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(A) :: Um Brasil entalado

Um Brasil entalado

Pela primeira vez, a influência chinesa no Brasil é vista de forma mais positiva do que a norte-americana (65% contra 57%). E isto ilustra o perigo deste momento para os EUA.

Manuel Castello Branco
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O bolsonarismo parecia um movimento ultrapassado com a condenação do Jair Bolsonaro em 2025 por tentativa de golpe de Estado. Mas a vitória do seu filho Flávio Bolsonaro no passado domingo mostrou o contrário. A história joga agora a favor de Bolsonaro (nunca um candidato vencedor na primeira volta perdeu a presidência desde o fim da ditadura), mas Lula é um veterano da política brasileira e já se mostrou capaz de renascer das cinzas, pelo que a segunda volta está em aberto. E, importantes como são as dinâmicas internas, o resultado terá repercussões que se estendem muito além das fronteiras brasileiras. Depois de mais de 20 anos de expansão da influência chinesa na América Latina, a administração Trump tem sido, porventura, a mais interventiva na região desde os anos 80, colocando a doutrina Monroe (ou “Donroe”, como é conhecida a adaptação de Trump) no centro da sua estratégia geopolítica. À medida que as visões concorrentes de Washington e Pequim se sobrepõem cada vez mais geograficamente, países historicamente não alinhados como o Brasil tornar-se-ão um polo da disputa global pelo poder. A segunda volta que se aproxima ganha, por isso, ainda mais relevância, não só porque traçará o destino do país, mas porque o próprio destino do Brasil é cada vez mais indissociável do destino da ordem global.

A segunda administração Trump tem estado mais do que disposta a usar a coerção militar e económica para impor a sua visão para aquilo que considera o backyard dos EUA. No início de janeiro, as forças armadas norte-americanas depuseram Nicolás Maduro e Washington encontra-se desde então em negociações com Delcy Rodríguez, ela própria membro do regime de Maduro, mas mais recetiva às exigências americanas. Este sucesso na Venezuela pode até ter contribuído para a decisão de Trump de lançar uma guerra contra o Irão, presumivelmente na esperança de alcançar uma vitória igualmente rápida e fulminante. Quando isso não se concretizou (de facto, a guerra continua e Trump sugeriu que esta poderá só ser resolvida depois das eleições intercalares), Trump voltou parte da sua atenção para o seu hemisfério e impôs um bloqueio a Cuba, na esperança de enfraquecer o regime ao ponto da capitulação. Os ataques militares a embarcações alegadamente ligadas ao narcotráfico nas Caraíbas, cuja legitimidade jurídica é, no mínimo, muito questionável, mostraram igualmente a disponibilidade de Trump para impor a sua agenda America First à região.

Mas não é apenas pela lei da força que as dinâmicas estão a mudar. Desde que Trump iniciou o seu segundo mandato, a América Latina tem vivido uma espécie de onda de direita. Em cerca de 18 meses, sete eleições presidenciais consecutivas na região foram todas ganhas por candidatos de direita ou de extrema-direita. Esta mudança tem sido acompanhada por iniciativas multilaterais (eu sei, surpreendente ver “Trump” e “multilateral” na mesma frase) como o Escudo das Américas, lançado em março deste ano, que configura essencialmente uma coligação de defesa e segurança centrada no combate ao tráfico de droga e ao crime organizado na região.

Ora, pode parecer algo contraintuitivo que esta abordagem America First encontre tanto eco nas urnas latino-americanas. Afinal, boa parte da carreira política inicial de Trump foi construída com comentários por vezes abertamente racistas em relação aos latinos (aos mexicanos em particular), usando o medo para justificar a repressão da imigração e aquela que viria a ser a política emblemática do seu primeiro mandato: a construção do muro. Mas, quando olhamos com mais atenção, verificamos que, apesar de toda a retórica, muito daquilo que Trump considera as suas prioridades políticas está profundamente alinhado com as principais preocupações dos eleitores latino-americanos.

