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O fenómeno que está a causar chuvas diluvianas na Catalunha

Não é um medicane, nem uma DANA. É um Sistema Convectivo e Vórtice de Mesoescala. Barcelona bateu recordes de precipitação.

Filomena Martins
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Nem um ‘minifuracão’, nem um medicane, nem uma DANA. O que está a atingir a Catalunha com chuvas diluvianas é um sistema convectivo (de mesoescala) — SCM — com um vórtice convectivo (de mesoescala) — VCM. De forma simples: no início surge um comboio de trovoadas que a certa altura se juntam e formam uma enorme tempestade, muitas vezes de centenas de quilómetros, que pode durar horas. Se existirem as condições certas, o ar no interior desse sistema organiza-se e começa a rodar num vórtice. A mesoescala é a unidade de medida utilizada em meteorologia, uma escala intermédia, maior que uma simples trovoada, menor que uma depressão.

O Sistema Convectivo e o Vórtice Convectivo não são duas tempestades diferentes. Um forma-se dentro do outro. Mas o Vórtice pode fortalecer-se e até dar origem a novos sistemas convectivos. E nenhum deles nasce do nada. São necessárias condições muito particulares que se reúnem nesta zona do Mediterrâneo, entre a Catalunha e as Baleares, no final do verão.

Primeiro vêm as trovoadas. Uma a uma. E, só para que isso aconteça, tem de existir muito ar quente e húmido a chegar constantemente. Depois, os ventos têm de as empurrar de forma a juntá-las num único sistema, gigante e persistente, para criar a grande área da tempestade, que essas trovoadas alimentam. Isso significa que, enquanto umas enfraquecem, outras têm de nascer. Para que a tempestade dure horas ou dias, com células que passam várias vezes pelo mesmo lugar e deixam cair chuva intensa sempre no mesmo sítio, criando os acumulados brutais, e recorde, que estão a acontecer na Catalunha. Se o conjunto de trovoadas funcionar desta forma organizada, está-se perante um Sistema Convectivo de Mesoescala (SCM).

Mas pode piorar. E piorou. Porque todo este movimento faz com que existam sempre enormes quantidades de ar a subir e a descer. Já se sabe que o ar quente (e húmido), portanto, o que está à superfície da terra e do mar, num Mediterrâneo que nunca esteve tão quente, e num terreno que passou por várias ondas de calor, sobe. O vapor passa a gotas de água. No processo, há uma libertação de calor que faz com que as fortes correntes dentro da tempestade se mantenham ou até se fortaleçam. Com o tempo suficiente e os ventos organizados, o ar começa a rodar à volta da zona central. Essa rotação no centro do sistema de trovoadas é o Vórtice Convectivo de Mesoescala (VCM).

Foi esta rotação que lhe deu, nas imagens de satélite e radar, um aspeto semelhante ao dos pequenos furacões. Mas são coisas muito diferentes. Ao largo da Catalunha nasceu um comboio de trovoadas que começou a funcionar como uma só tempestade e acabou por desenvolver rotação no seu centro.

Ainda assim, para haver um SCM, têm de estar reunidos vários fatores. A tal grande quantidade de vapor de água à superfície, aqui em grande parte fornecida pelo Mediterrâneo quente. Depois, ar mais frio em altitude que crie uma atmosfera instável. É essencial um mecanismo que faça o ar quente e húmido subir, mecanismo que pode ir dos ventos a uma frente ou simplesmente ao relevo do terreno. Também ar húmido a chegar constantemente à mesma região, o que, no caso, é fácil devido ao fluxo marítimo. E ainda mudanças certas na velocidade dos ventos em altitude para que as trovoadas se organizem e durem.

Com um Sistema Convectivo de grandes dimensões, organizado e que possa durar muito tempo, a hipótese de desenvolver rotação no seu interior é enorme. Essa convecção interna transporta ar na vertical, liberta calor no processo, altera a forma como a pressão se distribui, reorganiza os ventos e concentra a tendência do ar para este começar a rodar. Com tempo suficiente, essa rotação pode organizar-se numa circulação ciclónica. E é aqui que as duas coisas se ligam: nasce o Vórtice Convectivo.

