(c) 2023 am|dev

(A) :: Sangrenta, eterna, catártica: "Carrie" regressa no tempo certo

Sangrenta, eterna, catártica: "Carrie" regressa no tempo certo

O streaming continua a revisitar os clássicos. "Carrie", revista por Mike Flanagan, agarra o bullying de frente, e integra a obra de Stephen King no presente, apelando mesmo a quem já conhece o final.

André Almeida Santos
text

O fim de Carrie é uma inevitabilidade. Uma rapariga coberta em sangue, uma vingança, mortos, um baile de finalistas arruinado, uma cidade destruída. Repete-se e repete-se, nas diferentes versões e no subconsciente do espectador e leitor. O final de Carrie não é novidade nem spoiler. É assim no livro de Stephen King, de 1974, em que o leitor é preparado e conduzido para um final previsível, sem choque, mas de justiça incontrolável; é assim no filme de 1976 de Brian de Palma, quando uma franzina Sissy Spacek (na altura com cerca de 25 anos, muito mais velha do que a personagem), caminha ensanguentada por um baile de finalistas em total terror. A sensação que transmite é outra: catarse. O final de Carrie é, para lá de uma inevitabilidade, uma catarse. E continua a ser na minissérie que Mike Flanagan criou para a Prime Video (com os oito episódios já disponíveis).

Existe a tentação de descrever esta Carrie como “a Carrie com telemóveis e redes sociais”. Rever o filme de 1976, hoje, confronta-nos com a possibilidade de pensar na vida daquela adolescente no presente. Isso, contudo, já foi feito sem grande sucesso numa adaptação de 2013, por Kimberly Peirce e com Chloë Grace Moretz no papel principal. Mike Flanagan fá-lo melhor. Ao ponto de, quando se descreve a série desta forma a uma das atrizes, ela fica visivelmente irritada. Não é isso e nem sequer se reduz a isso.

Quem se incomoda é Alison Thornton, que interpreta Chris Hargensen, a loira bem-sucedida que vê os seus planos para o futuro (universidade, etc.) a regredir quando percebe que o pai não terá dinheiro para pagar os estudos. Está com problemas. Nunca teve dificuldades. Agora, com um divórcio em casa e um segredo do pai, tem uma angústia que não sabe gerir. Vira-se para o elo mais fraco, Carrie (Summer H. Howell), que acabou de chegar à escola e é uma esquisita. Atormenta-a, manipula-a e cria uma conta de instagram anónima em que goza com ela. É uma vingança não contra Carrie, mas contra a injustiça enquanto conceito geral que a escolheu a ela em particular. Não é inocente, longe disso, mas percebe-se de onde vem este comportamento. Alison é uma consequência do agora, o que lhe acontece não é novidade, o que é novo é como acontece e a ausência de recursos (emocionais, familiares) para gerir a circunstância.

https://www.youtube.com/watch?v=jkUw2nh6fT0

“É um aviso para os perigos das redes sociais, a mentalidade de rebanho e a consequência de se optar por ser apenas espectador. Carrie é só uma personagem, mas representa muitas pessoas que se sentem marginalizadas na escola, na sociedade. E é também um aviso para a forma como ficamos viciados na validação do outro, sobretudo de estranhos. Quando se cresce com redes sociais, é esperado que criemos uma identidade online. Isso é assustador quando, muitas vezes, nem tivemos oportunidade de criar uma estrutura de quem somos”, diz-nos Alison, numa conversa via Zoom, pouco antes da estreia da série. Continua: “A Chris cresceu num lar onde o pai a protegeu sempre de qualquer consequência. Por isso, ela não percebe a escala das suas ações e a destruição que causa. E na série assistimos ao primeiro momento em que ela tem mesmo de lidar com as consequências dquilo que faz, contudo, sem ainda ter presente que que efeitos recairão sobre ela própria a longo prazo.”

Mike Flanagan ganhou notoriedade com a adaptação de The Haunting of Hill House, a partir obra de Shirley Jackson, para a Netflix. Aconteceu em 2018 e foi um sucesso imediato. E foi um daqueles sucessos justificados: a série não só era muito boa, como sabia transportar a obra da autora para o presente. Antes disso, há uma carreira no cinema que não vale a pena desprezar (Absentia e Hush), já adaptou Stephen King (The Life Of Chuck) e em breve Clayface estrear-se-á no cinema (aqui, Flanagan é argumentista). O sucesso de Hill House abriu-lhe portas. Entre os vários projetos que, entretanto, se estrearam com a sua assinatura, há um que vale a pena destacar: Midnight Mass, também na Netflix, uma daquelas grandes séries em tempos de pandemia e à qual Widow’s Bay foi pescar muitas ideias.

Ou seja: Mike Flanagan sabe o que faz. E não é um estranho a nada do que há para contar em Carrie. Os oito episódios não compõem uma espécie de filme extenso. Trata-se de uma série da facto, uma série que se aproveita do tempo para contar mais sobre as personagens, as suas interações, sem violentar a ideia original. Aliás, o início de cada episódio pega numa ideia do livro de Stephen King, técnica que joga a favor das liberdades que a série toma no argumento. Por isso, Chris, que Alison interpreta, não é a típica loira das histórias de adolescentes norte-americanas. O tempo extra dá-lhe profundidade, razão para escolher o tipo com quem escolhe começar a namorar, e dá outra textura ao mal que causa. Textura, nuances, que fazem com que não seja apenas uma figurante para justificar o final de Carrie.