Para Trump, a região não se encaixa de forma clara numa grande teoria de política externa. Sim, tem estado muito mais focado no seu hemisfério, mas há uma certa tendência para sobrestimar até que ponto isso constitui efetivamente uma agenda de política externa clara e coerente. O foco do Presidente americano está muito mais ligado ao papel que a região desempenha na sua política interna e ao quão instrumental é para algumas das principais prioridades de Trump, nomeadamente travar a imigração irregular, reduzir o tráfico de droga e garantir a segurança no longo prazo dos Estados Unidos no abastecimento de energia e de minerais críticos. Todos estes fatores, particularmente os dois primeiros, estão em sintonia com a maioria dos eleitores da região, que, segundo o Latinobarómetro, citam a segurança como a sua principal prioridade.

Isto, mais do que a popularidade pessoal de Trump propriamente dita, pode explicar a recente vaga de apoio a candidatos alinhados com o Presidente americano, nomeadamente numa altura em que os eleitores parecem desiludidos com a abordagem dos governos de esquerda aos gangues e criminosos violentos. A derrota de Iván Cepeda, o sucessor escolhido por Gustavo Petro, diante de Abelardo de la Espriella na Colômbia parece ser o exemplo mais claro disto: o governo de Petro procurou uma solução mais diplomática e negociada para a questão dos crimes violentos e dos grupos criminosos organizados, através da sua abordagem de Paz Total. Quando a iniciativa não alcançou os resultados pretendidos, Abelardo de la Espriella conseguiu pintar Cepeda como fraco na segurança e, com isso, virar a eleição.

Mas o facto de Trump ir ganhando aliados nas urnas diz menos sobre quem está, de facto, a ganhar influência na região do que à primeira vista se poderia concluir. Esse mesmo estudo do Latinobarómetro concluiu que, pela primeira vez, a influência chinesa é vista de forma mais positiva do que a norte-americana (65% contra 57%). E isto ilustra o perigo deste momento para os EUA.

A China tem vindo a enraizar-se na região há décadas, construindo relações de interdependência comercial e económica que, uma vez instaladas, são muito difíceis de remover. E isto é propositado. Ao longo do seu envolvimento com as voláteis democracias latino-americanas, Pequim aprendeu que precisava de uma estratégia que sobrevivesse aos instáveis ciclos políticos dos respetivos países. Trump adotou a abordagem oposta, interferindo ativamente em campanhas e fazendo diplomacia abertamente sectária. Acordos celebrados nessa base ficam posteriormente vulneráveis a serem desfeitos por uma mudança de governo.

É verdade que esta estratégia de pressão por parte de Trump pode dar até dividendos no curto prazo. A decisão do Panamá de retirar a uma empresa sediada em Hong Kong o controlo dos dois portos do Canal do Panamá e a suspensão, pelo Chile, do projeto relativo a um cabo submarino chinês de internet que ligaria Valparaíso a Hong Kong são apenas alguns dos mais recentes exemplos. Mas a sua linguagem por vezes expressamente neocolonialista em relação ao hemisfério sul e a sua imprevisibilidade na condução da política externa tornaram também a China, com a sua abordagem transacional, um parceiro mais desejável. Seria ingénuo dizer que, ao contrário dos EUA, a China não tem uma visão que desejaria impor à região e que vê e conduz a sua diplomacia de forma totalmente isenta. A questão não é essa. A questão é, neste momento, qual é a potência que é vista como o parceiro mais estável para os países da região, e qual é o país que apresenta hoje a proposta menos arriscada? A resposta a que muitos países parecem ter chegado é evidente: desde 2017, cinco países latino-americanos que reconheciam formalmente Taiwan passaram a reconhecer a China, e, na América do Sul, apenas o Paraguai se mantém firme no seu apoio a Taiwan.

Em nenhum país esta disputa é tão evidente, nem tão decisiva, como no Brasil. O país detém as segundas maiores reservas de terras raras do mundo (apenas atrás da China), o que, somado à sua enorme indústria agrícola e às suas reservas de petróleo, o torna um aliado muito desejável, particularmente para os EUA. Em Brasília, Washington quer ter um parceiro que lhe permita reduzir o domínio da China sobre as terras raras, que já foram usadas como arma no ano passado aquando da “guerra comercial” de curta duração entre EUA e China, e um amortecedor para choques energéticos como o do Irão.

