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(A) :: É o dinheiro, estúpido

É o dinheiro, estúpido

Quando falamos em reparações, nunca nos devemos esquecer do seu preço e do que os reparacionistas acima de tudo querem: dinheiro.

João Pedro Marques
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Há poucos dias, no jornal Público, o conhecido activista woke João Moreira da Silva acusou-me de ter mentido quando referi, em anterior artigo no Observador, que o Ministro dos Estrangeiros do Gana tinha afirmado que Portugal fora um dos países que se mostrara disponível para colaborar na concretização dos objectivos políticos do governo ganês, que incluem, entre outros, as reparações financeiras pelo tráfico transatlântico de escravos. Nesse meu artigo afirmei, e cito, que “das duas, uma: ou o governante do Gana está a mentir ou a exagerar — e assim sendo o nosso MNE deve vir diplomaticamente explicar isso mesmo, explicitar a colaboração que terá sido efectivamente oferecida a esse país africano e pôr os pontos nos is. Ou então o ministro ganês está a dizer a verdade, Portugal ter-se-á disponibilizado para atender às suas exigências e de outros países africanos, incluindo o pagamento de reparações, e o governo de Luís Montenegro tem de vir explicar ao país quem o mandatou para tal e por que razão está a caminhar num sentido contrário ao sentimento da generalidade dos portugueses relativamente a essa questão”. Expus, seguidamente, as razões que me levam a temer que o ministro ganês esteja a falar verdade e, nessa hipótese, deixei, no fim desse meu artigo, e cito de novo, “(um) duplo aviso aos portugueses: vão preparando as bolsas porque está em causa muito dinheiro. E vão preparando as gargantas porque terão de engolir uma enorme injustiça”.

Manifestamente João Moreira da Silva não sabe o significado do verbo mentir, e talvez seja por isso que ele próprio mente, e da forma mais venenosa de todas, através da insinuação, como mostrarei no próximo artigo. Para já, e voltando ao caso em apreço, o que importa referir é que não há, no que escrevi no Observador, qualquer mentira, apenas a referência verdadeira às declarações do Ministro dos Estrangeiros do Gana e a minha convicção ou opinião de que se Portugal alinhar na política de reparações pela existência, no passado, do tráfico transatlântico de escravos, vai dispender muito dinheiro.

Desde 2017 que afirmo isso pois não tenho qualquer dúvida de que é esse o objectivo central dos que nos exigem reparações. É interessante verificar que aqui entre nós os defensores das reparações, como, por exemplo, João Moreira da Silva, procuram escamotear ou subalternizar a questão do dinheiro, tentando passar para a opinião pública a ideia de que as reparações envolvem outros e mais importantes aspectos. Porém, é apenas conversa mole para enganar ingénuos. Há, de facto, outras reivindicações, como sejam a exigência de pedidos de desculpa, da monumentalidade e estatuária de pessoas negras, de alterações dos programas da disciplina de História. Todavia, isso são questões acessórias, aperitivos ou contorni, como dizem os italianos, pois o prato principal é a reparação financeira.

Todos nos lembramos da expressão “É a economia, estúpido”, uma das frases fortes da campanha presidencial de Bill Clinton, em 1992, e que procurava que quem queria eleger o democrata nunca perdesse de vista as questões económicas. Por analogia, podemos neste caso dizer “É o dinheiro, estúpido”, ou seja, quando falamos em reparações — que são inaceitáveis e devem ser recusadas por muitas e boas razões que já referi e desenvolvi noutros momentos e locais — nunca nos devemos esquecer do seu preço e do que os reparacionistas acima de tudo querem: dinheiro.

Não sou eu que o digo, não se trata de uma conjectura, invenção ou interpretação minha, são os próprios reivindicantes que o afirmam e que o quantificam. Um dos primeiros a quantificá-las foi o historiador e activista caribenho Hilary Beckles, uma personagem que teve e continua a ter um papel central no movimento reparacionista. O seu livro Britain’s Black Debt, publicado em 2013, explica tudo com grande pormenor, caso João Moreira da Silva tenha curiosidade em lê-lo para se informar melhor. Mas os exemplos são vários. Em França, em 2005, os reparacionistas exigiram 200 mil milhões de euros ao Estado francês como forma de reparação pelo período da escravatura, pretensão que os tribunais nessa época recusaram. Segundo o relatório dos reivindicantes, datado de 2023, Portugal deveria supostamente ao Brasil — só ao Brasil, pois ainda não estavam quantificadas as pretensões africanas — a módica quantia de 20 biliões de dólares, como referi no artigo que então escrevi no Observador. Se João Moreira da Silva quiser ler o extenso relatório, que aparenta desconhecer, ou então faz por esquecer, encontra-o neste link.

Não há, portanto, no que escrevi no meu artigo do passado dia 28 de Setembro, qualquer mentira. Há, em primeiro lugar, a referência a declarações de um ministro ganês que são do domínio público. Há, depois, a afirmação, várias vezes documentada, de que os reivindicantes e reparacionistas querem dinheiro, muito dinheiro. Há, para terminar, a suspeita de que o governo português, que se tem mantido em silêncio sobre esta matéria, ainda que por várias vezes instado a que se pronuncie sobre ela, e que, em 25 de Março último se absteve quando esse assunto foi votado na Assembleia-Geral da ONU, possa estar inclinado a ceder à pressão dos países africanos e caribenhos e a aceitar a ideia (e as consequências) das reparações. Esta é, claro, uma desconfiança minha, que há muito manifesto publicamente. Trata-se, repito, de uma desconfiança, de uma suspeita, de uma interpretação do significado do prolongado silêncio do nosso governo, da abstenção em 25 de Março na Assembleia-Geral da ONU, e, até, da forma tardia como o nosso MNE veio agora finalmente pronunciar-se, à 25ª hora e só depois de André Ventura ter atirado com o assunto para as primeiras páginas, mas não é uma mentira. Mentira é outra coisa. É, por exemplo, o que João Moreira da Silva faz quando me acusa de mentir, e é o que fez no passado, através do oleoso recurso à insinuação, como mostrarei no próximo artigo.