(c) 2023 am|dev

(A) :: Dois fotojornalistas que retrataram o 7 de outubro: um em Gaza, outro em Israel

Dois fotojornalistas que retrataram o 7 de outubro: um em Gaza, outro em Israel

Koren foi dos primeiros fotojornalistas a chegar à fronteira com Gaza e ainda escapou a tiroteios com elementos do Hamas. Mohammed cobriu o conflito no lado de Gaza e acabou por fugir para o Egito.

Inês Lacerda
text

O dia começou da mesma forma para Ziv e Mohammed. Com os filhos ao lado, a esperança de um sábado em família foi interrompida pelo som das sirenes ou dos rockets. Os dois veteranos do fotojornalismo de guerra perceberam rapidamente que dia 7 de outubro iria mudar as suas vidas.

Ziv Koren liga ao Observador durante a noite, por WhatsApp, a partir do seu apartamento, num prédio alto de Telavive. Sem se aperceber, o fotojornalista, que por várias vezes trabalhou integrado nos militares israelitas, parece estar numa cena do filme NAZA, tão polémico nas últimas semanas, com as luzes dos prédios da capital como pano de fundo. Enquanto recorda, de forma serena, tudo o que o levou até esta conversa, acende um cigarro e vai olhando várias vezes pela janela.

Com Mohammed falamos às 15 horas de Gaza e também às 15 horas de Cairo, onde o fotojornalista encontrou um local seguro depois de viver sete meses junto ao conflito. Mohammed não mostra a cara, mas se mostrasse, e estivesse em Gaza, a imagem que teria da sua janela seria bastante contrastante com a de Ziv, onde em vez de prédios e luzes noturnas veríamos o sol a destapar a destruição. Vencedor do principal concurso de fotografia do mundo, o World Press Photo, Mohammed conta-nos como foi e é sobreviver na linha da frente de uma guerra sem precedentes.

Uma conversa com dois fotojornalistas, onde as fotografias não os deixam mentir

Ziv Koren é fotojornalista do jornal diário israelita Yedioth Ahronoth e trabalha em simultâneo com a agência norte-americana Polaris Images. Do outro lado do conflito, Mohammed Abed é fotojornalista de uma das maiores agências internacionais, a Agence France-Presse (AFP) e encontra-se atualmente a trabalhar a partir do Cairo, no Egito, para onde se deslocou após sete meses a cobrir o conflito dentro da Faixa de Gaza.

Os números da violência que ambos documentaram diariamente são frios e devastadores. O ataque promovido pelo Hamas a 7 de outubro de 2023 provocou cerca de 1.200 mortos do lado israelita, na sua grande maioria civis assassinados em suas casas, nas ruas e num festival de música, entre eles crianças e mulheres. Por sua vez, a resposta e a subsequente ofensiva militar do exército israelita na Faixa de Gaza já causaram mais de 41 mil mortos do lado palestiniano, com dezenas de milhares de civis, incluindo milhares de crianças e mulheres, entre as vítimas mortais.

Naquela manhã de sábado, a rotina familiar dos dois repórteres foi quebrada em simultâneo. Ziv Koren recorda que a sua filha de sete anos e meio estava a dormir em sua casa e o plano era tomarem o pequeno-almoço fora, até acordarem com as sirenes. Ao ver imagens na televisão de uma carrinha branca do Hamas a entrar em Sderot e a disparar contra pessoas na rua, percebeu que a situação era grave. Deixou a filha com a mãe, vestiu o colete à prova de bala, colocou o capacete, pegou nas câmaras e seguiu de mota para o sul de Israel.

Na Cidade de Gaza, Mohammed Abed dormia quando foi acordado por volta das 6h30 pelo filho de 13 anos. “Pai, pai, acorda! Ouvimos muitos rockets, muitos sons, muitas explosões. Aconteceu alguma coisa diferente”, disse-lhe o rapaz. Mohammed subiu ao telhado do seu prédio, viu o céu repleto de projéteis e percebeu imediatamente a exceção do momento. Correu para casa para enviar a primeira fotografia e enviou também uma mensagem direta à agência: ‘Há alguma coisa diferente, não é como todas as vezes, por favor usem a fotografia.’

