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(A) :: Comentários editados, desmentidos e o receio nos países vizinhos. O que se sabe sobre a morte num laboratório russo que investiga a peste?

Comentários editados, desmentidos e o receio nos países vizinhos. O que se sabe sobre a morte num laboratório russo que investiga a peste?

Há relatos contraditórios sobre a morte de técnica de 28 anos do instituto anti-peste da Sibéria. Moscovo diz que a causa é pneumonia de origem desconhecida. OMS acompanha, EUA pedem transparência.

Adriana Alves
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A morte na Sibéria de uma técnica de um laboratório russo especializado em peste lançou alguns alarmes no final da semana passada, que se mantinham nos últimos dias. Moscovo disse que a mulher morreu de uma pneumonia de origem desconhecida, garantiu que os contactos da investigadora estão a ser analisados e que a situação está “estável”. Mas chegaram relatos contraditórios sobre hospitais em quarentena e vários comunicados de entidades russas alterados ou apagados. Um deles, de um governador, dava como comprovada a morte por peste. Jornais independentes russos avançaram que quase 200 pessoas ficaram sob observação e vários hospitais, incluindo uma maternidade, em quarentena.

O caso provocou uma rápida reação dos Estados Unidos. Num primeiro momento, o secretário de Estado afirmou que não existiam motivos para alarme, mas 24 horas depois dizia que estavam a acompanhar a situação “hora a hora”, pedindo mais transparência a Moscovo. O próprio Presidente norte-americano, Donald Trump, sublinhou que Washington estaria disponível para prestar apoio a Moscovo, se fosse necessário.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está em contacto com as autoridades russas sobre o episódio e garante que o risco para a saúde pública é baixo. Esta terça-feira, um porta-voz revelou que a Rússia já respondeu de forma oficial ao pedido que foi enviado, garantindo que não foram identificados casos de peste.

O Kremlin pronunciou-se apenas para pedir à população que mantenha a calma e evite especular sobre a situação. “As pessoas só devem confiar nos comunicados oficiais da Rospotrebnadzor [a agência federal russa de saúde pública] em vez de ouvir os vários rumores e especulação”, sublinhou o porta-voz, Dmitry Peskov. O que se sabe, afinal, sobre o caso?

De onde surgiram os relatos de peste?

Tudo começou em Irkutsk, na região da Sibéria, onde está sediado o Instituto de Investigação Anti-Peste de Irkutsk da Sibéria e Extremo Oriente. O primeiro relato sobre o caso surgiu na sexta-feira passada. O governador regional de Irkutsk revelou no Telegram que teve uma reunião extraordinária com a médica e responsável da Rospotrebnadzor. Revelava que o encontro com Anna Popova “foi motivado por relatos de um caso suspeito de uma doença infecciosa altamente perigosa num residente local”.

“Gostaria de informar que todos os contactos identificados foram colocados sob observação médica. Até ao momento, nenhum dos contactos apresenta sinais de doença e os resultados dos exames laboratoriais foram negativos”, escreveu Igor Kobzev naquela rede social, um meio recorrente para comunicar com a população.

https://observador.pt/2026/10/03/mulher-morre-vitima-de-peste-na-siberia-apos-acidente-em-laboratorio-autoridades-russas-colocaram-200-pessoas-em-isolamento/

No mesmo dia, o presidente da Câmara de Shelekhov, cidade próxima da capital regional onde a técnica foi hospitalizada, admitiu que muitos residentes estavam já a questionar-se sobre o assunto. Adiantou que, desde quinta-feira, o departamento de admissões e altas do hospital local estava suspenso. “O pessoal médico e a Rospotrebnadzor estão a avaliar a situação”, disse Maksim Modin, também no Telegram.

A primeira menção à peste partiu do governador de Buryatia, região que partilha fronteira com Irkutsk. Ainda na sexta-feira, Aleksei Tsydenov afirmou que “a mulher que morreu de peste na região de Irkutsk” não tinha visitado Buryatia. Mais tarde, refere o New York Times, a publicação foi alterada. Agora, pode ler-se que “a mulher que possivelmente morreu de peste na região de Irkutsk não visitou a Buryatia”.

