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(A) :: A somar apoios, Flávio Bolsonaro já promete mexer na Constituição. Lula aumenta presença nas redes sociais

A somar apoios, Flávio Bolsonaro já promete mexer na Constituição. Lula aumenta presença nas redes sociais

Terceira via tende a apoiar Flávio Bolsonaro, que soma apoios do centro. Candidato adiantou que quer mudar Constituição, mas já foi aconselhado a "moderar o tom". Lula vira-se para as redes sociais.

José Carlos Duarte
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A vitória na primeira volta parece ter dado energia e confiança a Flávio Bolsonaro. O filho do antigo Presidente brasileiro aparenta já se ver no cargo de Presidente, antecipando o primeiro lugar na segunda volta, no dia 25 de outubro. Esta terça-feira, somou o importante apoio de um dos eliminados, prometendo também mexer na Constituição brasileira. Com o Congresso nas mãos da direita, o candidato vê a oportunidade ideal para “redemocratizar” o país e para as “instituições voltarem a respeitar a Constituição”.

É uma promessa que tanto pode mobilizar os eleitores mais fiéis como assustar os centristas. Flávio Bolsonaro veio tentar refrear as preocupações deste último eleitorado esta quarta-feira, prometendo que as mudanças serão feitas “com ponderação e com respeito à Constituição”, de maneira a respeitar e honrar “cada segmento da sociedade”. No topo das prioridades do candidato está uma reforma do poder judicial e também a redução da maioridade penal — ou seja, diminuir a idade em que se pode ser preso dos atuais 18 para 16 anos.

Nesta segunda volta, Flávio Bolsonaro pretende manter o bom momento, não se expondo e evitando cometer erros que possam prejudicar a sua eleição para o Palácio do Planalto. Apesar disso, ainda faltam quase três semanas para a nova ida às urnas — e o tempo pode ser usado pelo rival, Lula da Silva, para ganhar votos. O atual Presidente brasileiro está ainda a redefinir a trajetória para evitar uma nova derrota, e o caminho para a reeleição é complicado.

Se Flávio Bolsonaro pretende uma “campanha limpa” e já está a adiantar medidas, Lula da Silva tem optado por atacar o adversário, aumentando a presença digital. O filho do antigo chefe de Estado aparenta jogar à defesa: apenas precisa de manter a vantagem e contar com os apoios da terceira via. Já o candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) precisa de mobilizar principalmente aqueles que não foram votar no passado domingo.

Ronaldo Caiado junta-se a Flávio Bolsonaro, partidos de centro e direita também

Flávio Bolsonaro superou o rival por 2,2 milhões de votos. Num país com 160 milhões de eleitores e em que votaram no domingo 125 milhões de votantes, a distância não é abismal — é a menor vantagem já registada numa primeira volta. A taxa de abstenção ficou-se pelos 21%. Há um eleitorado para ser disputado, mesmo que não esteja garantido que vão às urnas a 25 de outubro.

Por um lado, Flávio Bolsonaro tem uma constelação de apoios para explorar. Na terceira via, muitos rostos eram de direita. Aliás, Ronaldo Caiado, que concorreu pelo Partido Social Democrático (PSD), admitiu esta terça-feira que vai apoiar o filho de Jair Bolsonaro: “Está no segundo turno e tem o meu respeito.” “Pode contar com o nosso apoio. Estamos à sua disposição para entrar onde for no nosso país e dizer que o Estado brasileiro não se curva ao crime e à bandalheira”, sublinhou.

“Lula roubou o futuro do Brasil”, atirou Ronaldo Caiado. Na primeira volta, este candidato obteve 2,6 milhões de votos, o que corresponde a 2,18%. A eventual transferência destes votos — ainda que não seja total — solidifica a vantagem de Flávio Bolsonaro face a Lula da Silva. Adicionalmente, partidos de direita como o NOVO e os Republicanos já vieram declarar apoio ao filho de Jair Bolsonaro, assim como dois partidos de centro que integram o Governo do Presidente Lula da Silva, o União Brasil e o Partido Progressistas.

