(c) 2023 am|dev

(A) :: Mães Solteiras: e diziam eles que iam ser breves

Mães Solteiras: e diziam eles que iam ser breves

Quatro portugueses com mais de quarenta anos olharam para guerras, populismos, CEOs. Ligaram os amplificadores e escavacaram o que lhes apareceu pela frente. Apresentam hoje o novo disco no B.Leza.

João Bonifácio
text

Costuma-se dizer que, quando os tempos ficam difíceis, a música fica política. Não é um absoluto – e basta irmos ao século passado para encontramos arte escapista em tempos de guerra; mas quando as sociedades entram em tensão interna, quando as placas tectónicas das forças opostas chocam – aí é certo que começam a aparecer canções que mais que evasão procuram o protesto.

O punk não é só isso (também é niilismo, provocação, vontade adolescente de partir tudo, etc) mas tem as suas vantagens em situações destas: a mesma economia de meios que leva os músicos a dizer “não sei tocar e não quero saber” também lhes permite cantar “isto está mal” sem escrever um tratado – quem ouve sabe o que é o isto e quão mal está.

Quando o punk acelera chamamos-lhe hardcore, atividade que foi desempenhada por gente como os Dead Kennedys ou os Black Flag ou os Fugazi. Às vezes parece que o hardcore desapareceu do planeta, mas depois basta ouvir Puxa-Vida, o segundo álbum de Mães Solteiras, para nos lembrarmos que o género continua a ser uma ferramenta extremamente eficaz para propagar o mal-estar que alguém sente. Letra de Sobe Elevador, 13.ª canção do disco:

“Pai, vou-me despedir, falamos logo
Já não aguento mais
Morrer das 9 às tantas (…) No top tá quem é mais capaz?
Ou são os filhos dos mesmos papás?”

É bastante claro que o elevador mencionado é o elevador social; aquele “Morrer das 9 às tantas” diz bem do que é o sentimento de muita gente que está só a tentar sobreviver, sem ter nenhum prazer no que faz (nem saber a que horas deixa de fazer). E por fim a crítica mordaz à meritocracia, ganha, por norma, por quem já tem vantagens sociais à partida. Isto é hardcode, meninas e meninos.

Não era bem assim em Vamos Ser Breves, o disco de estreia da banda. A música era pesadinha mas não tão pesadinha. Era punk – mas não era hardcore. Algo se passou na vida deles, ou no que eles observaram das nossas vidas, que tornou Puxa-Vida ainda mais agreste, ainda mais pesado, ainda mais disparado, ainda mais radical, à falta de melhor palavra –o que não deixa de ser curioso numa banda em que os membros já não têm vinte anos. Eles próprios falam disso, na magnífica Trapos: “Há velhos novos ao espelho/ Há gente nova só por fora/ Que por dentro é funeral (…) Velhos são os trapos/ Ainda falta tanta merda pra fazer”. A última frase chega a ser comovente, porque se sente uma espécie de revolta: ainda é preciso mudar muito no mundo e se tiverem de ser os velhos a fazê-lo, pois que o sejam.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/2RIjBx7N7ed0YZHlOgAhhF?si=v9e4CPdSShuXLKNkZ0718A

Que caso curioso são estes Mães Solteiras e que caso curioso é este ainda-mais-agressivo Puxa-Vida. Tudo começou quando Ricardo Martins (bateria) perguntou a André Henriques se queria fazer uma banda punk porque tinha saudades de fazer barulho. Henriques aceitou, veio Pedro “Gaza” Cobrado para o baixo e depois Quim Albergaria, que andava com vontade de berrar todas as semanas. Nasciam os Mães Solteiras, quatro músicos com mais de 40 anos, filhos, empregos, contas e décadas de música portuguesa.

Nada aqui acontece por acaso – se se chamam Mães Solteiras é porque, explicou Henriques, criar sozinho um filho contra o resto do mundo lhe parece uma das coisas mais punk rock imagináveis. Vamos Ser Breves ia directo ao assunto: treze canções gravadas em dia e meio, editadas em janeiro deste ano, sobre trabalho, saúde, habitação, emigração, populismo, guerra, precariedade e aquela extraordinária invenção contemporânea que consiste em chamar “recursos humanos” às pessoas.

Puxa-Vida vem nove meses depois (e tem graça que venha nove meses depois), tempo que não foi suficiente para mudar o fundamental do modus operandi: são novamente 13 canções para um total de 27 minutos. A radiografia da nação continua – e as maleitas parecem as mesmas, quando muito agravadas pela deterioração geral do paciente.