Para a China, a mesma lógica se aplica, acrescendo ainda o facto de que, sendo o seu maior parceiro comercial na região, o Brasil pode servir como porta de entrada de facto para uma maior presença chinesa na América do Sul, disputando diretamente as tentativas dos EUA de estabelecer a sua própria hegemonia regional. Se a China for bem-sucedida nesta expansão, poderá ganhar ainda mais poder negocial em futuras negociações sobre Taiwan, por exemplo, ou sobre a presença norte-americana mais ampla na Ásia-Pacífico, que a China vê como o seu próprio backyard geopolítico.

E, nesta disputa, Pequim parte com uma vantagem considerável. Desde 2009 que a China é o maior parceiro comercial do Brasil, sendo o principal cliente de soja, minério de ferro e petróleo brasileiros. À medida que esta relação comercial foi crescendo nos últimos vinte anos, tanto o governo brasileiro como o governo chinês se mostraram mais interessados em fazer comércio com base nas suas respetivas moedas, visando enfraquecer a posição dominante do dólar norte-americano. A China tornou-se também um dos principais investidores estrangeiros no país, e Pequim conseguiu, inclusive, imbuir-se na rede elétrica e energética do Brasil (como em Portugal). Esta convergência de interesses foi ainda mais amplificada pelos repetidos ataques de Trump ao presidente Lula durante o julgamento de Jair Bolsonaro em 2025. A subsequente imposição de tarifas elevadas ao país deu a Lula, não só um bode expiatório para os problemas económicos do país, mas também a deixa de que precisava para fazer das eleições um referendo sobre a atuação do Presidente americano.

Mas esta dependência da China não é um fenómeno exclusivo de Lula. Já em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito com uma plataforma marcadamente anti-China, foi também rapidamente forçado a ceder, pressionado pelo setor agrícola, que exporta a maior parte dos seus produtos para a China. Em outubro de 2019, Bolsonaro visitou Pequim e assinou múltiplos acordos bilaterais, aprofundando a presença chinesa em setores estratégicos como a energia.

O que está em jogo vai, no entanto, muito além do Brasil ou mesmo da América do Sul. À medida que os EUA, aparentemente de forma voluntária, reduzem a sua presença no Pacífico, pondo em causa as suas alianças de décadas, e recuam para o seu próprio hemisfério, a China continua a aumentar a sua presença e a expandir a sua influência na América Latina, enraizando-se no tecido económico da região. Esta expansão, sendo bem-sucedida, poderá ainda conceder a Pequim mais poder negocial em eventuais futuras negociações com os EUA sobre Taiwan. Os EUA estão, assim, a reduzir a sua própria margem de influência num momento em que a China procura maximizar a sua. À medida que a guerra de Trump se arrasta e os seus aliados na Europa e na Ásia procuram reduzir a sua dependência de Washington, Trump poderá ter o reflexo de se virar para a América do Sul, numa espécie de exercício de consolação. Mas, se olhasse com atenção, encontraria ainda mais motivos de preocupação.

O Brasil é, apesar de tudo, demasiado grande e demasiado importante para se tornar simplesmente um proxy de Washington ou de Pequim. A dimensão da sua economia e os seus recursos, assim como o seu peso regional, dão-lhe uma margem de manobra que nenhum outro país da região possui. Mas, ao reconhecer esta maior margem de manobra, não podemos abstrair da posição particularmente difícil em que Brasília se encontra. O próximo governo, seja ele qual for, terá de enfrentar, de um lado, a pressão americana e, do outro, uma relação com a China que é hoje profunda e de difícil reversão.

O que se joga no dia 25 é, no fundo, mais uma etapa no confronto entre duas formas muito diferentes de fazer geopolítica e de disputar a região. A de Washington, por um lado, que visa converter afinidade ideológica entre líderes em maior controlo sobre a sua política, tanto interna como externa. E, por outro lado, a de Pequim, que, tendo passado décadas a construir relações pensadas precisamente para sobreviver a mudanças de governo, se confronta agora, com a possível vitória de Flávio Bolsonaro, com uma liderança regional mais hostil. O Brasil, por seu lado, que fez do não alinhamento e da autonomia uma peça central da sua geoestratégia, vê-se agora obrigado a navegar entre duas potências que procuram, cada uma à sua maneira, reduzir o espaço de manobra dos países da região.