O norte-americano Lance Oppenheim, que vem dos documentários e da televisão, chegou ao concurso do Festival de Veneza deste ano com uma primeira ficção mergulhada em imagens saturadas e de baixa resolução, sublinhando a traço grosso a feia realidade que quer apresentar-nos. O filme parte de um argumento de Ajon Singh vagamente inspirado num artigo de Luke Dittrich, Tonight on Dateline This Man Will Die (publicado na revista Esquire, em 2007), focado no polémico reality show To Catch a Predator, que foi para o ar na NBC entre 2004 e 2007.
To Catch a Predator teve um rosto carismático que lhe ficou eternamente associado, o do apresentador Chris Hansen (Chicago, n. 1959), que Robert Pattinson agora interpreta. O programa aliciava por telefone potenciais abusadores sexuais e pedófilos a partir de falsos perfis de adolescentes forjados nos seus bastidores. Uma vez fisgados pela manobra de sedução, os criminosos eram conduzidos a locais insuspeitos, contudo apetrechados pela produção do programa com câmaras ocultas e microfones encobertos. No momento certo, Chris Hansen entrava então impetuosamente em cena. E desmascarava em directo os criminosos que já tinham a polícia à espera, para gáudio dos telespectadores orgulhosos da sua TV justiceira.
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Primetime passa-se em 2006, na altura em que o programa chegou ao horário nobre (o “primetime” do título), e pano para mangas não lhe falta. Por isso se estranha ainda mais a falta de objectividade de Lance Oppenheim, incapaz de escolher um caminho, um ponto de vista, face a este episódio extremo da história da TV americana. Por outro lado, o Chris Hansen composto por Robert Pattinson é uma figura completamente inverosímil enquanto anfitrião de um programa televisivo que liderou audiências nos Estados Unidos. Pattinson quis dar-lhe garra e pêlo na venta, tornando-o um tipo maníaco, por vezes irascível, sempre deslumbrado com a sua própria importância (veja-se a reação dele quando o programa atinge o topo das audiências). Mas a realidade em que Primetime se baseia é outra, está documentada — e o próprio Hansen, que continua a trabalhar como jornalista de investigação criminal, é dela vivo testemunho. Resultou o trabalho de dramatização exagerado, sem que o filme retire daí quiasquer dividendos. Aliás, bem mais convincente é o que faz Skyler Gisondo na pele de Dan Plumb, o jovem actor aspirante que é contratado para fazer-se passar por menor de idade naquela operação.
Primetime quer ser uma sátira aos media americanos de há 20 anos? Um film noir actualizado? Um horror movie? Poderia encarrilar por qualquer uma destas hipóteses. Mas o filme hesita, sem escolher nenhuma delas nem chegar verdadeiramente a lado algum. Os ambientes feitos de néon e de imagens esborratadas que assinalámos acima sugerem, aliás, que há em Primetime um certo fascínio pelo regime de imagens do programa retratado, ao invés de um confronto.

A certa altura, outro desnorte, quando o drama parece deslocar-se da caça aos predadores para a vida privada de Hansen e as suas adúlteras aventuras (um subenredo episódico que só vem acrescentar palha e tirar força ao eixo principal), bem como para as intrigas de bastidores da televisão americana, alimentadas pelo veneno dos canais concorrentes da NBC, verdes de inveja do êxito do programa (assunto que dava para outro filme). Mas nada disto é seriamente desenvolvido. E o desperdício torna-se ainda maior quando Primetime, para apaziguar a audiência, insinua que esta história ficou definitivamente encerrada no seu tempo, sem se questionar — por exemplo — se Hansen teve noção dos terrenos que andou a pisar há 20 anos, ultrapassando todos os limites éticos e morais do jornalismo.
Primetime precisava de outras mãos para se tornar universal e indispensável, tal como, no seu tempo, sucedeu com Network/Escândalo na TV (1976), de Sidney Lumet. Precisava de um argumentista calejado e de um cineasta corajoso que pegasse neste assunto e soubesse pô-lo a reverberar no presente. Afinal, To Catch a Predator foi o reality show que ousou — e parcialmente conseguiu — “substituir” a barra dos tribunais e “condenar” criminosos em praça pública, num perverso voyeurismo servido aos americanos pela hora do jantar. Foi o apogeu da infâmia televisiva — nunca antes assim atingida e nunca mais desse modo repetida — com consequências desastrosas que forçaram a televisão a traçar linhas vermelhas. Acontece que essas consequências não desapareceram de todo da sociedade. Antes pelo contrário: apenas se transferiram para a Internet e para as redes sociais. E já nem precisam do horário nobre para entrar nas casas e ocupar as vidas das pessoas.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.