Os títulos de Puxa-Vida parecem o inventário de maleitas da nossa sociedade – tem particular graça que haja uma canção chamada “Eu vou ser como o CEO”, uma das canções mais melódicas do disco e em que se canta “Bora competir, bora competir/ Eu quero ser/ Melhor que tu”. Há um tom cómico aqui que nem sempre está presente – porque na maior parte do tempo as guitarras estão furiosas e a disparar, as baquetas querem assassinar a tarola e alguém quer maltratar o seu baixo.

Isto significa que Puxa-Vida não é Vamos Ser Breves II. A banda aponta uma genealogia bastante mais larga: José Afonso e Salada de Frutas ao lado de X-Acto – a canção de intervenção portuguesa encontra o hardcore português, a memória política do pós-25 de Abril encontra uma música nascida noutra geração e noutro subterrâneo.

A ligação torna-se literal em Era de Noite e Levaram, versão da canção de José Afonso sobre poema de Luís de Andrade. A escolha interessa sobretudo porque recorda uma coisa que a democracia tende periodicamente a esquecer: certas canções envelhecem e outras ficam apenas à espera que a história volte a dar com elas. Era de Noite e Levaram nasceu de um mundo de perseguição política, polícia e medo; colocá-la no meio de um disco punk de 2026 não transforma Portugal na ditadura que produziu a canção – mas recusa tratar essa memória como peça de museu.

Não foi só Zeca a fazer canções de protesto – temos uma bela linhagem nessa área, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Adriano Correia de Oliveira, etc. Mas os tempos mudaram, veio a União Euopeia, sapatilhas da Nike, gelados da Haagen Dazs, powerpoints e KPIs. Quem quer saber de Zeca quando tem a Guerra das Estrelas? Em Branco Azul e Sangue eles cantam “Quando era puto queria ser americano (…) Nos EUA tudo era magia”. Hoje, para se ser um bom português é obrigatório falar bem inglês.

É esse mundo que os Mães Solteiras parecem particularmente preparados para atacar. A política destas canções não vive nos grandes acontecimentos – vive no emprego, na sala de espera, na empresa, na impossibilidade de comprar casa, na linguagem empresarial, na promessa de mobilidade social. Já em Vamos Ser Breves se fazia uma espécie de listagem das características nefastas do capitalismo português quotidiano. Agora basta um título como “Eu vou ser como o CEO” ou “Sobe elevador” para perceber que a empresa continua dentro da sala de ensaios.

Talvez seja esta uma das diferenças entre fazer hardcore aos vinte e fazê-lo depois dos quarenta. Aos vinte, o sistema é uma abstração suficientemente grande para podermos querer destruí-lo. Mais tarde descobrimos que o sistema é o chefe que marcou uma reunião às seis, a renda que aumentou, o algoritmo que decide que não temos crédito, a carreira que não sabe onde fica o elevador, a formação em soft skills.

Isto torna os Mães Solteiras ainda mais convincentes. Porque não existe aqui a tentativa de recuperar uma juventude perdida. A idade faz parte do projeto. A perda de inocência faz parte do projecto. A banda sabe de onde vem e sabe quando nasceu. Sabe que houve Black Flag e Fugazi, mas também X-Acto e José Afonso. Sabe que nos últimos 40 anos muita gente nasceu – mas pouca consegue viver em paz

Daí ser tão cortante, esta fúria. O hardcore vive da sensação de que os instrumentos não acompanham a voz: perseguem-na. E os Mães Solteiras entendem a importância dessa correria mas também do poder da palavra enquanto granada, do refrão coletivo, da frase que numa folha pode parecer panfletária mas que, berrada por uma sala inteira, deixa de ser argumento e passa a ser acontecimento.

A dada altura surge uma ideia aparentemente deslocada no meio de tanta distorção: “amar é uma forma de luta”. E talvez seja aí que o disco escapa ao mais fácil dos destinos da música política, o sermão. Protestar não é apenas identificar inimigos. Também é decidir como usar a nossa energia vital.

Em 2026, quatro homens portugueses com mais de quarenta anos olharam para guerras, populismos, CEOs, precariedade, tecnologia, trabalho, medo e para a promessa de que, se nos esforçarmos muito, o elevador acabará por subir. Depois ligaram os amplificadores e escavacaram tudo que lhes apareceu pela frente – tudo menos o amor.