Pelo menos desde Os Sopranos que as séries de televisão estão bem servidas de protagonistas vilões. Ainda recentemente, o New York Times considerou Breaking Bad a melhor série do século XXI, em muito devido a Walter White, o pacato professor de Química que se torna num perigoso produtor de droga. Em A Leste do Paraíso, com todos os sete episódios estreados recentemente na Netflix, estamos perante uma incrível vilã, com algumas diferenças em relação a White. As mais notórias? É má e cruel desde sempre; e foi criada em 1952 por John Steinbeck, que venceria o Nobel da Literatura uma década depois.
Cathy Ames (desempenhada pela soberba Florence Pugh, de Mulherzinhas e Midsommar) surge pela primeira vez logo no arranque do primeiro episódio. Espancada e ensanguentada, arrasta-se por um campo lamacento em direção à única casa existente num raio de quilómetros, um pequeno rancho. Da casa saem dois irmãos. Um deles, Adam Trask, corre para a socorrer. O outro, Charles Trask, olha para ela e declara sem hesitações: “Isto é um erro”. E sim, será o maior erro das suas vidas de si já tensas, como explicará um imediato flashback às suas infâncias. É que Cathy não só não tem um pingo de gratidão a correr nas veias como é absolutamente movida a vingança, uma manipuladora exemplar. No segundo episódio, é apresentada ao espectador toda a sua jornada até então, tão fascinante como sanguinária.
Tal como o livro (ao qual os guiões são bastante fiéis), a série é carregada às costas por esta figura feminina (seja pela sua presença ou pelo vazio deixado pela falta dela), mas é sobretudo sobre dinâmicas entre irmãos. Steinbeck baptizou a obra, uma espécie de novela familiar, a partir de uma passagem da Bíblia, mais concretamente de Génesis 4:16, que descreve o lugar para onde Caim fugiu depois de matar o seu irmão Abel e de ser expulso da presença de Deus: “Caim retirou-se da presença do Senhor e foi habitar na terra de Nod, a leste do Éden.” Aqui, temos os irmãos Adam e Charles; e, mais tarde, os gémeos Cal e Aron. Em ambos os casos, pairam sobre eles os fantasmas dos filhos de Adão e Eva.
[o trailer de “A Leste do Paraíso”:]
https://www.youtube.com/watch?v=M9NWvGZViCg
Mais do que uma reflexão religiosa, a pergunta que surge atravessa filosofia, sociologia, psicologia social, antropologia e psicanálise: afinal, de onde vem a maldade humana? Nasce-se com ela? É aprendida? É herdada? É possível fugir dela? Hobbes, Rousseau, Zimbardo, Bauman, até Freud, teorizaram sobre o tema. Já Steinback criou uma personagem pela qual é impossível torcer e outras que nos fazem não saber onde posicionar.
A acção passa-se na terra natal do autor do livro, onde nasceu na pobreza: as terras agrícolas do Vale de Salinas, na Califórnia, entre o fim do século XIX e a Primeira Guerra Mundial. A série foca-se então numa adaptação bastante fiel ao livro, ao contrário do célebre filme de 1955 com um então desconhecido ator chamado James Dean, que se foca apenas na quarta e derradeira parte do livro (em que Cathy, aqui essencial, é absolutamente secundária). Mas ambas as versões têm uma ligação curiosa: a argumentista e produtora executiva da série de 2026 é Zoe Kazan, neta de Elia Kazan, que realizou a adaptação cinematográfica dos anos 50. O trabalho de Zoe é competente e rigoroso, talvez com o resultado agridoce desta ser uma série memorável sobretudo devido ao excelente elenco. Além de Pugh, destaque também para o excelente Hoon Lee, que faz do tutor Lee, talvez a melhor personagem da trama.
A Leste do Paraíso foi a penúltima grande obra de Steinbeck e o autor considerava-a a sua melhor. Na altura, os críticos discordaram. A sociopatia de Cathy esteve entre os motivos para a receção crítica tépida do livro, assente na ideia datada de que “uma mulher nunca poderia ser assim”. Além de um pressuposto falacioso, a delícia da personagem e da sua certeira interpretação por parte de Florence Pugh (que representa com uma daquelas caras que fala tão mais que as palavras) está exactamente na maldade sem limites, na impossibilidade de redenção. Enquanto todos os outros personagens da série a procuram, Cathy só tem conforto na inevitabilidade da sua maldade.


Se algo de menos bem conseguido pode ser apontado à adaptação da Netflix é na caracterização dos atores aquando da passagem do tempo. Apenas o crescimento dos gémeos Cal e Aron, de recém-nascidos até latagões de 17 anos, permite perceber que existe uma longa cronologia. Compreende-se que durante muitos anos estivemos sujeitos a más perucas brancas e a rugas desenhadas com lápis castanho em peles com botox, mas neste caso chega a ser distrativo quão iguais estão os atores, mesmo com os anos a voarem e a dureza da vida a, certamente, envelhecer mais que a conta.
A cena final do sétimo episódio tem o seu quê de anti-climático. Sem a estragar, é um curto diálogo tornado quase monólogo pelas circunstâncias, com mais silêncios do que outra coisa. Ainda que possa parecer um fraco final, tem o seu peso: sente-se, pela primeira e única vez, um suspiro de alívio. É, afinal, o paraíso possível.