O apelido Orleans e Bragança pode ter impulsionado a carreira política de Luiz Philippe, compensando-o por ter já nascido sem títulos reais e não integrar a casa imperial do Brasil. No passado domingo, o pentaneto de D. Pedro IV e integrante do Partido Liberal venceu pela terceira vez a eleição para deputado federal por São Paulo. Recebeu 187.743 votos (que correspondem a 0,79% dos votos válidos naquele estado), sendo o 21.º na lista de 70 eleitos. Há quatro anos, foi reeleito pela primeira vez com 79.210 votos. O resultado mais recente, portanto, representa uma subida de cerca de 137% no número de votos nos últimos quatro anos.
Não há limite para o número de reeleições de um candidato nesta posição, pelo que Luiz, que já ocupa uma das cadeiras deste cargo naquele estado há oito anos, segue agora para mais um mandato previsto de quatro anos, com um ordenado bruto mensal de 46.366,19 reais (cerca de 8.271,73 euros). Numa publicação no seu perfil no Instagram, Luiz disse receber os votos com “profunda gratidão e responsabilidade”.
No Brasil, os deputados federais atuam na Câmara dos Deputados (na capital federal Brasília) e têm como missão representar a população no poder legislativo brasileiro. O ativismo político de Luiz Philippe no Brasil teve início em 2014, quando fundou o movimento Acorda Brasil, cujo foco é a “disseminação do conservadorismo liberal“. Entre os temas já apoiados pela organização, estão o impeachment de Lula da Silva, a amnistia dos condenados por tentativa de golpe de Estado e o apoio ao ex-Presidente Jair Bolsonaro.
Em 2018, Luiz Philippe concorreu pela primeira vez ao cargo de deputado federal pelo estado de São Paulo, elegendo-se com 118.457 votos. O Partido Social Liberal (PSL), que integrava naquele ano, era também o do então candidato à presidência da República Jair Bolsonaro, que acabaria por vencer as eleições.
Em novembro de 2019, Bolsonaro revelou numa reunião com os deputados que preferia ter Luiz Philippe de Orleans e Bragança como seu vice em vez do general de Exército Hamilton Mourão. “Segundo relatos, Bolsonaro se dirigiu ao príncipe e disse que tinha uma dívida eterna com ele. Bragança respondeu que não”, noticiou a Folha de S.Paulo. Àquele jornal, Luiz Philippe afirmou que Bolsonaro “não precisava” dele para ganhar a eleição, e admitiu ter ficado “aliviado” por poder fazer outras coisas [que não exercer o cargo de vice].
Bolsonaro afirmou em 2018 à revista Veja que cogitava ter Luiz Philippe como o seu vice no Palácio do Planalto. Pouco antes do anúncio oficial do nome, terá sido desaconselhado pela sua equipa após rumores de que o deputado participava em orgias homossexuais e agredia pessoas sem-abrigo, disse o próprio Luiz à revista Época. O também deputado Alexandre Frota afirmou à Folha de S.Paulo que Bolsonaro lhe perguntou se Luiz Philippe era gay antes de desistir de convidá-lo para o cargo de vice-presidente. “Eu não sou gay nem sei onde é que faz suruba [orgias]”, respondeu ao mesmo jornal.
O mesmo sistema que Luiz Philippe agora integra de forma ativa foi também o que extinguiu a monarquia no Brasil em 1889, aquando da proclamação da República. A sua atuação é reconhecida pela Câmara dos Deputados como “o primeiro membro da família imperial brasileira a ocupar um cargo eletivo”. Enquanto político federal, realiza deslocações a Brasília, onde participa em reuniões. Em setembro de 2025, recebeu no seu gabinete o seu tio Bertrand de Orleans e Bragança (o atual chefe da família) para discutir a criação do “Instituto da Nobreza Brasileira”, descrito como uma “iniciativa que busca reconhecer personalidades que se destacam por serviços à humanidade, por contribuições relevantes à sociedade e pelo fortalecimento da identidade nacional”. Este projeto também resgataria as antigas ordens imperiais do Brasil e os símbolos de mérito e serviço.
Em 2018, afirmou numa entrevista à revista Época que a defesa do sistema monárquico não estava entre as suas prioridades, pois os temas que defende seriam também aplicáveis numa República. Mas admitiu que o eventual regresso da família real ao poder seria “um resgate de cidadania importante, de valores, da origem, do respeito à história”.