“A única forma de entrar em Gaza era estar incorporado com os soldados”

A partir desse instante, a família de Mohammed iniciou um protocolo de emergência quase automático, aperfeiçoado por anos de vivência em zona de guerra. “Quando há alguma coisa assim, sabemos os nossos deveres: eu, a minha mulher, a minha filha e os meus filhos. Os meus filhos vão diretamente ao mercado perto da nossa casa e tentam comprar tudo o que possa faltar: muita comida, mantimentos e pão. A minha mulher começa a preparar a casa e todos os nossos documentos: os papéis importantes, certificados, qualquer coisa. Se tivermos dinheiro pomos tudo num saco e colocamos toda a comida dentro da cozinha. E sabemos sempre que o melhor é irmos para o primeiro andar porque a experiência indica-nos que é mais seguro“, relata Mohammed.

Os dias seguintes impuseram realidades operacionais duras em ambos os lados da fronteira. Ziv Koren contornou os bloqueios policiais nas estradas e conseguiu entrar em Sderot, enfrentando o caos de uma zona de combate ativo. “É preciso compreender que, durante os primeiros quatro ou cinco dias, ainda havia terroristas por todo o lado. Não acabou a 7 de outubro. Ainda havia combates, as pessoas estavam a morrer e a ser alvejadas. Toda a zona sul de Israel estava cheia de terroristas palestinianos do Hamas e de outras organizações. Estavam a disparar por todo o lado”, descreve Ziv. Nas semanas seguintes, o fotógrafo israelita documentou a devastação nos kibutzim e passou a acompanhar a infantaria israelita. “Nas primeiras semanas, estive a documentar os kibutzim, todas as pequenas aldeias e cidades que foram literalmente tomadas pelo Hamas naquela manhã. Eles literalmente conquistaram partes do sul de Israel. E, depois de algumas semanas, as IDF (Israel Defense Forces) e os soldados israelitas começaram a entrar em Gaza. E então fui incorporado nas forças militares dentro de Gaza. Nos últimos 3 anos, estive provavelmente 50 vezes em Gaza.”

Esta acessibilidade exclusiva ao exército israelita decorre da sua vasta carreira no terreno. “Sendo fotojornalista a trabalhar em Israel há 35 anos, obviamente adquiri muita experiência com os militares. E fiz muito trabalho ao longo dos anos em guerras e operações e unidades especiais. Documentei bastante o exército em Israel. A relação que construí ao longo dos anos ajudou a que depois de 7 de outubro conseguisse obter exclusividade e entrar em lugares onde outros fotógrafos não conseguiam”, esclarece Ziv, vincando que a presença militar é a única via de acesso ao território palestiniano: “É impossível viajar por conta própria. Isso não existe. É uma fronteira. O exército controla a fronteira e a única forma de entrar em Gaza era estar incorporado com os soldados.”

Em Gaza, Mohammed Abed confrontava-se com uma ofensiva de escala inédita, onde edifícios residenciais de 11 andares eram destruídos sem aviso prévio. Para cobrir os alvos atingidos, o repórter da AFP adota regras estritas de sobrevivência. “Qual é o alvo? Hospital? Vou lá”, refere, detalhando a sua metodologia de trabalho: “Conheço as regras, sei como, onde e quando tirar fotografias. Não vou diretamente para o local que está a ser atacado. Vou cinco minutos depois do ataque, algo que aprendi com a minha experiência. Há quem não faça assim, mas eu não vou demasiado depressa pela exclusividade se arriscar a minha vida. Alguns amigos enfrentaram muitos problemas porque foram diretamente para os locais.”

