A Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, pediu uma investigação independente à forma como lidou com as denúncias de abuso e assédio sexual, na sequência da indignação provocada pelas alegações de violação em grupo de uma antiga estudante, Jane Doe (nome fictício usado no processo), numa casa da fraternidade Chi Phi, em outubro de 2024.
De acordo com o The New York Times, a investigação será liderada por Sally Yates, antiga procuradora-geral adjunta dos Estados Unidos durante a administração de Barack Obama. A análise vai avaliar a forma como Cornell investiga denúncias de agressão e assédio sexual, os procedimentos disciplinares, a atuação da polícia do campus e a supervisão das fraternidades, irmandades e outras organizações estudantis ligadas à instituição. Além disso, a investigação deverá também analisar a forma como a denúncia de Jane Doe foi tratada e a supervisão das organizações estudantis.
Sally Yates tem uma carreira de várias décadas dedicada ao Departamento de Justiça norte-americano. Foi procuradora federal em Atlanta e, mais tarde, procuradora-geral adjunta. Em janeiro de 2017, enquanto procuradora-geral interina durante os primeiros dias da administração de Donald Trump, ordenou aos advogados do Departamento de Justiça que não defendessem a constitucionalidade da proibição de entrada nos Estados Unidos imposta pela nova administração a refugiados e a cidadãos de vários países. Foi despedida pouco depois por Trump, que a acusou de traição e desobediência.
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Yates trabalha atualmente no escritório de advogados King & Spalding, onde realiza, entre outras funções, investigações independentes para organizações e empresas. Em 2022, liderou uma investigação sobre alegações de abuso e má conduta na Liga Nacional de Futebol Feminino dos Estados Unidos.
A decisão surge depois de terem sido revelados novos dados relativos ao caso de Jane Doe. A estudante contou à polícia do campus, em novembro de 2024, que tinha sido sexualmente agredida por vários membros da fraternidade Chi Phi no mês anterior, depois de ter sido pressionada a consumir álcool e drogas. Não foram apresentadas acusações criminais, a secção da Chi Phi em Cornell foi encerrada e a universidade afirmou ter expulsado alguns estudantes e suspendido outros. O processo, arquivado há dois anos, foi agora reaberto após a jovem ter relatado uma nova versão dos factos, em que diz ter sido drogada e em que não era “capaz de consentir”.
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Após protestos e pressão dos professores, direção da universidade defende análise ao papel das fraternidades e irmandades no campus
A investigação liderada por Sally Yates acontece após vários dias de protestos contra a resposta da universidade ao caso de Jane Doe. Na segunda-feira, estudantes, professores e outros membros da comunidade universitária concentraram-se numa praça da universidade para exigir uma maior responsabilização, transparência e alterações ao processo disciplinar. Para esta quarta-feira está prevista uma manifestação de sete horas.
Na terça-feira, vários professores e funcionários confrontaram os responsáveis da universidade durante uma reunião virtual sobre a resposta ao caso. Segundo a CNN, dois dos estudantes identificados no processo judicial continuam matriculados e a frequentar aulas em Cornell. Alguns professores afirmaram ter dificuldades em lecionar disciplinas frequentadas por estudantes acusados e questionaram a instituição sobre a forma como lidar com a situação e sobre a falta de informação disponibilizada à comunidade universitária.

“Este é, certamente, um desafio cultural para a comunidade de Cornell que estamos a enfrentar”, afirmou Ryan Lombardi, vice-presidente para a vida estudantil e do campus. “Mas sabemos que o mundo está a observar e sabemos que todos estamos a sentir isso”, acrescentou.
Também o presidente de Cornell, Michael Kotlikoff, defendeu uma análise ao papel das fraternidades e irmandades no campus. “Esta é obviamente uma situação absolutamente horrível e indesculpável que ocorreu numa fraternidade. Mas tenho de salientar que isto não acontece apenas nas fraternidades. Preocupa-me que isto seja empurrado para as sombras, para casas que não pertencem à universidade, que são privadas, onde há festas e onde podem acontecer coisas fora do nosso controlo”, disse.