Mike Flanagan imaginou esta Carrie como uma série de adolescentes igual a outras séries de adolescentes. Aliás, é oportuno que surja agora, numa altura em que há muitas do género, em todas as plataformas (a Prime, curiosamente, lidera em conteúdo neste mercado), com os romances amorosos tirados a papel vegetal da história anterior, com as situações extraídas de romances de aeroporto, com a ideia de que há uma cena, mas essa cena não é mais do que uma réplica da série anterior, em que a ocasional exceção merece destaque por ser simplesmente diferente (surgem com alguma regularidade) ou por se desviar do padrão (mais raro, mas andam por aí). Carrie faz parte deste último grupo.

Summer H. Howell veste Carrie, uma adolescente que viveu toda a vida protegida pela mãe (Samantha Sloyan). Uma mãe superprotetora que manteve a filha em casa até não mais ser possível. O catalisador na série é a morte do pai, em circunstâncias estranhas, e a descoberta pelos serviços sociais de que Carrie existe. Tem de ir para a escola, a mãe tem de ir trabalhar. Carrie é inteligente e sabe mais do que a mãe pensa que ela sabe, tudo graças a uma vizinha que lhe tem emprestado livros. Isso não a protege da sua inocência e ingenuidade. Não está preparada para a rotina de uma escola secundária. As colegas também não estão preparadas para ela e agem como apenas sabem agir com o estranho: gozar, fazer bullying. É assim na história original, é assim no filme de Brian de Palma, e é assim na série de Mike Flanagan. Nada mudou, apenas a forma como hoje isso se comunica.

“A vida dela é provavelmente pior do que no filme do Brian de Palma. Eu andei na escola pública a minha vida toda, sou atriz desde os oito. De uma forma peculiar e única, sempre me senti um pouco de fora. As pessoas viam-me de forma diferente, tive grupos de amigos diferentes ao longo dos tempos, e foi difícil crescer sem saber bem quem era e onde a minha identidade cabia. Só descobri quem queria ser quando saí do secundário. Por isso, no início de Carrie consigo trazer isso de mim para a personagem, ela está grata e excitada pelo mundo que vai conhecer. Mas faz isso confusa, triste, com raiva, que era algo que eu também tinha”, conta-nos Summer H. Howell, também via Zoom.

A sua Carrie é diferente da de Sissy Spacek, que parecia sempre atordoada pelo mundo que estava a conhecer. Quando o filme termina, continuamos a sentir que aquela Carrie não pertence aqui. E não tem a ver com os seus poderes telequinéticos ou com os ares de bruxa do século XX que o filme transporta. Parte da Carrie de Spacek ser um ícone passa por ela ser sempre uma peça que não encaixa — por mais que ela tente.

O baile dos finalistas é a potenciação disso no filme de Brian de Palma, Carrie encontra uma forma de encaixar — convence-se disso— mas é enganada, ao contrário do espectador. Aquele seria o momento de uma dupla coroação, a do limite do bullying e da vingança imperdoável de Carrie. No palco, quando tudo muda, parece um anjo recluso banhado em sangue: o seu lugar nem é no céu nem no inferno, nem aqui. Para lá disso, há também o da Carrie que não quer pertencer, que só quer matar a mãe. Aqueles tempos e mentalidade apresentavam a mãe como uma vilã.

A Carrie de Summer quer pertencer, quer pertencer tanto que não percebe porque é que o mundo não a quer. Por isso, a cena do baile de finalistas sente-se como uma injustiça, mais do que uma partida extrema. É bem mais cruel do que no filme de 1976. A vingança também será mais pesada. “Carrie será sempre a história de alguém que vem de fora. E o bullying continua a existir, nunca desapareceu. Aliás, até é pior agora, com as redes sociais, os miúdos a crescerem com isso e a necessidade de acharem que precisam de ter uma persona online quando ainda nem sequer descobriram quem são. Afeta-os a eles, às comunidades, porque tudo é partilhado numa altura em que é suposto cometer erros, aprender com eles, superá-los. Só que agora são documentados e partilhados”, conclui Samantha, a mãe de Carrie, depois de ouvir o que Summer tinha a dizer sobre esta interpretação.

“O Mike disse-nos no início de que não há monstros nesta série, mas que temos de passar tempo com o texto para perceber porque é que as personagens fazem o que fazem”, conta Alison Thornton a dado momento na entrevista. Nós, deste lado, gostamos de passar tempo com a série para apreciar porque é que as personagens fazem o que fazem. A Carrie de Mike Flanagan não só explora bem isso, como mostra que a história de Stephen King pode existir em 2026 com uma protagonista que percebe a sua condição e não a aceita, quer conhecer o mundo, ver o que está para lá daquela pequena cidade norte-americana. É uma Carrie sem nostalgia, que quer viver na mente dos adolescentes de hoje. O final, esse, continua a ser uma catarse.