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(A) :: Um surto de realidade em Nova Iorque

Um surto de realidade em Nova Iorque

O que ocorre, neste momento, em Nova Iorque e na Pensilvânia, não é apenas um surto de sarampo; é uma epidemia de realidade.

Alexandre Borges
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Quem diria que viria dali? Que seria este o último bastião da resistência? Esta semana, Kathy Hochul, governadora do estado de Nova Iorque, declarou estado de emergência devido à escalada de casos de sarampo, doença que os Estados Unidos consideravam oficialmente erradicada há 26 anos. NY já registou este ano 108 casos de infecção, sobretudo em zonas rurais, contra um em 2023, os piores números desde 1991. Mas claro que não é um problema nova-iorquino; pelo contrário. Na vizinha Pensilvânia, o cenário é muito mais preocupante: mais de mil casos noticiados desde o início do ano e cinco mortes, incluindo a de um adolescente e dois bebés. Ridiculamente evitáveis. Segundo as autoridades, 99% dos casos referem-se a pessoas que não tinham sido vacinadas. Que surpresa.

O sarampo é uma das doenças mais contagiosas da história. Basta que o infectado tussa ou espirre. Em ambientes fechados, o vírus pode permanecer no ar durante as duas horas seguintes. Há mais de 60 anos que temos uma vacina contra ele. Mas, agora, por opção, os americanos contabilizam este ano já quase 4 mil casos, disseminados por 47 dos 50 estados, número que, ainda assim, peca provavelmente por escasso, porquanto significaria que só o estado da cidade da Constituição concentraria um quarto de todos os eventos. Sim, não é a inteligência artificial que vai exterminar a humanidade; é, essencialmente, a estupidez natural.

Num daqueles twists inesperados da história, a mania anti-vacinas passou, aqui há uns anos, de meia dúzia de freaks alternativos, à esquerda da esquerda, para o coração dos mais empedernidos reaccionários. De súbito, o mundo branco, capitalista, bem instalado, com estudos e meios, foi contagiado pelo espírito contestatário dos revolucionários e pela mania da perseguição do mais paranóico dos chalupas. As farmacêuticas, as universidades, a ciência, os media, o sistema (o que quer que isso seja em geral) estava, afinal, montado para o perseguir. Para o usar. Para o enganar. Tudo era uma mentira, o comprimido azul do “Matrix”. Para beneficiar não se sabe bem quem, uma vez que, nesta mundividência, são os próprios ricos quem se queixa. Mas, enfim, eis que a verdade se revelava. Nem foi precisa investigação – afinal, o mundo é hoje muito mais rápido. Contra séculos de ciência, bastou uma década de YouTube e redes sociais, para colocar como ministro da saúde uma pessoa segundo a qual [sic] o sarampo se trata com canja de galinha e vitamina A.

Não temos dados sobre o ponto de situação na corrida ao frango nos supermercados de Filadélfia, mas há algo de fascinante no desenrolar dos acontecimentos, uma espécie de enésima confirmação da teoria da selecção natural.

O que ocorre, neste momento, em Nova Iorque e na Pensilvânia, não é, portanto, apenas um surto de sarampo; é uma epidemia de realidade. Num tempo autoproclamado como da pós-verdade e em que os factos são tratados como uma espécie de grafonola ou outra antiguidade abandonada por falta de uso, a erupção do sarampo nos Estados Unidos da América surge como um inesperado instrumento filosófico ao serviço da teoria do conhecimento. Como quem diz: não é verdade que a verdade seja relativa. Há sempre verdade, única, absoluta, indiscutível, facto, nem que seja bem lá no fim. Uma parede contra a qual se embate, não importa o que se diga num tweet, quanto se edite com inteligência artificial, quanta imprensa se mande silenciar. O sarampo não lê nem faz scroll, não ouve nem se intimida, não se interessa por política nem opiniões; o sarampo limita-se a ser, como costumava acontecer, antigamente, com essa coisa da verdade e dos factos e que uma outra coisa chamada ciência se dedicava a observar, experimentar, repetir, testar, registar.

Há muitos, muitos anos, viveu na Eleia um filósofo chamado Parménides que escreveu um poema que nos chegou em fragmentos e que todo o jovem filósofo se viu em apuros para decifrar. No fim de muitas horas de reflexão e discussão e leituras de obras de apoio, chegava-se a uma conclusão, aparentemente, inglória: a de que tudo quanto Parménides nos queria dizer era que, no mundo, havia o ser e o não-ser não havia, mas que entre uma coisa e outra é que residia o verdadeiro perigo: o que apenas parecia. A doxa, a opinião. A via enganosa que não era para pensar e que deveríamos recusar com toda a nossa energia. Todo o nosso ser.

O surto de sarampo em 2026 traz Parménides a Nova Iorque. E enquanto há notícias de peste na Sibéria e o futuro se parece cada vez mais com a Idade Média, uma pessoa beberica o seu café numa esplanada da decadente Europa e pensa que, vírus por vírus, pode ser que este comece a matar o da desinformação. Querem ver que, afinal, isto das farmacêuticas e dos médicos não eram tudo monstros que nos queriam devorar? E os jornalistas enganar-nos com mentiras para proteger os árabes e os marcianos? E que as faculdades não estão todas feitas com os Illuminati? Um dia destes, quando a água lhes der pelo coldre da pistola, quem sabe até acreditam em alterações climáticas. (Admitindo que ainda estaremos vivos então, que o cronista hoje está um optimista.)