A 2 de outubro, em Paris, ao receber o prémio de economista mais influente do mundo, Javier Milei explicou em poucas palavras o que os políticos em Portugal não aprenderam em cinquenta anos: ninguém sai da pobreza sem aprender a pescar.
Para a maioria dos comentadeiros de pacotilha, Milei é uma espécie de louco agarrado a uma motosserra, e a partir daí a narrativa segue o seu curso fora de contexto com poucos a prestarem-lhe atenção. É pena porque se lhe dessem alguma, iriam aprender, e muito!
Recebeu o prémio da forma desajeitada que o caracteriza e acabou por dar uma aula magistral sobre crescimento económico.
Começou por contar que acabara de conversar com Philippe Aghion, ali mesmo no Fórum, e que este lhe confessara ter dedicado a vida ao crescimento por uma razão simples: preocupava-o a pobreza. Lembrou Robert Lucas, para quem as consequências do crescimento sobre o bem-estar humano são de tal ordem que, depois de se começar a pensar nelas, é difícil pensar noutra coisa. Dois prémios Nobel da Economia, ambos com obra de referência sobre o tema, que Milei aplica na prática, todos os dias, em prol dos argentinos.
Desenhou a arquitetura do que iria expor em três blocos.
Sobre o primeiro bloco, o da propriedade privada, explicou que esta se ataca de duas maneiras, pelos impostos e pela regulação, e que se defende baixando o saque fiscal e eliminando a burocracia idealizada pelo saqueador de primeira instância: 18 mil regulações foram já eliminadas na Argentina, obra de Federico Sturzenegger, o seu ministro da Desregulação.
O segundo é o capital humano, que substituiu a assistência social até no nome do ministério.
E o terceiro é a abertura ao mundo, porque a divisão do trabalho de Adam Smith tem o tamanho do mercado, e um mercado de 48 milhões é pequeno: acordos com a União Europeia, com os Estados Unidos, com a EFTA, numa economia que tem um coeficiente de abertura de 30% quando devia ter 90%.
Admitiu, no entanto, com a honestidade que também o caracteriza, que a fotografia continua a ser horrível, mas é “o melhor filme da história argentina”, provavelmente dos últimos 100 anos.
A motosserra em números
Milei está quase a fazer três anos de mandato. Recebeu um país com a inflação a correr a 1,5% ao dia, um banco central falido e um desequilíbrio de quinze pontos do PIB, cinco no Tesouro e dez no banco central. Em campanha prometeu resolver o défice num ano e disseram-lhe que nem em quatro o conseguiria fazer.
Atingiu o equilíbrio fiscal no primeiro mês de mandato, cortando 30% da despesa pública e sem subir um único imposto. Pelo contrário: a carga fiscal desceu, desde que começou a governar, cerca de três pontos do PIB. O mérito, fez questão de dizer, é de Luis “Toto” Caputo, o ministro da Economia a quem chama o arquiteto do milagre, um dos gigantes que trabalham com ele.
A inflação, que fechou 2023 em 211% e chegou a 25,5% num só mês, foi de 1,7% em agosto deste ano, o valor mensal mais baixo em catorze meses. Em termos homólogos está em 33,5%. Uma montanha ainda, e há um ano que não sai desta casa, o que mostra que a última milha é a mais difícil, como o próprio Milei sempre afirmou. Mas quem herdou um país à beira da hiperinflação e trouxe a inflação para aqui sem congelar preços, sem expropriar depósitos e sem rasgar contratos, fez o que o manual keynesiano julgava impossível, respeitando acima de tudo o direito de propriedade privada, sacrossanto para um liberal libertário.
As contas públicas vão no terceiro ano consecutivo de excedente. Até agosto, o saldo primário acumulado é de 1,1% do PIB e o saldo financeiro, depois de pagos os juros, de 0,2%. A dívida, segundo o próprio Milei, passou de 100% para 39% do produto. A balança comercial leva 33 meses seguidos de excedente, com 2 187 milhões de dólares em agosto, e o regime de grandes investimentos já tem 50 mil milhões de dólares aprovados em petróleo, gás, minas e agroindústria.
E a economia cresce.
Nas contas que Milei apresentou em Paris, mais de 6,5% no primeiro ano, cerca de 4% no segundo e entre 18% e 20% no conjunto do mandato, num país que cresceu em média 1% ao ano durante um século.
A pobreza medida pelo INDEC, o INE argentino, era de 52,9% no primeiro semestre de 2024 e é de 32,3% no primeiro semestre de 2026. Entre as crianças até aos 14 anos caiu de 66,1% para 44,5%. A indigência, i.e. a fome num país que alimenta 500 milhões de pessoas, desceu de 18,1% para 7,5%.
