Esta semana, Sánchez decidiu convocar eleições antecipadas para o final de Novembro. Depois de meses em que a mobilização política andou em torno da imigração e, mais recentemente, de Ceuta, o tema da habitação passou a dominar completamente o discurso mediático. Na verdade, ao longo dos últimos anos, especialmente a partir de 2020, à medida que o preço do arrendamento e da compra de casa atingia níveis dificilmente comportáveis para os salários médios, a habitação vinha a ganhar importância, especialmente entre os menores de quarenta anos. No entanto, o despejo de Maricarmen, uma idosa que vivia num bairro nobre de Madrid há 70 anos pagando uma renda irrisória, numa daquelas situações dificilmente compreensíveis porque usufruía de um contrato assinado pelo seu pai nos anos 50, serviu como gatilho para uma explosão social, lembrando os anos de chumbo da crise económica. O Sol voltou a ficar cheio de activistas acampados com a estética própria dos movimentos de extrema-esquerda. Mais do que o acampamento, que simbolicamente é importante, o que mais impressiona são as manifestações onde está, no fundamental, a classe média que está a ter dificuldades em emancipar os seus filhos. Para além disso, e aqui está um ponto importante para o PP e o Vox, a insatisfação com a situação da habitação é transversal. As últimas sondagens mostram que mais de metade dos eleitores de direita considera que o problema da habitação é o mais importante que o país enfrenta.
Perante este cenário, Sánchez, depois de oito anos de governo, cinco deles com maioria absoluta, em que não fez rigorosamente nada para melhorar uma situação que, como é evidente, não se resolve de um dia para o outro, decidiu responder à rua com dois decretos. O primeiro decreto era, no fundamental, um penso rápido com um conjunto de medidas temporárias, que acabariam em 2030, para controlar os preços do arrendamento e evitar os despejos. Não teria quaisquer consequências de longo prazo, nem resolveria o problema de fundo. O segundo decreto mudaria totalmente o sistema de arrendamento no país, mudando os contratos em vigor para termo incerto, obrigando os senhorios a indemnizar os inquilinos com o equivalente a um ano de rendas para os conseguir mandar embora da sua própria casa. Este decreto era pura propaganda populista que, na verdade, felizmente, nunca teve qualquer hipótese de ser aprovado pelo Congresso. Caso fosse aprovado, seria o derradeiro prego no caixão do mercado de arrendamento.
Na semana passada, Sánchez levou os dois decretos à Câmara dos Deputados, onde foram chumbados. O Junts – partido vagamente xenófobo cuja agenda se resumia a conseguir trazer de volta a Espanha o herói popular e expresident Puigdemont do seu exílio em Waterloo – chumbou o primeiro decreto. O segundo foi chumbado por vários partidos. Este chumbo serviu para Sánchez mudar o cálculo político que havia feito. Em vez de se aguentar o máximo possível no poder – até porque, muito provavelmente, tal como a José Sócrates, o esperará, depois da saída do poder, um calvário jurídico –, decidiu antecipar as eleições.
A derradeira semana de Sánchez enquanto primeiro-ministro em plenas funções é bem demonstrativa daquilo que é o sanchismo e por que Sánchez não tem condições políticas nem morais para continuar à frente dos destinos de Espanha. Em primeiro lugar, depois de oito anos no poder, assume-se agora como um actor exógeno que nada tem que ver com a crise da habitação. Sejamos claros. É preciso ter pouca vergonha na cara para se assumir como o porta-voz dos descamisados quando se escolheu, durante anos, nada fazer para alterar estruturalmente as condições do mercado de habitação. Em segundo lugar, Sánchez é responsável, em grande medida, pela polarização existente em Espanha. Seguindo as pisadas de Zapatero, que cedo descobrira que acicatar a direita com leis como a Memória Histórica era o melhor caminho para polarizar e manter-se no poder, Sánchez levou ao extremo a cartilha que Costa também ensaiou em Portugal, tentando esvaziar o partido de centro-direita e dando todo o gás possível à extrema-direita. Por isto mesmo, e como mostram as sondagens, o PP mantém-se, no fundamental, com o mesmo resultado eleitoral de 2023. Todo o desgaste governativo está a ser aproveitado pela extrema-direita, cujo resultado eleitoral subirá em flecha.
Em terceiro lugar, e a gravidade disto não deve passar ao lado a nenhum democrata que acredite nas instituições, se dúvidas houvesse sobre a erosão democrática que o sanchismo causou a Espanha, as últimas actividades do seu governo são bem exemplificativas. Depois de os dois decretos serem chumbados no Parlamento na semana passada, Sánchez prepara-se para fazer algo que, caso Orbán o fizesse, seria rapidamente repreendido por Bruxelas. Depois de dissolvidas as Cortes, tal como em todos os parlamentos, existe uma comissão permanente, pensada para aprovar medidas urgentes e inesperadas porque, naturalmente, o país não pode ficar sem parlamento num momento eleitoral.
Devido a arredondamentos matemáticos da transformação de votos em lugares, na comissão permanente a dita coligação progressista de Sánchez tem maioria absoluta sem o Junts. Assim, dias depois de ver as suas medidas chumbadas pelo plenário, Sánchez prepara-se para aprovar os decretos de habitação na comissão permanente, com um plenário dissolvido e em pleno período eleitoral. Muito provavelmente, o procedimento é legal. Mas legal não é sinónimo de legítimo. Contornar a vontade expressa do Parlamento através de um expediente pensado para emergências, no preciso momento em que os eleitores estão prestes a pronunciar-se, é uma afronta ao espírito da democracia liberal. Um governante que, depois de derrotado, se agarra a um alçapão institucional para impor o que as Cortes recusaram está a usurpar o poder.