Aos 17 anos, um estudante que quer entrar em Medicina sabe, provavelmente, quantas décimas precisa para chegar à universidade. Sabe quais são as disciplinas em que tem de ter melhores notas, quais os exames que vai fazer e, muitas vezes, quantos pontos lhe faltam para atingir a média do último colocado. Pode saber tudo isto e, ainda assim, conhecer muito pouco da profissão que está a escolher.
Uma chef de cozinha apanha uma infeção viral e, semanas depois, percebe que a comida deixou de saber ao que devia. O açúcar continua doce e o sal continua salgado, mas o morango já não sabe a morango. Meses mais tarde, ao passar por uma panela de arroz doce, sente de repente a canela e o limão. Durante alguns segundos está novamente na cozinha da avó, aos oito anos. Chora ali mesmo, com a colher na mão.
É uma história inventada, mas podia acontecer. E é suficiente para passar quase uma hora a discutir o que está a acontecer no corpo humano. O que significa perder um sentido? Porque é que alguns sabores permanecem e outros desaparecem? Como funciona a memória associada aos cheiros? Que profissionais estudam estes fenómenos? E o que acontece quando aquilo que damos como adquirido deixa de funcionar?
É este tipo de perguntas que está na base do MED_Decode, um programa anual da NMS Junior Academy, da NOVA Medical School, dirigido a estudantes do 10.º ao 12.º ano que pensam seguir Medicina ou outra área da Saúde. Durante 25 semanas, pequenos grupos de jovens encontram-se online uma vez por semana para discutir histórias inspiradas em situações reais da Medicina. Não há testes, classificações ou matéria para decorar. E ninguém precisa de chegar à sessão com a resposta certa.
Decode quer dizer descodificar, e é isso que fazemos todas as semanas. Partimos de uma história e desmontamo-la para perceber o que está a acontecer no corpo, o que pensa quem tem de decidir e o que está em causa para quem recebe cuidados.”
A ideia parte de uma constatação simples: os adolescentes que chegam ao fim do secundário sabem bastante sobre o caminho para entrar em Medicina, mas nem sempre sabem muito sobre o que acontece depois.
Em 2025, 1293 estudantes candidataram-se às 231 vagas de Medicina da NOVA Medical School na primeira fase do concurso nacional. A nota média de candidatura de quem entrou foi de 18,35 valores. Para muitos jovens, os três anos do secundário são vividos em torno desse objetivo. Estudar, melhorar a média, preparar os exames e tentar garantir uma vaga.
Durante esse período, Medicina pode transformar-se numa espécie de meta matemática. Mas a imagem que um jovem de 16 ou 17 anos tem da profissão raramente resulta da experiência direta de quem a exerce. Vem das séries de televisão, das redes sociais, das histórias de familiares e amigos, da ideia de prestígio associada à profissão e, sobretudo, daquilo que consegue imaginar a partir de fora.
Raramente vem do dia-a-dia de quem exerce Medicina. Este é um curso onde se tem de saber anatomia, mas também como usar eticamente a inteligência artificial, como decidir sem ter toda a informação, como dar más notícias, trabalhar em equipa e cuidar de quem está à nossa frente, seja quem for.
É possível, por isso, passar três anos a preparar-se intensamente para entrar num curso sem ter tido uma oportunidade real de perceber se a profissão corresponde àquilo que se imaginava.
O MED_Decode tenta criar esse espaço antes da decisão.
Na véspera de cada sessão, os participantes recebem uma história com cerca de uma página. Pode ser um doente, uma família, um exame, uma descoberta científica ou uma situação em que não existe uma resposta evidente. No dia seguinte, ao fim da tarde, reúnem-se durante 50 minutos, em grupos de oito a dez pessoas. A conversa é orientada por profissionais de saúde ou estudantes dos últimos anos do curso de Medicina da NOVA Medical School.
Em vez de uma aula, há perguntas. Porque é que pensas isso? O que te faria mudar de ideias? Que informação está a faltar? O que não podemos mesmo falhar?
A intenção é aproximar os jovens de uma das dimensões centrais da prática médica: o raciocínio. Observar, relacionar informação, formular hipóteses, procurar dados que permitam confirmá-las ou rejeitá-las e tomar decisões sem ter sempre todas as respostas.
As histórias percorrem diferentes dimensões da Medicina. Há casos relacionados com anatomia, fisiologia e genética, mas também com doença, medicamentos, exames, imagem médica, inteligência artificial, comunicação clínica e ética. Um futebolista com uma lesão no joelho pode servir para discutir o que acontece quando um tecido é danificado. Uma família surpreendida por um teste genético pode levar a uma conversa sobre informação, risco e decisões. Um estudante sentado à porta de uma oral de Anatomia, com o coração acelerado e as mãos frias, pode abrir uma discussão sobre stress, memória e ansiedade.
