2028, continuando a tendência de ser muito organizada . “Não consigo estar parada dois meses, mas já consigo estar confortável a fazer intervalos entre um trabalho e outro.”

Em dezembro ou janeiro começará a rodar um filme e em 2027 regressa ao teatro para um projeto exaustivo que incluirá uma digressão pelo país, mas do qual ainda não pode falar. A família vai sempre ver as peças, mas em grupos pequenos. “Como seria a barulheira e a confusão se viessem todos juntos?”

Tê-los na plateia é confortável, apesar de serem bastante críticos. “Prefiro isso do que saber que está a passar uma novela com algumas cenas mais desconfortáveis e saber que eles podem estar a ver.”

O núcleo caótico é a base para tudo na vida de Bárbara Branco. É no meio dessa confusão que tem sempre um lugar guardado, que lhe dá paz e clareza. E, mesmo que tenha saído de casa dos pais aos 20 anos, não conseguiu ir para muito longe: “Mudei-me literalmente para o fundo da mesma rua”.