1.1. As metáforas do cristianismo contemporâneo mostram-nos como a cultura do consumo, do espetáculo e da gratificação imediata têm vindo a moldar, em largas camadas da sociedade, a vivência da fé cristã e a transformar a própria estrutura das comunidades religiosas. Elas são ferramentas poderosas, críticas, que revelam os desvios, as superficialidades, e as modas do cristianismo moderno. Todos nós, uns mais do que outros, em maior ou menor grau… temos um pouco destas diferentes maneiras de viver e expressar a fé. Reconhecê-lo, revela lucidez e princípio de sabedoria; será, para quem admite essa necessidade, uma primeira etapa de um processo de mudança. Porventura, a grande maioria, lamentavelmente, desmente-o, nega-o, não o assume, vivendo anos e anos a fio num interminável processo de autoabsolvição e autojustificação permanente, ajustando e moldando o essencial da doutrina revelada ao seu modo particular de vida. O maior obstáculo para um percurso deamadurecimento espiritual não é, dizem-nos os santos, a fragilidade humana em si mesmo, mas sim a autojustificação. Quando se nega a existência dessas menoridades, dessas frivolidades, dessas teimosias, desses padrões de comportamento… bloqueia-se qualquer possibilidade de transformação real, perpetuando uma vivência superficial e redutora da fé. Ora, vejamos, seguidamente, algumas das metáforas mais recorrentes na contemporaneidade que descrevem, precisamente, os desvios mais evidentes na vivência da fé.
2. Cristianismo “Pop Star”. Reflete uma determinada expressão do renascimento religioso (muito em voga nos tempos que correm…), na qual, ao testemunho de fé está associado, de forma, frequentemente exacerbada, uma certa estética do espetáculo e da cultura da celebridade. A espetacularização da experiência religiosa transforma o sagrado em produto de consumo, passando a fé a depender da emoção do momento, do espetáculo e da busca por uma experiência estética ou social significativa; a Comunidade transforma-se, então, em público e o Altar em palco. Por outro lado, ao transformar-se a fé em espetáculo, a adesão à mesma passa a ser baseada no carisma do sacerdote “pop star” (ou no líder religioso), deslocando-se o foco, de Cristo para o pastor. Para alcançar grandes massas e viralizar nas redes sociais, muitas destas abordagens adotam mensagens simplistas, de autoajuda ou puramente emocionais, secundarizando os aspectos mais profundos e essenciais da doutrina. Esta abordagem contemporânea, ainda que válida e criativa em muitos aspectos, corre o risco de os sacerdotes atenderem às necessidades individuais, permitindo que os fiéis escolham padres, bispos ou comunidades de acordo com suas preferências ideológicas ou estéticas, alterando assim a ordem hierárquica estabelecida.
3. Cristianismo “Fast Food”. É uma metáfora crítica para descrever uma vivência da fé focada no consumo rápido e no consolo imediato, através de mensagens rápidas, superficiais, de autoajuda, sem grandes exigências de compromisso. Isto é, evitando temas difíceis como a Conversão, o Sofrimento ou a Cruz. Tal como uma refeição rápida, sintética satisfaz a fome no momento, mas não a nutre a longo prazo, também uma fé “fast food” é feita para “alimentar” o ego de forma imediata e barata, que busca o conforto emocional, mas sem o necessário compromisso da transformação interior. É uma espécie de Espiritualidade “McDonaldizada”, apressada, sintética, na qual a padronização e a superficialidade do consumo moderno é aplicado, então, à vivência da fé. Querem-se as bênçãos como um produto de prateleira, o alívio imediato e as respostas prontas como um analgésico, mas sem o devido processo lento e, frequentemente, doloroso do amadurecimento, da disciplina espiritual, do silêncio e da reflexão teológica (para que a fé não se baseie em misticismos superficiais). Esta dinâmica da “graça barata” busca a recompensa sem esforço, o destino sem a caminhada, ignorando que a profundidade da fé e o desenvolvimento pessoal só se desenvolvem no “solo do tempo”, na paciência e, muitas vezes, no sacrifício pessoal.
4. Cristianismo “Self-Service”, ou Cristianismo de conveniência é o ponto culminante da religiosidade de consumo. O indivíduo olha para a doutrina como um menu de restaurante e ajusta-a ao seu particular modo de vida. É uma espécie de “Espiritualidade Buffet”, a partir da qual o crente escolhe apenas os dogmas e mandamentos que mais lhe agradam, e descarta as partes que exigem renúncia, exigência moral ou confronto com as suas próprias escolhas e decisões. O Cristianismo “Self-Service” é uma espécie de Cristianismo “Líquido”, inspirado no conceito de “modernidade líquida” do sociólogo Zygmunt Bauman, no qual, as relações com o sagrado são voláteis, sem raízes e moldadas pelo momento. É uma fé “à la carte”, sem contornos firmes, sem doutrina sólida e altamente mutável, que se adapta ao sabor das modas, das preferências e das conveniências do momento. É a velha ambição de criar um deus à nossa imagem e semelhança. Em vez de a fé transformar o comportamento individual, é o indivíduo que altera as regras, os valores e a interpretação da doutrina para que elas validem o seu estilo de vida pessoal e particular.
