“O inspector Allas morreu”, dizia, seca, a mensagem caída no meu telefone. Vinha de um amigo a quem dois dias antes recorrera para indagar se algo de anormal havia com “o Allas”. Sabendo-o próximo de Allas, vi nele a pessoa certa para descobrir por que razão “o homem” não só não atendera nenhuma de algumas chamadas que lhe fizera, como não respondera a posteriori, coisa que em tais circunstâncias sempre fazia. Tinha estado internado, já voltara a casa, mas as coisas não estavam bem, foi o que fiquei a saber.
António Fragoso Allas, de seu nome completo, 92, foi no passado um alto funcionário da PIDE. Entre ele e outros com o mesmo estatuto havia uma diferença: a sua carreira profissional passara-a quase toda nas antigas colónias portuguesas, sempre em funções de direcção. De 1963 a 1971 em Angola, daí para a frente na Guiné, para onde Spínola o levou. Ainda lhe teria cabido uma comissão em Moçambique, inviabilizada pelo 25 de Abril, entretanto ocorrido.
A acção da PIDE nas antigas colónias seguia padrões singulares. A sua mais importante componente consistia na pesquisa de informações sobre o IN (assim eram identificados os movimentos armados), nas suas múltiplas actividades. O produto final de tal labor tinha por destino as Forças Armadas, que o usavam no planeamento das suas operações. Em Angola a PIDE chegou mesmo a acrescentar ao seu esforço de pesquisa um corpo de pisteiros, os Flechas, por ela criado e mantido. Era constituído por bosquímanos, um povo primitivo de África, que dominava como ninguém as técnicas do rastreio de pegadas.
Os três últimos anos de Angola do “inspector Allas” (assim continuaram a tratá-lo alguns daqueles que com ele se relacionaram noutros tempos), foram passados em Kinshasa. Nominalmente como adido comercial na Embaixada; de facto como funcionário da PIDE. Tinha por missão acompanhar a actividade da FNLA, que ali tinha o seu quartel-general. O seu papel na preparação e condução de uma operação que em 1965 levara à deserção do ministro da Guerra da FNLA, Alexandre Taty, e de mais de 1.500 guerrilheiros, quase todos de Cabinda, deve tê-lo qualificado especialmente para aquela missão em Kinshasa.
O tempo em que permaneceu na capital do antigo Zaire (hoje Congo), era aquele de que parecia mais gostar de falar. A rede de informadores que “instalara” dentro do movimento, permitindo-lhe “estar por dentro” da sua vida interna. Os contactos discretos que mantinha com altos funcionários do país, incluindo o marechal Mobutu, que por duas vezes o mandara chamar ao seu palácio de Gbadolite. No fundo, todos sabiam quem era Allas, mas servia-lhes falar com ele no quadro da política do Zaire de apoio à independência de Angola, mas de rejeição absoluta da implantação ali de um “regime comunista”.
O lento definhamento por que António Allas estava ultimamente a passar (redução da mobilidade e perda de memória eram as moléstias que mais o pareciam afligir), já tinha feito com que nunca se tivesse concretizado um encontro em sua casa em que ele, promessa sua, haveria de me falar “mais em pormenor” dos seus tempos em Kinshasa. Essa haveria de ser também a oportunidade para me facultar alguma documentação desse tempo que consigo conservava. A sua morte, agora, comprometeu de vez uma coisa e a outra.
O telefonema que fiz a um amigo de António Allas para saber o que se passava com ele, foi para dar vazão a uma sugestão por mim próprio feita a um investigador guineense que anda a tentar reconstituir o acontecimento do assassinato de Amílcar Cabral, em especial a implicação no transe de altos dirigentes do PAIGC. Não me parecia que Allas estivesse em condições de conversar com ele, mas poderia tentar-se. O facto de o saber envolvido numa operação que em conjunto com as Forças Armadas consistia em fazer passar para “o lado de cá” um desses altos dirigentes do PAIGC, justificava a tentativa.
A atracção inicial de Allas não era uma carreira na PIDE, mas sim a vida militar, de preferência passada em África. O “bichinho” africano mordera-o nos quatro anos passados na Guiné como oficial miliciano – 1957/61. O meio para corresponder a tal sentimento é que, por razões de saúde, teve de ser outro – a PIDE. A mestria técnica que se diz que foi a sua como “homem de informações” só deve ter enriquecido com a sua identificação com África. A especial sensibilidade para as “coisas de África” que daí lhe adveio não terá sido estranha ao apuro dos seus saberes e conhecimentos.
Maria José Tiscar, uma académica espanhola, parece ter sido a única pessoa que viu em Allas uma fonte de conhecimentos cuja importância valia a pena ser aproveitada. Ele aceitou o repto e “abriu-lhe o livro” das suas andanças profissionais por África, assim nascendo um excelente livro-entrevista lançado em 2017. “A Pide no Xadrez Africano” (Ed. Colibri) é como se chama a obra. Do conhecimento que com ele travei, a pretexto do livro, fiquei com a impressão de que o manancial de conhecimentos que tinha sobre “aqueles” assuntos era, porém, mais rico e vasto. Já não fui a tempo de o aproveitar.
António Allas morreu Sábado passado. O respeito pela verdade, valor em relação ao qual nunca terá sequer vacilado, talvez tivesse feito dele alguém “pouco interessante” para mentes que nunca lhe ouviriam dizer, como fazem questão, que o Tarrafal não foi um campo de concentração, muito menos inspirado no modelo nazi, mas sim um campo prisional como qualquer outro. Ou que a Machava do tempo colonial foi coisa mais medonha do que a outra de tempos a seguir em que o SNASP a encheu de reaccionários e inimigos da revolução moçambicana. Também por isso morreu ignorado.