Esta onda de apoios mostra que Flávio Bolsonaro está a ganhar apoios mais substanciais no centro político brasileiro. O chamado ‘centrão’ no Congresso está a endossar o candidato do Partido Liberal (PL), contribuindo para o esforço para que seja eventualmente eleito na segunda volta. Ainda assim, vários centristas ainda não declararam apoio ao candidato, assim como outros candidatos que ficaram pelo caminho na primeira volta.

Exemplo disso é que o terceiro e quarto classificados na primeira volta prometeram, até agora, manter-se neutros. De qualquer forma, os votos de Renan Santos (2,7 milhões), do partido de direita radical Missão, deverão acabar por ir para Flávio Bolsonaro na segunda volta. A transferência da votação do escritor de livros de autoajuda Augusto Cury (3,4 milhões de votos) — que concorreu com o apoio do partido centrista Avante — ainda é mais incerta. No total, na primeira volta das presidenciais na terceira via, estão em jogo nove milhões de votos. 

https://observador.pt/especiais/bolsonarismo-esta-vivo-e-triunfa-no-brasil-flavio-mais-perto-de-ser-presidente-lula-com-reeleicao-em-risco/

A revisão da Constituição de Bolsonaro e a “moderação” de tom

Nem dois dias depois de ter vencido a primeira volta, Flávio Bolsonaro já divulgava um dos seus planos para depois de 25 de outubro, se vencer as presidenciais: mexer na Constituição brasileira de 1988. Lembrando o bom resultado que a direita obteve na Câmara dos Deputados e no Senado nas eleições deste domingo, o candidato destacou que tem os apoios necessários para levar a cabo esta alteração.

À cabeça das alterações está a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Flávio Bolsonaro pretende também uma reforma no poder judicial, nomeadamente na escolha dos juízes para o Supremo Tribunal Federal, assim como encetar uma reforma tributária. Outras das medidas consistem no fim da reeleição, ficando os Presidentes sujeitos apenas a um mandato. No passado, o candidato já apelou à castração química a violadores, mas não mencionou ainda essa medida nos últimos dias.

No evento partidário em que garantiu o apoio de Ronaldo Caiado em Goiânia esta terça-feira, Flávio Bolsonaro justificou a reforma constitucional com o estado atual da democracia. “Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena? Não. A gente tem de respeitar a política”, argumentou, salientando que a transformação do país apenas pode ser concretizada com mexidas na Constituição.

“Vocês acham que o Brasil está numa democracia plena? Não. A gente tem que respeitar a política."
Flávio Bolsonaro

Porém, após todas as polémicas em que se viu envolvida a família Bolsonaro, o discurso é arriscado — e a oposição já aproveitou para criticar as sugestões. “Enquanto o Flávio Bolsonaro quer mudar a Constituição e acabar com a democracia, o Presidente Lula tem a coragem para encarar e propor as mudanças de que o Brasil precisa com diálogo, democracia e participação da sociedade”, avisou o presidente do Partido dos Trabalhadores, Edinho Silva.

Flávio Bolsonaro teve de moderar o discurso e chamou o aliado e popular governador de São Paulo (reeleito este domingo), Tarcísio de Freitas, para tranquilizar a opinião pública. “Existem algumas mudanças que são necessárias. Se quiserem fazer reforma fiscal, provavelmente vão ter de mudar algo na Constituição. Reforma no judicial e reforma política também. E o Brasil precisa de uma série de reformas”, justificou.

De modo a mudar a Constituição, será necessário o apoio de três quintos dos membros quer da Câmara dos Deputados, quer do Senado. Como lembra o G1, estas declarações de Flávio Bolsonaro, assim como a garantia de que tem apoios, poderão ser interpretadas como uma forma de colocar em risco a independência dos poderes e o regime democrático — e isso é nocivo para cativar o eleitorado de centro. O candidato foi aconselhado a “baixar o tom”, de acordo com a Globo.