5. Cristianismo “Egocêntrico e Terapêutico”. Reduz o cristianismo a um código de conduta (reducionismo ético) e à mera bondade humana acabando, assim, por absolutizar parte da mensagem, desvirtuando e subvertendo a integralidade da mensagem cristã. Se reduzimos a fé à bondade genérica (que qualquer pessoa razoável, crente ou ateu, também pratica) corremos o sério risco de o estarmos a suavizar e a tornar irrelevante, e contribuir para que o mesmo não tenha nada a dizer ao mundo, que o mundo não possa dizer a si mesmo. Quando a bondade humana é elevada a valor absoluto, a fé cristã transforma-se implicitamente numa religião de autojustificação, muito centrada no indivíduo. Passa a imperar a lógica do “eu mereço o Céu porque sou generoso, não faço mal a ninguém e dou esmola no Banco Alimentar”. O cristianismo bíblico ensina o oposto: a salvação é um dom gratuito recebido pela fé, concebido para que ninguém se possa gabar dos seus próprios méritos. Pelo contrário, ao limitar-se a fé à ética do quotidiano, remove-se a dimensão mística, os sacramentos, a oração, a ação do Espírito Santo e a esperança na vida eterna. O cristianismo deixa, então, de ser uma fé transformadora e sobrenatural para se tornar apenas numa filosofia humanista com uma roupagem religiosa. Sem adoração, sem o ritual e o transcendente, sem a consciência de se estar diante do mistério de Deus encarnado a Igreja acaba transformada numa ONG de batina ou num clube de bairro que organiza eventos ao som de canções. Esta espécie de Evangelho Terapêutico desloca, então, o foco no arrependimento e na transformação espiritual para o foco no conforto e bem-estar psicológico. Deus é, assim, uma espécie de “terapeuta cósmico” que garante a felicidade, a autoestima e o sucesso do indivíduo, esvaziando o sentido da transcendência e do pecado. A Cruz é omitida para dar lugar, de forma artificial, a discursos de motivação, de incentivo e otimismo.
6. Em tempos de um certo ressurgimento católico e de uma maior visibilidade cultural, (parecem dizer de forma inequívoca, estatísticas, análises e estudos vários) não caiamos na armadilha das modas, da estética, ou de preferências pessoais que, pela sua própria natureza, são efémeras, passageiras e circunstanciais. Por isso, prudência! Cuidado com as falsificações da fé, cuidado com a sua banalização, com a sua transformação em frivolidades e marketing sentimental. A fé católica sempre foi contrária a modas, sempre foi contracorrente; ela é, pela sua própria natureza contracultural. Reduzi-la, então, a uma “tendência” ou a uma mera experiência estética transformaria a religião num mero produto de consumo. Falar em “moda” do catolicismo seria trivializar e caricaturar a religião. A Igreja Católica sempre foi um alvo a abater. Certamente, por isso, aqueles que não querem que ela prospere, se expanda e se consolide desejam, justamente, que ela se transforme numa moda, numa tendência, numa aparência. A Igreja Católica é a única instituição que ousa contradizer o espírito da época. Essa contradição é a sua essência, porque o espírito de cada época, para além das coisas boas que tem, é contaminado, também, por modas passageiras, ideologias temporárias, ídolos do momento.
7. O Cristianismo não existe, essencialmente, para viabilizar projetos de felicidade individual, mas sim para salvar as pessoas. Um Cristianismo sem Cruz, destituído de sofrimento, de arrependimento, de contrição, de penitência, preocupado mais com o conforto e a satisfação de todos os prazeres terrenos, não é o Cristianismo das Escrituras e da Tradição. Um Cristianismo psicológico, de clichés e chavões, essencialmente humanista, individualista, não é o Cristianismo das Escrituras e da Tradição. A Igreja, na verdade, não facilita as escolhas morais; ela propõe ideais exigentes tal como o perdão a quem nos fez mal, o dar a outra face, a caridade desinteressada, o amor ao próximo, a relação com o corpo, com o dinheiro, com o tempo. Quando o catolicismo é apresentado como verdade absoluta revelada pelo próprio Deus, quando é apresentado como o único caminho para a salvação eterna, exigente, mas infinitamente recompensador, então a pessoa confronta-se com algo que não pode ser obtido em nenhum outro lugar; pois, “num mundo de meias-verdades, a verdade completa brilha como um farol”. Todas as fórmulas, estratégias, novidades, novas formas de comunicar são bem-vindas, se estiverem enraizadas nos valores perenes da Verdade revelada. Não suavizemos e fragmentemos a doutrina em inconsistências e pluralismos artificiais para evitar a rejeição e manter, alegadamente, a relevância. Quando se adopta (e adapta) os valores do mundo moderno sem o devido filtro doutrinal, corre-se o risco de negar as próprias raízes, sucumbindo perante o subjetivismo e a ruptura com a Tradição. Caros católicos, o testemunho de um cristianismo que não contradiz nem ofende ninguém, que prega verdades tão inofensivas que ninguém precisa de mudar; que prega um Cristo sem pregos, sem cruz, sem sofrimento… mas que não salva ninguém, não é o Cristianismo das Escrituras e da Tradição. A Igreja tem sobrevivido a todas as crises porque Cristo a sustenta. A nossa missão é defendê-la por dentro com ortodoxia radical e caridade inabalável. Tal como disse o velho Chesterton, “A Igreja Católica é a única instituição que pode salvar o homem da escravidão degradante de ser um filho de seu tempo”.
“Se vós fôsseis o que deveis ser, pegaríeis fogo ao mundo”; Santa Catarina de Sena usava esta metáfora do “fogo” para se referir ao amor divino, ao entusiasmo e à Verdade. Se nós católicos vivêssemos plenamente a nossa vocação e o nosso propósito com autenticidade e paixão, a força do nosso testemunho transformaria radicalmente a sociedade ao seu redor.