A paisagem urbana em Gaza transformou-se num cenário deserto de civis e combatentes nas ruas. “Durante este tipo de trabalho, especialmente depois de 7 de outubro, com os ataques aos locais, às casas e aos edifícios, não encontrava na rua muitas pessoas, estavam dentro das suas próprias casas. Estava tudo fechado. As ruas estavam sem quaisquer militantes, sem líderes do Hamas, sem líderes da Jihad Islâmica, sem pessoas civis. Simplesmente encontramos ambulâncias, jornalistas, médicos, Cruz Vermelha, coisas assim. Por isso nós tirámos fotografias por todo o lado sem qualquer problema. Isto no 7 de outubro e depois de 7 de outubro. Porque estamos em guerra”, diz Mohammed.

“Nós, como fotógrafos, não tínhamos qualquer contacto com líderes do Hamas. Antes de 7 de outubro e durante 7 de outubro”

Num conflito fortemente marcado pela disputa narrativa, a isenção e os acessos de ambos os fotojornalistas são constantemente questionados, muitos até acusados de pertencer, por exemplo, ao Hamas e de não serem, de facto, jornalistas.

Mohammed Abed questionado sobre isso mesmo, desmente categoricamente que trabalhe sob ordens do Hamas e explica que os contactos com os líderes políticos e militares são interrompidos mal as hostilidades começam. “Quando este tipo de guerra acontece, todos os contactos são cortados. Não há contacto. Antes de 7 de outubro, por exemplo, em 2021, enquanto os israelitas bombardeavam e os palestinianos lançavam rockets, não encontrava nenhum porta-voz do Hamas ou líderes do Hamas para contactar. Para tudo e eles desligam os telemóveis. Nós, como fotógrafos, não tínhamos qualquer contacto com líderes do Hamas. Antes de 7 de outubro e durante 7 de outubro“, assegura.

Mohammed esclarece ainda o funcionamento interno da agência no que toca à recolha de informação do lado israelita: “Sobre o lado israelita também, isto não é trabalho do escritório de Gaza. Isto é para o escritório de Jerusalém. Temos outro escritório em Jerusalém. O escritório de Jerusalém é a sede de toda a área de Israel e da área da Palestina. Se precisarmos de alguma coisa ou os israelitas obtiverem alguma informação, enviam para o escritório de Jerusalém e o escritório de Jerusalém contacta-os. E depois o chefe do escritório de Jerusalém envia uma informação ou quaisquer instruções para a equipa por WhatsApp ou por chamada. Este é o sistema.”

Reagindo às acusações que tentam menorizar a credibilidade dos jornalistas palestinianos no terreno, Mohammed rejeita as suspeitas e desafia a interdição de acesso à imprensa internacional. “Penso que essa não é a opinião geral, dos estrangeiros ou das pessoas do Ocidente. Isto é apenas propaganda dos israelitas e de quem apoia os israelitas. Mas vou responder à sua pergunta com uma pergunta: Se não confiam em nós, porque não deixam os jornalistas estrangeiros entrar em Gaza? Para além disso, acham que pessoas que trabalham com agências como a AFP, como a Reuters, como a AP, trabalham sozinhas? Temos um escritório, um chefe, um departamento de fotografia, um departamento editorial. Por isso, notícias e fotografias e vídeos não são publicados diretamente por nós. Há um controlo.”

O fotógrafo da AFP acrescenta: “Todos estes meios de comunicação confiam nos seus jornalistas porque trabalham com eles há muitos anos. E para alguém como eu, que ganhou o World Press Photo, ganhou muitos prémios, não há espaço para erros. Somos profissionais. Voltando ao início da conversa, a primeira fotografia que enviei é dos rockets palestinianos. Do lado palestiniano. Isto é profissional. Eu sou palestiniano. Este é o meu país e este é o meu povo. Fotografo aquilo que vejo.”

Do lado israelita, Ziv Koren relata igualmente um cenário de forte hostilidade internacional, ameaças diretas e boicotes a exposições do seu trabalho na Europa. “Recebo reações de pró-palestinianos o tempo todo. Nas minhas redes sociais, cartas que tenho recebido nos meus e-mails, ameaças… Tive exposições minhas onde havia pró-palestinianos a manifestarem-se no exterior do local onde estava a minha exposição. Na verdade, aconteceu em Espanha, onde tive uma grande exposição e houve uma manifestação no exterior da exposição”, relata Koren, acrescentando que “alguns museus com os quais estava em contacto porque queriam ter a minha exposição, a certa altura disseram que estavam demasiado assustados. Tinham medo de vandalismo e de perder a popularidade. E simplesmente tomaram a decisão de não realizar a exposição.”