A vida para além de Brasília
Iniciou a sua carreira profissional aos 15 anos de idade, num estágio numa corretora de valores. Depois, completou o curso de administração de empresas na Fundação Armando Alvares Penteado em 1991, uma instituição privada de ensino voltada para as elites económicas. Cursou o mestrado em ciências políticas na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, e um MBA no Insead, em França. No seu currículo, afirma acumular ainda experiências num banco suíço, ter atuado como gerente de projetos da multinacional francesa Saint-Gobain e ter colaborado para as instituições financeiras JP Morgan e Lazard Frères.
Luiz Philippe defende a revogação da lei do desarmamento, pois afirma acreditar que “todos devem ter o direito à própria defesa e à de suas famílias. Hoje o cidadão de bem é refém e o bandido anda fortemente armado”. E declara não apoiar o aborto e a legalização das drogas: “Defensor dos valores cristãos, entende que deve haver um respeito à vida sob todas as circunstâncias”, é referido na sua página.
Na sua página na internet, o político descreve-se como um “médio empreendedor no ramo de peças para motas”. Afirma ainda almejar “descentralizar o poder e reduzir a intervenção estatal”. Em 2008, casou-se com a empresária Fernanda Hara Miguita, com quem teve um filho em 2012. O casal vive em São Paulo, estado onde Luiz Philippe passou a maior parte da sua infância com a família materna. Como hobbies, o deputado reeleito afirma ser um amante de motocross.
A mãe, a madrasta e os cinco irmãos
Nascido em 3 de abril de 1969 no Rio de Janeiro, Luiz Philippe de Orleans e Bragança tem 57 anos e é filho de Eudes de Orleans e Bragança e Ana Maria de Moraes Barros. O seu pai casou-se com Ana Maria em 1967, dois anos antes do seu nascimento. Pelo facto de a mulher não pertencer a nenhuma casa real, Eudes renunciou formalmente aos seus direitos de sucessão ao trono brasileiro cerca de um ano antes da cerimónia religiosa, uma decisão que afeta também os seus descendentes. Sendo assim, Luiz Philippe é por consanguinidade um descendente da antiga família imperial brasileira, mas nasceu sem títulos reais e não integra a linha de sucessão. O título de família que possui, de príncipe de Orléans e Bragança, é nobiliárquico.
Na ocasião, o pai de Eudes era o chefe da casa imperial. O príncipe Pedro Henrique de Orleans e Bragança, que liderou o ramo de Vassouras de 1921 até 1981, seguiu a norma de conduta estabelecida pela Princesa Isabel em 1908: o casamento entre cônjuges pertencentes a “famílias que exercem ou exerceram no passado efetiva soberania permanece como elemento essencial para a legitimidade da casa imperial brasileira“. Pedro Henrique manteve a tradição da perda de direitos dinásticos, mas não deixou de integrar Ana Maria no convívio daquela família. A mulher e Eudes são pais de Luiz Philippe e de Ana Luíza (nascida em 1971).
O filho do príncipe Pedro Henrique separou-se de Ana Maria em 1976 — mas a lei que instituiu o divórcio no Brasil, permitindo um novo casamento civil, entraria em vigor no ano seguinte, 1977. Quatro dias após a separação oficial, Eudes iniciou um relacionamento com Mercedes Neves da Rocha, uma aristocrata que não integrava nenhuma casa real. Tiveram quatro filhos: Maria Antônia, Maria Francisca, Eudes Filho e Guy de Orleans e Bragança.
A discussão sobre a perda dos direitos dinásticos devido a casamentos com pessoas que não integram uma casa real foi reacesa este ano. Rafael de Orleans e Bragança, primo de Luiz Philippe em primeiro grau, pediu em casamento a aristocrata italiana Margherita delle Piane, que não integra nenhuma casa real. O atual chefe da família, Bertrand de Orleans e Bragança (tio de Rafael e de Luiz Philippe) afirmou estar dececionado com o anúncio do casamento, dando a perceber que vai seguir a norma estabelecida pela Princesa Isabel. Em maio, Luiz Philippe partilhou no seu Instagram uma fotografia de um encontro com o seu tio Bertrand e os primos Pedro Alberto, Rafael e Gabriel.