O tom assertivo sobre a mudança de Constituição, frisa ainda o G1, pode dar a impressão de que Flávio Bolsonaro já se vê como vencedor da segunda volta, uma impressão que não cai bem junto a alguns eleitores. Com uma margem tão pequena face a Lula da Silva na primeira volta, qualquer erro de cálculo pode dar vantagem ao atual Presidente. E esta quarta-feira, o filho de Jair Bolsonaro já usou um tom mais moderado e recusou que vá levar a cabo “um golpe” com a maioria no Congresso: “Vamos parar de mentir, vamos aterrar no mundo real.”

Lula quer chegar a abstencionistas — e começa a publicar vídeos nas redes sociais

A derrota na primeira volta das presidenciais desorientou a campanha de Lula da Silva. O atual Presidente admitiu, no discurso após serem conhecidos os resultados, que estava à espera de ser eleito logo no domingo. Um segundo lugar não era concebível no sábado passado. Houve alguma desilusão e frustração, estando o legado do trabalhista em causa, se perder e não for reeleito.

Por agora, o objetivo prioritário é convocar os abstencionistas. Nestas eleições, registou-se uma taxa de 21,08%, equivalente a pouco mais de 33 milhões de eleitores. É a essas pessoas que Lula da Silva quer chegar, principalmente na região Nordeste. No Brasil, aquela zona do país vota massivamente no PT. Na primeira volta, os nordestinos voltaram a ser fiéis ao Presidente brasileiro, mas nove milhões de pessoas não foram votar.

Estes votos poderão ser fundamentais para Lula da Silva superar a diferença face ao rival. Para isso, o Presidente brasileiro precisa de se expor e fazer chegar a sua mensagem. Nesse sentido, a campanha do chefe de Estado já montou uma task force digital para chegar e seduzir os eleitores mais jovens. Nas redes sociais, está em curso aquilo a que chamam “guerrilha digital”.

Mas não é apenas isso. Nesse esforço para se aproximar de potenciais eleitores, Lula da Silva gravou um vídeo em selfie, tentando aumentar a sua presença digital. Aos 80 anos, na primeira volta, o atual Presidente manteve-se sempre à margem das redes sociais. Isso mudou e, neste vídeo, disse: “O fim da escala 6×1 significa 5 dias de trabalho, 2 de descanso e nenhum centavo a menos no salário”.

https://twitter.com/LulaOficial/status/2107849316765458454

Em declarações ao programa CBN da Globo, Ana Elisa, uma deputada de 21 anos que foi eleita para o Congresso, detalhou que a equipa de Lula da Silva está a repensar a sua comunicação, sendo a jovem uma das responsáveis por essa mudança. “Todo o mundo se mostrou muito aberto às minhas ideias, por entender que a minha votação foi muito expressiva pelas redes sociais”. “A rede social elege”, vincou.

E não é apenas a forma. O conteúdo também está a alterar-se. Num evento esta quarta-feira, para tentar mobilizar os apoiantes, Lula da Silva lançou um lema: “Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão. É esse o nosso lema daqui para frente”. Entendendo que não deu importância à questão da segurança na primeira volta, o chefe de Estado pretende ganhar votos com isso e não deixar que Flávio Bolsonaro domine eleitoralmente esse tópico.

Para Lula da Silva, a derrota já passou e o próprio Presidente já diagnosticou que fez uma “campanha aquém” das possibilidades na primeira volta. A mobilização está agora em curso. Contudo, Flávio Bolsonaro está a angariar cada vez mais apoiantes, tem a terceira via e parte dos partidos de centro com ele. O candidato de direita parte em vantagem, mas o líder brasileiro mostrou que fará tudo para a anular.