Entretanto, a fotografia do “fracasso” que os adversários de Milei já estão a empolar nas redes sociais, mas sobretudo nos media regimentais, foca-se no último semestre em que a pobreza subiu 4,1 pontos face aos 28,2% do final de 2025, pois os rendimentos cresceram menos do que o cabaz, e a guerra no Golfo também não está a ajudar. É um aviso sério, com a inflação presa nos trinta por cento ao ano a explicar muita coisa. Mas vinte pontos em dois anos são cerca de 10 milhões de pessoas, e nenhum governo peronista, com todos os seus ministérios da sensibilidade, alguma vez mostrou coisa parecida.
Como o conseguiu? Em duas penadas: primeiro, acabando com o imposto inflacionário, o mais regressivo de todos, porque o pobre não tem como fugir da moeda que se volatiliza. Segundo, despedindo os intermediários. O abono por filho e o cartão alimentar cobriam 40% do cabaz básico; hoje cobrem 100%, sem um peso a mais de despesa. Os Gerentes da Pobreza, donos dos movimentos sociais, ficavam com metade pelo caminho e pagavam-se em presenças nos piquetes.
Acabando com a portagem, o dinheiro chegou inteiro ao destinatário e os cortes de estrada perderam o seu combustível.
Milei justificou-o citando Milton Friedman, que nos ensinou que não há almoços grátis, e com o povo hebreu, que ao fugir do Egito já o sabia. O peixe grátis era o Egito. O peixe grátis era a escravidão. Por isso o ministério deixou de se chamar do Desenvolvimento Social e passou a chamar-se do Capital Humano, com Gary Becker e James Heckman como os seus padroeiros (mais dois economistas admirados por Milei e também eles prémios Nobel da Economia): primeiro a infância e a família, depois a saúde e a escola, por fim o trabalho. A ministra conta que antes lhe pediam planos sociais. Agora pedem-lhe emprego.
Por cá, o peixe é vitalício
Portugal não tem piqueteiros, mas tem os seus gerentes da pobreza. São mais educados, usam gravata e vivem em institutos, observatórios, comissões e gabinetes que existem para administrar apoios que nunca acabam. Meio século de subsídios permanentes não acabou com a pobreza, organizou-a. Uma burocracia cujo orçamento depende do número de pobres não tem qualquer incentivo para que eles deixem de o ser, e um eleitor que depende do cheque vota em quem o assina.
Foi contra isto que escrevi o 15:15:15, um hino à Liberdade. 15% de IRS, 15% de IRC, 15% de IVA, com limiares de isenção para as famílias, entre algumas outras exceções e incentivos adicionais. É a única política social que dispensa gerentes, porque deixa o dinheiro no bolso de quem o ganhou em vez de o fazer passar pela portagem do Estado para depois o devolver, com desconto e com vénia. Milei chama-lhe ensinar a pescar. Bastiat chamar-lhe-ia o que não se vê.
Dir-me-ão que Portugal também tem excedentes. Tem, na contabilidade e na cabeça do ministro Miranda Sarmento e do nosso primeiro-ministro. O Conselho das Finanças Públicas, que ainda não foi tomado pelo aparelho do PSD e do PS e ainda mantém a independência, explicou a habilidade: o Orçamento para 2026 previa um défice da Administração Central de 2,2% do PIB, o mais alto desde 2017 fora da pandemia, e o saldo só fica positivo porque se lhe soma o excedente da Segurança Social. A despesa corrente primária, a que fica e não sai, cresce empurrada por salários e prestações sociais, e o CFP avisa que “compromete reduções expressivas da carga fiscal e contributiva”. Para 2026 projeta um excedente de 0,2%. Para 2027, um défice de 0,2%.
Pelo meio, compra-se a maioria do eleitorado com mais de 65 anos. Em dezembro chega mais um suplemento extraordinário para os pensionistas, o terceiro ano seguido de uma benesse que de extraordinária só tem o nome. E tudo isto se tapa com as contribuições de quem trabalha, que deviam estar a capitalizar pensões futuras e não a maquilhar o défice presente. O excedente da Segurança Social não devia sequer entrar nesta conta.
Milei tem excedente depois de pagar juros, a cortar despesa e a baixar impostos. Montenegro tem excedente porque soma dois sacos, a aumentar despesa e a devolver em IRS os trocos que sobram.
A Argentina de Milei não é o paraíso e ele é o primeiro a dizê-lo. Um terço do país ainda é pobre, a inflação ainda morde, e de que maneira, e o risco país ainda assusta. Mas o filme anda para a frente, e anda porque alguém teve a coragem de dizer aos argentinos que o peixe grátis era a corrente que os prendia.
Nós continuamos a tirar a fotografia de família, todos muito compostos, com as contas certas penduradas na parede. O filme, esse, está parado há vinte e cinco anos, enquanto dizemos adeus a todos os que nos ultrapassam.
Na Argentina durou 100 anos e precisaram de El Loco para os acordar.