“Nenhum microrganismo ligado à atividade profissional foi identificado nas amostras da paciente”.
Rospotrebnadzor, agência russa responsável pelo controlo de doenças

Segundo o mesmo jornal, não foi o único a alterar ou apagar comunicados. Desapareceu também um post do Telegram das autoridades da vizinha cidade de Baikalsk, já no sábado. A publicação desaconselhava viagens a Shelekhov, citando um “caso de peste”. O jornal regional independente russo Lyudi Baikala especifica que foi apagado duas horas depois da publicação.

Segundo o New York Times, também foram apagados três posts da Ren-TV, a rede federal de notícias russa. Um deles mencionava o nome da funcionária e que a sua área de investigação era a peste. O Lyudi Baikala fala em pelo menos cinco publicações que desapareceram.

O Lyudi Baikala noticiou também que quatro hospitais da cidade, incluindo um pediátrico, fecharam por três semanas e que os médicos “já falam abertamente de peste”. Esta segunda-feira, os quatro hospitais desmentiram a informação.

O que dizem as autoridades de saúde russas?

A Rospotrebnadzor, agência russa responsável pelo controlo de doenças, afirma que “uma funcionária de um instituto anti-peste na região de Irkutsk” foi “diagnosticada com pneumonia” de origem desconhecida.

Num comunicado publicado pelas agências estatais, a Rospotrebnadzor garante que “nenhum microrganismo ligado à atividade profissional foi identificado nas amostras da paciente”. Disse também que não foram detetadas mudanças no estado de saúde dos seus contactos relacionadas com patologias infecciosas.

A agência garantiu ainda que se verificou que o instituto de Irkutsk estava a cumprir os requisitos de segurança e que “não foi identificada nenhuma situação de emergência que envolvesse microrganismos patogénicos”.

Já na segunda-feira, a Rospotrebnadzor adiantou que algumas pessoas que contactaram com a funcionária foram diagnosticadas com Covid e Rinovírus (este último vírus provoca a constipação comum). “Testes laboratoriais confirmaram dois casos de infeção por Covid-19 e por Rinovírus“, indicou, citada pela agência estatal Tass. Acrescentou que não foram detetados outros patogéneos entre os outros contactos.

Qual tem sido a reação internacional?

Os Estados Unidos garantiram desde o primeiro momento que estão a seguir o caso. Esta terça-feira, o secretário de Estado norte-americano sublinhou que a Rússia deve ser transparente e “partilhar mais informações com o mundo”. “Estamos a acompanhar a situação de perto, hora a hora“, disse aos jornalistas durante uma viagem à Islândia.

O Presidente norte-americano já se tinha pronunciado sobre o assunto na segunda-feira. “É um grande problema para a Rússia”, afirmou Donald Trump, acrescentando que Washington está disposto a ajudar o país.

A peste é uma doença infecciosa séria, mas os casos podem ser tratados com antibióticos. Não há registos de casos na UE "há décadas".

Em declarações à CNN, a Organização Mundial da Saúde (OMS) disse estar em contacto com as autoridades russas para tentar perceber as circunstâncias do episódio, os testes em curso no laboratório e os seus resultados. “Tendo em conta a informação não oficial disponível, o risco de saúde pública para a população em geral parece ser baixo”, apontou.

Esta terça-feira, um porta-voz da OMS sublinhou numa conferência de imprensa, em Genebra, que não há sinais de um surto mais amplo. Christian Lindmeier acrescentou que a avaliação do risco de saúde era de “moderado a baixo” na região de Irkutsk; “baixo” no resto da Rússia; e “muito baixo” para a Europa.

Segundo a Reuters, Lindmeier leu o comunicado enviado à OMS pelas autoridades russas, que afirmava que “nenhum caso desta perigosa doença foi registado na cidade de Irkutsk”. A agência nota que, anteriormente, as autoridades russas tinham dito à organização que estavam a investigar se a causa da morte era a peste pneumónica.

O Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) sublinhou em comunicado que “está a acompanhar de perto a situação”, mencionando que ainda existe a suspeita de a morte no laboratório na região da Sibéria ter sido provocada por peste pneumónica. “Tendo em conta a informação limitada atualmente disponível, não há relatos de casos secundários nem evidências de transmissão de humano para humano que causariam a disseminação da doença”.

