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(A) :: Ronaldo

Ronaldo

Às vezes, há coisas para a gente rir. O nosso primeiro correu para o telefone com o louvável propósito de sanar o conflito.

José Meireles Graça
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Em 1966 John Lennon disse, numa entrevista, que os Beatles eram mais famosos do que Cristo.

Quase ninguém se lembra do episódio mas os Beatles ainda moram no coração de quem naquela época era adolescente. Nas gerações que vieram depois há alguma lembrança, mas cada vez menos conhecem o fenómeno que os Beatles foram, que músicas os celebrizaram e o que justificava, tal o sucesso, o absurdo e bizarro da declaração.

Jesus está tão vivo como sempre e, se perguntados hoje, inúmeros adolescentes dirão que realmente não sabem bem quem foram os Beatles mas já ouviram o Vovô referi-los.

Com diferença de grau porque ninguém alega comparações com a divindade, tenho ouvido, a propósito de Ronaldo e por causa dele ter batido com a porta da Selecção, coisas extraordinárias, a mais delirante das quais é que Ronaldo é o mais conhecido português de sempre.

Sabem o que são as redes sociais, aqueles cafés gigantescos onde toda a gente vozeia e se alivia de comentários e opiniões no seu canto onde estão amigos, correligionários, passantes, inimigos, curiosos e desconhecidos. Esta gente infiel, em vez de ouvir com unção os mandarins na televisão e nos jornais, fala pelos cotovelos, com frequência em mau português e com pior raciocínio, donde os tais mandarins, como Paulo Portas, Miguel Sousa Tavares e outros, desenvolveram um ódio exacerbado contra elas. Veem todos os defeitos que têm, e os perigos que albergam e os abusos que lá proliferam, mas não o quanto ajudam a dar voz a quem não a tinha, a estabelecerem-se laços de gente afim que sem elas nunca se teria conhecido, a difundir algum conhecimento e informação, a combater alguma solidão e muito mais.

Políticos mais reguilas já não dispensam seguidores e propaganda naqueles meios. E como são gente que está no poder ou quer lá chegar, há mais que muitas diligências para, em nome da Democracia, da Verdade, do Bem, do combate às notícias falsas e outras grandiloquências, inventar formas de fechar a matraca a gente desalinhada. Na velha Albion, um país que não inventou a democracia mas nos tempos modernos já a teve exemplar, pode a polícia bater à porta do cidadão por causa de o imprudente ter dito no X ou no Facebook, alguma coisa que possa ofender o grupo de pessoas errado.

E foi numa rede que, no momento inicial do tsunami Ronaldo, escrevi: Tenho ouvido dizer que o Cristiano é o português mais conhecido de todos os tempos. Todos? Mais conhecido talvez tenha sido nos últimos 20 anos e venha a ser nos próximos 20. Depois regressamos ao Vasco da Gama e aos outros.

O palmarés de Ronaldo, a sua ambição, a sua capacidade de trabalho, a sua notoriedade mundial, a sua fortuna legitimamente ganha, a sua vida privada (maneira de dizer, de privada tem pouco), as características do seu jogo, a importância que ainda tem ou ainda podia ter para a Selecção e a falta ou ausência dela que nela fará, os contornos exactos da sua desinteligência com Jorge Jesus, o seu presumível futuro próximo e longínquo, tudo isto e muito mais tem sido objecto de infindáveis discussões, entrevistas, artigos, opiniões e memes. Nas redes tem sido arraial todos os dias, e foi por causa dele que escrevi o que escrevi.

Julgava que estava a defender um ponto de vista pacífico. O que poderia dizer sobre os contornos do caso, numa perspectiva de admirador de Ronaldo, apreciador do jogo e opinador contumaz nas controvérsias sobre casos que excitam a opinião pública, já vira nessa altura escrito por gente que sabe de futebol mais do que eu e se encontra felizmente exornada da mesma clarividência que me assiste, pelo que não iria acrescentar nada.

Veio gente de discernimento informar que não senhor, Ronaldo era efectivamente o Português mais conhecido de sempre. Ainda fui dizendo que já não há tanta gente a conhecer Pelé como houve no passado e que daqui a 100 anos Jorge Amado será lembrado, mas Pelé quase nada. E, podendo fazê-lo, não deitei mais achas para a fogueira porque gosto de folgar à volta dela, mas não se houver quantidade excessiva de fumo.

Daí para a frente tenho gozado o prato. Decerto infeliz para Ronaldo, que poderia ter saído se a tempo num andor sob os aplausos da multidão grata, incluindo a que se está nas tintas para o futebol; para o seleccionador, que passava bem sem esta polémica; para as autoridades desportivas, que fazem as contas aos ganhos que vão deixar de ter; e para os amantes do desporto, que tão cedo não verão outro portento e já estão em luto por efeito de saudades antecipadas.

Que se amanhem todos, a alegria e a tristeza fazem parte de um jogo que, usando a consagrada expressão que utilizam os facundos comentadores de futebol, é muito mais do que o que se passa dentro das quatro linhas.

É precisamente fora delas que, às vezes, há coisas para a gente rir. O nosso primeiro correu para o telefone com o louvável propósito de sanar o conflito, tendo falado com Ronaldo, Jesus e Proença (o presidente da FPF, vagamente patético como é costume de quem está em tais lugares). Não se conhece o teor das conversas, mas é provável que tenha lembrado a Ronaldo a mentalidade CR7, que já apontou como exemplo para o país seguir. Se foi o caso, Ronaldo bem poderá ter-lhe dito que os jovens, hoje em dia, já batem com a porta do país, de modo que não está a dar um mau exemplo. E com certeza não disse, porque é bem-educado e talvez nem lhe tenha ocorrido que o papel de um primeiro-ministro não é dar uma de psicólogo ou de alcoviteiro.

Bem bem, Montenegro é assim, acha que passar a mão pelo pêlo aflito do povoléu lhe conserva ou reforça o crédito. Só ele? Não, Miguel Albuquerque veio dizer umas coisas exaltadas em “defesa incondicional do jogador”. Uma defesa de um avançado, portanto, feita pelo treinador do Governo Regional.

Marcelo não podia previsivelmente ficar calado, pelo que fez um “apelo directo à união no seio da estrutura da Seleção Nacional”. O homem já não está no activo e passou ao lado de uma carreira de comentador desportivo que seria a única que lhe iria bem à vocação e às capacidades, donde devemos apreciar a expectoração com benevolência.

Já o ministro da Economia defendeu publicamente que “seria muito bom para Portugal poder continuar a contar com este potencial”, manifestando o desejo de ver resolvida a crise para que o jogador regresse à Seleção. Tinha tido a precaução de esclarecer que não é “especialista em futebol” e que “não se pretendia intrometer nas decisões desportivas”, razão pela qual se intrometeu.

O PR foi fiel àqueles eleitores que (como eu) nele votaram sobretudo para estar calado ou dizer piedades, numa salutar vacina contra a marcelite, e por isso optou por guardar silêncio – kudos para ele.

No momento em que escrevo ainda anda poeira no ar, não se esperando que tão cedo assente. Há pressões para que Cristiano volte, Jesus declara que está focado no próximo jogo, e aguarda-se que o jogador revele a qualquer momento o que disse a Jesus, o que Jesus lhe disse, e o que um e outro fizeram mas não deviam, ou deviam e não.

O meu avô materno, há muito morto, dizia ao neto mais velho quando a avó contava histórias do familório: “Ele disse-le, ela disse-le, eles disseram-le, elas disseram-le… traquetices”.

Nota editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não refletem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.