A partir de uma situação aparentemente simples, a conversa pode seguir em várias direções.
Penso que é precisamente aí que se identifica uma das aprendizagens mais importantes: a capacidade de dizer “não sei”. Se tivesse de escolher só uma, seria a capacidade de dizer “não sei” em voz alta, sem vergonha. A escola costuma ensinar o contrário: quem não sabe, cala-se. Na Medicina, um “não sei” dito a tempo salva vidas. Numa empresa, evita erros que custam caro.
É uma ideia que contraria uma parte da lógica escolar. Num teste, há uma resposta certa e uma resposta errada. Na prática clínica, muitas vezes, a informação é incompleta, as hipóteses são várias e uma nova evidência pode obrigar a mudar de opinião. Saber reconhecer a incerteza pode ser tão importante como saber aquilo que já se conhece.
Também por isso a ética aparece de forma transversal nos casos. A pergunta não é apenas “podemos fazer isto?”, mas também “devemos fazê-lo?”. O que se pode fazer com determinada informação? O que deve ser partilhado? O que deve permanecer privado? Como se toma uma decisão quando uma tecnologia permite fazer algo que até há pouco tempo era impossível?
A inteligência artificial tornou estas perguntas ainda mais concretas. Com a inteligência artificial a entrar nos cuidados médicos, vamos precisar cada vez mais de profissionais que façam essa pergunta sem que ninguém lha peça.
Mas há outra dimensão no programa que interessa particularmente a quem está do outro lado desta escolha: perceber que não escolher Medicina também pode ser uma boa decisão.
Escolher bem pode ser não escolher Medicina. Quem percebe aos 16 anos que o que lhe desperta entusiasmo é a investigação, a engenharia biomédica ou a saúde pública fez uma descoberta tão valiosa como quem confirma a vocação. Fazer essa descoberta no terceiro ano do curso sai muito mais caro.
A questão é especialmente relevante numa idade em que as escolhas começam a ganhar consequências concretas. Aos 17 ou 18 anos, muitos jovens estão a decidir pela primeira vez que profissão querem exercer, mas fazem-no ainda com uma experiência limitada do mundo do trabalho.
No caso da Medicina, existe ainda uma contradição particular. Para entrar, é preciso conhecer muito bem o sistema de acesso e estar disposto a estudar durante anos. Para decidir se se quer ser médico, há poucas oportunidades de conhecer verdadeiramente a profissão antes de começar o curso.
É essa distância que o MED_Decode procura reduzir.
Não pretende ensinar Medicina a adolescentes, nem antecipar o currículo universitário. Pretende mostrar-lhes uma forma de pensar e dar-lhes contacto com pessoas que já estão dentro dessa realidade. Para quem tem a certeza de que quer seguir Medicina, pode ser uma forma de transformar uma ambição numa escolha mais consciente. Para quem ainda tem dúvidas, pode ser uma oportunidade para perceber se a imagem que construiu da profissão corresponde à realidade.
E há ainda uma consequência mais imediata. Para um estudante que passa grande parte da semana a estudar Biologia, Química ou Física para conseguir a média necessária, voltar a encontrar a razão pela qual começou a interessar-se pela Medicina pode ter um valor que não aparece numa pauta.
Para entrar em Medicina, qualquer estudante passa muito tempo a estudar matérias de que nem sempre gosta. O MED_Decode dá um pouco daquilo que despertou a vontade de seguir Medicina: uma pessoa doente, uma dúvida, uma decisão para discutir. É uma forma de manter viva a motivação e de lembrar porque vale a pena o esforço do resto da semana.
No final, o resultado pode ser diferente para cada participante. Alguns podem sair ainda mais convencidos de que querem ser médicos. Outros podem descobrir que aquilo que os entusiasma está noutra área da Saúde ou da Ciência. Nenhum dos dois resultados significa necessariamente que o programa falhou.
Porque talvez o objectivo não seja levar mais jovens a escolher Medicina.
Talvez seja simplesmente ajudá-los a escolher melhor.
O MED_Decode começa a 26 de Outubro e decorre durante 25 semanas, com uma sessão online de 50 minutos por semana, em grupos de oito a dez participantes. É dirigido a estudantes do 10.º ao 12.º ano interessados em Medicina ou noutras áreas da Saúde. Ao longo do ano serão abertas novas turmas.