É verdade que comparados com França, Espanha ou Brasil vivemos num país politicamente moderado. Ainda conseguimos conversar com pessoas que não pensam da mesma maneira que nós – exceção feita talvez em redes sociais como o X – e estamos muitíssimo longe do ambiente de radicalização e zanga que vemos noutros países. Mas se as lideranças políticas continuarem a ser incapazes de resolver problemas que todos identificam como graves e urgentes, corremos o risco de cair, também nós, nessa radicalização. E, desse ponto de vista, os apelos sucessivos do Presidente, e agora repetidos no 5 de Outubro, fazem todo o sentido. O problema é que soam um pouco aos desejos de paz no mundo.
Temos dois problemas graves e urgentes, além, obviamente, da necessidade de fazer crescer mais e melhor a economia e não esconder a cabeça na areia em matéria de sustentabilidade do Estado Social. Graves e urgentes, a exigirem acção com resultados a curto prazo, são os problemas da Habitação e da Saúde. Num como noutro caso é muito difícil ao cidadão comum entender porque não se é mais pragmático e colaborativo na procura de soluções.
Continuamos a ver, num e noutro caso, os dois partidos, PS e PSD, embrulhados em discussões sobre quem é mais amigo dos pobrezinhos, quem defende melhor o SNS ou quem está com o capital ou com os trabalhadores e inquilinos. Torna-se cansativo, ficando nós entre o bocejo e a irritação, quando temos de ouvir deputados, um do PS outro do PSD, a debaterem a Saúde ou a Habitação. Conseguimos facilmente antecipar o que cada um vai dizer. O Chega, obviamente, não trouxe qualquer diferença, optando em geral por soluções impossíveis ou simplesmente agitadoras.
Supõe-se que o tempo da política que o Presidente António José Seguro referiu no seu discurso do 5 de Outubro deste ano – por contraponto à tecnocracia – não seja o das mensagens sem conteúdo, ditadas pelo que cada partido acha que deve dizer e condicionadas por preconceitos ideológicos. Não tem sido propriamente a tecnocracia ou o excesso de técnica que nos tem impedido de encontrar soluções para os problemas. Tem sido a politiquice, sem estatuto para se chamar política.
Veja-se o caso da Habitação. Continuamos embrulhados a rever leis que, quando são alteradas pelo PS fazem dos investidores e proprietários os culpados de tudo, quando são mudadas pelo PSD corrigem o que os socialistas fizeram e aí os mais culpados são os inquilinos. Andamos nisto como uma família que tem um pequeno pão que tem de dividir por dez pessoas e passa o tempo a discutir quem fica com a maior fatia, em vez de tentar arranjar mais pão. Podemos continuar a discutir a distribuição. Mas sem resolver a escassez estaremos sempre a discutir quem fica com a maior fatia de um pão demasiado pequeno.
É incompreensível a incapacidade de PS e PSD se entenderem nesta matéria para fazerem o que é óbvio que é preciso: construir mais casas. Todos dizem querer fazê-lo. A questão é porque continuamos sem conseguir remover os obstáculos que impedem que isso aconteça mais depressa. Identifiquem-se os estrangulamentos – no licenciamento, no solo, nos custos, na fiscalidade ou na capacidade das autarquias – e, em conjunto com as autarquias, encontrem-se soluções que aumentem a oferta de casas. Temos vários especialistas, temos empresas, só não temos é vontade política para responder à simples pergunta: como colocar mais rapidamente casas no mercado? E sem preconceitos, avançar para as soluções. Não queremos, certamente, seguir as pisadas de Espanha.
Na Saúde o problema é, nas suas linhas gerais, semelhante. Temos estudiosos do sector que têm soluções, mas insistimos em limitar a discussão ao tema do público ou privado como se a propriedade fosse o mais importante na prestação de cuidados de saúde. Também aqui sabemos bastante sobre os problemas: organização, gestão, incentivos aos profissionais e articulação entre os sectores público, social e privado. Mas continuamos demasiadas vezes presos à discussão ideológica sobre quem deve prestar os cuidados. As juras de amor pelo SNS que o PS faz não impediram a degradação do Serviço nem a generalização dos seguros de saúde – de facto, dificilmente as companhias de seguros poderiam ter tido melhor amigo.
É difícil acreditar que políticos de qualidade não saibam pelo menos uma boa parte do que é necessário fazer para melhorar a Habitação e a Saúde. Sabem. O problema é que muitas dessas soluções têm custos políticos, contrariam interesses ou obrigam a compromissos com o adversário. É muito mais interessante e divertido andar a pensar: se eu fizer isto faço-lhe xeque-mate e ele não tem saída; se eu disser aquilo o povo vai votar mais em mim porque sou mais amigo dos pobrezinhos e ataco os ricos. E temos andado nisto, a assistir ao agravamento dos problemas.
O apelo a entendimentos que garantam estabilidade em políticas que resolvam problemas concretos é importante. E é fundamental que o Presidente o faça. Mas terá de fazer mais do que pedi-los, se não quiser transformar a Presidência em mais um palco onde se representam preocupações sem consequências. Porque entendimentos, como a paz no mundo, todos dizem querer.