Os protestos, que continuam esta quinta-feira em várias cidades de França, ficaram marcados por confrontos entre os manifestantes e a polícia, que acabou por lançar gás lacrimogéneo e usar canhões de água para dispersar a multidão, na Praça da Bastilha, em Paris. Em Bordéus, um grupo de cerca de trinta pessoas atacou com pedras uma esquadra de polícia, disse uma fonte daquela força de segurança ao jornal Le Parisien. Dois agentes foram atingidos e conseguiram deixar o local.
Armados com capacetes, escudos e bastões, os agentes do corpo de intervenção avançaram para a multidão que se mantinha junto ao monumento no centro da praça conhecida pelo papel na Revolução Francesa de 1789. Alguns manifestantes foram preparados para confrontos, envergando lenços à volta da cara, máscaras cirúrgicas descartáveis, capacetes e até óculos de natação para se defender do gás lacrimogéneo.
O ministro da Administração Interna afirmou no fim da tarde que foram contabilizados cerca de 71.500 manifestantes nos eventos em França esta quinta-feira, sendo 24.500 destes em Paris. Ficaram feridos 48 polícias e guardas e foram detidas 504 pessoas. Laurent Nuñez “condenou firmemente as violências e saudou o trabalho das forças da ordem”, noticiou o mesmo meio de comunicação.
Apesar das medidas anunciadas pelo Governo, incluindo o reforço do orçamento para a educação, os estudantes e professores voltaram às ruas e, de acordo com os dados divulgados pelas 12h00 desta quinta-feira pelo Ministério da Educação, 157 (de um total de 3.700) escolas secundárias estão fechadas. A união de estudantes marcou uma nova mobilização nacional para a próxima terça-feira.
Promessa de 3.000 professores substitutos em 24 horas
O Governo francês vai disponibilizar três mil professores nas próximas 24 horas para preencher vagas disponíveis em liceus cujas situações são consideradas mais urgentes, foi anunciado esta quinta-feira.
Numa entrevista à televisão TF1, o ministro da Educação, Edouard Geffray, prometeu a colocação destes professores em 114 liceus classificados de “vermelho” e 400 “laranja”. O ministro anunciou também que “autorizará a contratação de professores adicionais” sempre que necessário, medida que “entrará em vigor entre amanhã [sexta-feira] e terça-feira”.
https://twitter.com/SebLecornu/status/2108273651707482213
O plano foi divulgado numa tentativa de acalmar de alguma forma os estudantes, cujos protestos encerraram centenas de liceus — estabelecimentos frequentados por alunos dos três últimos anos do ensino secundário.
Os sindicatos de estudantes exigem uma reforma integral, desde a redução das turmas até à reformulação da plataforma de acesso ao ensino superior (Parcoursup), criticada devido à dificuldade dos docentes em analisar todos os pedidos de admissão.
Segundo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, já foram recebidas 66 mil contribuições por alunos numa plataforma digital chamada Ágora.
“O governo vai apresentar alterações à proposta de lei das finanças para 2027, a fim de traduzir algumas propostas dos alunos do ensino secundário em medidas concretas”, escreveu na rede social X.
Manifestações em todo o país
Os movimentos estudantis tinham apelado à continuação dos protestos depois da mobilização de terça-feira, que levou entre 266 mil e 450 mil pessoas às ruas em todo o país. A União Estudantil pediu para que esta quinta-feira se fizessem concentrações junto às câmaras municipais da região de Île-de-France entre as 12h00 e as 14h00 locais.
A coligação intersindical de estudantes e profissionais apelou, entretanto, a um novo dia de mobilização e greve: terça-feira, 13 de outubro. “Enquanto não tivermos 10 mil milhões em cima da mesa, continuaremos a mobilizar-nos. Apelo a todos para que se juntem ainda mais em massa às mobilizações e às manifestações já a partir desta terça-feira, numa grande manifestação em todo o território”, afirmou Sabrine Kharbach, porta-voz da União Estudantil.
https://observador.pt/2026/10/08/liceu-frances-em-lisboa-fecha-portas-para-evitar-bloqueio-de-alunos-inspirado-nos-protestos-que-agitam-franca/
O Governo continua a tentar reduzir a tensão através do diálogo. Para além do “plano de emergência”, Édouard Geffray recebeu esta quinta-feira, às 15h00 (14h00 em Lisboa), as três principais associações de estudantes do ensino secundário, numa reunião que contou também com a presença de Philippe Baptiste, ministro encarregado do Ensino Superior e Investigação. O encontro tinha sido prometido pelo executivo na semana passada.
Em Paris, as forças de segurança tentaram dispersar um grupo de jovens representantes da Liga dos Direitos Humanos e da Federação dos Conselhos de Pais de Alunos. Os agentes retiraram ainda caixotes do lixo que tinham sido colocados no meio da estrada nas proximidades da Praça da Nação. Ao início da tarde, verificaram-se confrontos entre as autoridades e os manifestantes. De acordo com o Le Monde, várias pessoas empurraram o cordão policial e gritaram: “Saiam, saiam!”, tentando subir a coluna da praça.
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Também há manifestações noutras cidades, relata o Le Monde. Em Nantes, estudantes do ensino secundário, universitários e representantes sindicais concentraram-se junto ao Miroir d’eau, em frente ao Castelo dos Duques da Bretanha. Em Bordéus, centenas de estudantes reuniram-se na Praça da Vitória, embora em número significativamente inferior ao registado nos dias anteriores. Representantes da CNT, CGT, FSU e FO (principais organizações sindicais de França) também estiveram presentes. Durante a concentração, um estudante agradeceu a presença dos sindicatos, mas fez questão de sublinhar: “Queremos recordar que os estudantes do ensino secundário são independentes”.
https://twitter.com/BFMTV/status/2108125632294965726
https://twitter.com/leprogreslyon/status/2108099445699297771
Na região de Lyon, a mobilização concentra-se sobretudo nos estabelecimentos de ensino das periferias, considerados pelos professores como muito afetados pela falta de recursos. A manifestação desta quinta-feira começou em Bron, nos arredores da cidade, com cerca de 3.500 pessoas. No total, 31 escolas da região foram afetadas pela mobilização.
“Vemos a situação a degradar-se há dez anos, estamos na primeira linha. Os bairros populares são os primeiros a sofrer com a falta de pessoal”, afirmou Patrick Samzun, professor no liceu Marcel Sembat, em Vénissieux.
Na cidade de Nanci, foi registado um incêndio na entrada do Liceu Loritz. Imagens da escola em chamas foram partilhadas nas redes sociais.
https://twitter.com/unilorraine1/status/2108208212541624330