Há bastante tempo, um conhecido disse-me que não tinha televisão em casa. Perguntei-lhe qual era o motivo, pois a televisão permitia-lhe estar informado. Ele replicou argumentando que as televisões, por causa das audiências, só tratavam noticiosamente “a excitação do momento”. Preferia, por isso, manter-se informado recorrendo a outras fontes. Interpretei a explicação como uma excentricidade, evidenciando também alguma soberba intelectual. Mas o tempo parece dar-lhe alguma razão. Vivemos um período em que órgãos de comunicação social, plataformas digitais e redes sociais disputam um recurso limitado: a nossa atenção.
Periodicamente, os órgãos de comunicação social e as redes sociais são dominados por um tema que suscita controvérsia ou escândalo. As audiências disparam e surgem discussões incessantes. Todos têm opinião sobre o assunto do momento e procuram expressá-la de várias formas: através de uma conversa informal entre amigos ou colegas ou recorrendo à internet. Os influenciadores comentam abundantemente, as caixas de comentários enchem-se de mensagens e proliferam memes e vídeos sarcásticos feitos cada vez mais com recurso à IA. Tudo o resto tende a desaparecer da agenda mediática.
Recorde-se, por exemplo, o que aconteceu com o caso do ministro da Administração Interna, Luís Neves, e, mais recentemente, com o caso Ronaldo na seleção portuguesa. Estes episódios polarizadores têm em comum o facto de serem protagonizados por figuras públicas, cujo comportamento acaba por ser alvo de uma avaliação moral. Subitamente ergue-se um tribunal popular para ajuizar, com grande clamor, se o comportamento está certo ou errado; se é justo ou injusto.
A excitação do momento existe porque há uma oferta mediática, mas também porque há uma procura humana de indignação, conflito e julgamento. Porém, existem três grandes problemas que merecem reflexão: o excessivo tempo dedicado a discutir o tema, a monopolização temática da atualidade e o risco de uma certa estupidificação da sociedade.
Em primeiro lugar, não sabemos ainda durante quanto tempo iremos discutir o caso do ministro Luís Neves ou do Ronaldo, mas sabemos que nenhum deles está encerrado. Luís Neves, para além das investigações em curso, vai ser alvo de uma comissão parlamentar de inquérito. No caso de Ronaldo, é muito provável que ainda surjam novos esclarecimentos e tomadas de posição por parte dos vários envolvidos, alimentando a polémica. Portanto, tudo leva a crer que não estamos a assistir “a um filme, mas a uma série com várias temporadas”.
Em segundo lugar, há várias questões importantes que perdem espaço mediático e não são divulgadas de forma adequada, pois a atenção está focada obsessivamente na excitação do momento. Essa concentração da atenção tem um custo de oportunidade, pois enquanto discutimos incessantemente determinado episódio, outras matérias desaparecem ou são remetidas para um plano secundário. O crescimento e o progresso de um país não podem assentar apenas na discussão de casos individuais, mas também no debate de ideias.
Por fim, há o risco de uma certa estupidificação da sociedade. Os temas que dominam a discussão pública são determinados apenas pelo escândalo, pelos cliques e pelo algoritmo. Esta provável queda da literacia e o crescimento da ignorância fazem parte de um ciclo vicioso alimentado por uma dieta informativa dominada por polémicas, celebridades e escândalos. Existe um risco de infantilização da sociedade, pois as pessoas são levadas a saber pouco sobre outras matérias importantes, ficando afastadas da possibilidade de aprenderem o suficiente para opinarem com fundamento sobre políticas e decisões que afetam a sua vida.
Não se trata, obviamente, de censurar os temas mais mediáticos, até porque são necessários para que os órgãos de comunicação social possam manter audiências e obter publicidade. Mas é preciso não esquecer que tem de haver um equilíbrio editorial, permitindo que o debate público se estenda a outras questões relevantes. O problema não é que se fale da excitação do momento. O problema começa quando a excitação do momento passa a definir aquilo que julgamos ser importante.