“As pessoas formam a sua própria opinião com base em tretas que leem nas redes sociais”

Ziv acusa o movimento anti-Israel de promover uma campanha assente na contrafação de factos através do ecossistema digital. “O movimento anti-Israel é muito forte e as pessoas acreditam em todas as tretas que leem nas redes sociais. E Israel está a sofrer de relações públicas muito más desde que esta guerra começou. A verdade já não importa realmente. As pessoas formam a sua própria opinião com base em tretas que leem nas redes sociais. Não querem realmente saber dos factos. Temos visto tanta desinformação vinda de Gaza, como parte da sua forma de combater Israel, que não posso dizer que esteja realmente surpreendido com as reações às minhas fotos. A maioria das coisas que saem de Gaza são completamente falsas. E a maioria são coisas que são muito difíceis de provar que existiram realmente. Isto faz parte do objetivo deles, combater Israel através de meios de comunicação falsos que estão a criar diariamente. Usam os meios de comunicação como uma arma.”

A exposição à morte e o impacto psicológico da cobertura deixaram marcas profundas, gerando abordagens distintas entre os dois profissionais. Ziv Koren publicou o livro “A Guerra do 7 de Outubro” e assumiu o encargo de contactar pessoalmente os familiares das vítimas para pedir permissão para publicar as fotos dos cadáveres. “Encontrei as famílias e telefonei-lhes a perguntar se permitiriam que eu utilizasse as fotografias dos seus entes queridos que foram massacrados a 7 de outubro. Pensei que é impossível fazer um livro sobre um ataque terrorista e uma das maiores atrocidades da história da humanidade sem mostrar os cadáveres que fotografei naquela manhã. As famílias a quem telefonei não faziam ideia de que estas fotografias existiam, por isso foi uma situação muito desconfortável”, admite. “Se olharmos de uma perspetiva histórica, não posso fazer um livro sobre 7 de outubro sem mostrar que mais de 1.200 pessoas, civis, foram massacradas, assassinadas e violadas, os seus corpos foram mutilados e a alguns foram cortadas as cabeças.”

Ziv recusa qualquer apoio psicológico e afirma trabalhar até 18 horas por dia, sete dias por semana. “Senti que estava numa missão”, afirma o fotógrafo israelita, referindo que a consciência histórica do seu trabalho lhe dá um “superpoder” e mantendo-se, apesar de tudo, otimista quanto ao futuro.

Para Mohammed Abed, a sobrevivência ao longo de sete meses em Gaza, sem eletricidade, água ou rede telefónica, recorrendo a cartões e-SIM para conseguir enviar o trabalho a partir dos hospitais, culminou na decisão de abandonar o território a 28 de abril de 2024. Deixou para trás a sua casa e a sua quinta com oliveiras para recomeçar do zero no Cairo.

A dor de documentar toda a destruição é um fardo brutal para o fotógrafo palestiniano. “Às vezes tiramos fotografias das crianças e depois vemos que é filho dos nossos colegas, dos nossos familiares, dos nossos amigos. Por isso, paramos de trabalhar, paramos de fotografar, abraçamos os outros e, às vezes, choramos com os outros“, revela Mohammed. Quando o nível de tragédia ultrapassa a capacidade humana de processamento, resta apenas o gesto mecânico do fotojornalista: “Mas, no final, com este tipo de situação difícil, trabalhamos como repórteres. Porque há muita tristeza dentro de nós, não encontramos lágrimas dentro dos nossos olhos para chorar, porque chorámos muito. Por isso trabalhamos, como me lembro, como repórteres. Vemos tudo dentro dos nossos olhos, dentro de nós próprios, e simplesmente clicamos no botão da nossa câmara. Não parámos para pensar.”