Por prevenção, o Cazaquistão, o Quirguistão e o Uzbequistão anunciaram que estão a fortalecer as medidas de precaução nas suas fronteiras para evitar a possível propagação de doenças infecciosas.

Que teorias circulam sobre a morte da funcionária?

As autoridades russas não revelaram para já um nome. No entanto, o Lyudi Baikala avança que se trata de Daria Shipilova, uma técnica de laboratório de 28 anos do instituto anti-peste de Irkutsk. O jornal independente refere que morreu na noite de 2 de outubro. A jovem esteve internada num hospital em Shelekhov, uma cidade próxima da cidade de Irkutsk, já perto da fronteira com a Mongólia.

O jornalista local russo Pavel Stepanov escreveu no Telegram que a funcionária ficou doente depois de partir acidentalmente um tubo de ensaio que continha bactérias de peste — uma doença causada pela bactéria Gram‑negativa Yersinia pestis. A Rospotrebnadzor, porém, garante que não foi esse o caso. Isso levou o repórter a emitir um segundo comunicado em que questiona o motivo de agências e jornais fiéis ao Kremlin terem apagado informações sobre Irkutsk.

A Rospotrebnadzor também rejeitou outras teorias que têm circulado sobre a morte da técnica. Uma delas a de que ficou doente depois de viajar para a Tailândia, outra em como teria adoecido após estar num local próximo à fronteira com a Mongólia — país que tem registado nos últimos anos alguns casos de peste.

O que é o instituto anti-peste de Irkutsk?

Chama-se Instituto de Investigação Anti-Peste de Irkutsk da Sibéria e Extremo Oriente. Foi criado em 1934 para controlar surtos de peste, lê-se na página oficial. O seu fundador, o cientista Skorodumov Aleksey Mikhajlovich, ajudou a conter surtos na Sibéria, Mongólia e China.

Nos anos seguintes à sua fundação o instituto começou a investigar outras doenças, como a cólera e o antraz. Atualmente emprega 95 cientistas.

O que é a peste e como se propaga?

A doença é provocada pela bactéria Yersinia pestis. Esta é tipicamente encontrada em pequenos mamíferos e suas pulgas, lê-se na página da OMS.

Há diferentes tipos de peste. A bubónica, que provoca o inchaço dos gânglios na pele, é a mais comum. Já a peste pneumónica, que causa sintomas como tosse e falta de ar, é considerada o tipo de peste mais contagioso, pois pode ser facilmente transmitida de pessoa para pessoa por partículas respiratórias. A peste septicémica não se transmite de pessoa para pessoa, mas ocorre quando as bactérias da peste se multiplicam no sangue.

“A peste é transmitida entre animais e humanos pela picada de pulgas infetadas, contacto direto com tecidos infetados e a inalação de partículas respiratórias infetadas”, refere a OMS. É tratada com recurso a antibióticos. A organização sublinha que a doença tem um rácio de mortalidade de 30% a 60% no caso da bubónica e que é sempre fatal no caso da pneumónica se não for tratada.

Os casos de peste são comuns?

Segundo a OMS, dez países relataram casos suspeitos ou confirmados de peste entre 2019 e 2025, totalizando quase 4 mil casos suspeitos por ano.

O Instituto Robert Koch, órgão responsável pelo controlo de doenças na Alemanha, refere que são registados até 3 mil casos de peste por ano em todo o mundo. As regiões mais afetadas atualmente por surtos de peste são a República Democrática do Congo, Uganda e, principalmente, Madagáscar, onde ocorreu o último grande surto, em 2017.

A região da Ásia Central também tem um histórico de infeções por peste. Entre 2019 e 2025, a Mongólia — país que faz fronteira com a Sibéria — confirmou 17 casos de peste. Nessa altura foram confirmadas sete mortes.

Num comunicado divulgado esta terça-feira, o Centro Europeu de Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) refere que a peste pneumónica “é uma doença infecciosa séria”. No entanto, acrescenta que “não há registos de peste na União Europeia há décadas, e que a doença pode ser tratada eficazmente com antibióticos facilmente disponíveis” na UE.