O vórtice pode ajudar a manter o sistema. Ao organizar a circulação no interior e também ao concentrar a humidade e a convergência, cria o ambiente perfeito para que nasçam novas trovoadas, que haja ainda mais libertação de calor e que o sistema possa durar ainda mais. E dá-lhe a aparência de ciclone tropical, porque pode estar a chegar quase lá. O sistema da Catalunha quase chegou. E ainda vai ser um grande desafio para os meteorologistas estudá-lo e perceber o que lhe chamariam se o local onde se desenvolvesse fosse nos trópicos e não neste extremo do Mediterrâneo.

Mas há algumas diferenças entre um Vórtice Convectivo de Mesoescala e uma depressão. Um VCM é a rotação que se produz e se organiza dentro de um Sistema Convectivo. Para que evoluísse para um ciclone com características tropicais, a sua circulação teria de se tornar mais fechada, mais persistente, mais simétrica e ainda mais organizada à volta do centro. E teria de estar ligada a uma convecção que se aprofundasse e fosse alimentada por fluxos de calor e humidade do mar, de modo a desenvolver um núcleo quente. Mas, e sobretudo, teria de se manter sobre o mar e continuar a encontrar estas condições: passaríamos de um grande sistema de trovoadas que desenvolveu uma rotação em vórtice para um sistema em transição subtropical/tropical.

No Sistema Convectivo de Mesoescala pode surgir circulação de ventos ciclónicos. Se existir um Vórtice Convectivo de Mesoescala e o sistema se mantiver sobre o oceano, pode iniciar-se uma transição subtropical/tropical. Só então, se chegar a uma determinada estrutura, conseguirá tornar-se um medicane, um ciclone tropical do Mediterrâneo, uma designação recente, de 2025, depois de uma batalha dos cientistas para nomear estes fenómenos.

Este sistema na Catalunha podia ter sido um medicane. Um ciclone de mesoescala (há microescalas, fenómenos locais, estes intermédios e os de escalas sinópticas, os grandes sistemas) no Mediterrâneo com características semelhantes às tropicais. Tem uma estrutura semelhante a um olho central, ventos muito organizados perto desse centro, nuvens em espiral, uma circulação praticamente simétrica e um núcleo quente até à troposfera superior. Mas para que este sistema catalão passasse a medicane teria de se ter mantido no Mediterrâneo. Portanto, um SCM/VCM é um sistema de tempestades organizadas que geram circulação; já num medicane, a estrutura dominante é a do próprio ciclone organizado.

Alguns vórtices convectivos de mesoescala, contudo, são os embriões de ciclones tropicais. Há vários exemplos. O sistema que atingiu a Catalunha tinha muitos dos fatores para ser vigiado à espera dessa transição. Havia uma clara evolução nesse sentido que teria acontecido se continuasse a desenvolver-se mais tempo sobre o mar, para ter tempo para organizar a circulação. Só que ao entrar em terra, perdeu capacidade para essa transição tropical ou subtropical.

Um medicane pode, no entanto, surgir de uma depressão que no início não era tropical. Os fenómenos do Mediterrâneo, ao contrário das perturbações do Atlântico que dão origem aos furacões, podem começar como uma simples depressão. Depois é que podem chegar a uma organização convectiva, fazer a transição subtropical/tropical e tornar-se um medicane. E nem todos fazem esse percurso.

O calor do Mediterrâneo é essencial. Mas sozinho não chega para criar um medicane. O aumento das temperaturas (a bater recordes) do Mediterrâneo aumenta a probabilidade de transição tropical porque dá mais força ao núcleo quente dos sistemas e ajuda a causar pressões mais baixas no centro. Ao largo da Catalunha, o mar está com 25ºC, o que é sinónimo de mais combustível para uma convecção profunda. Mas depois falta o que já listámos acima: ar frio em altitude; organização dos ventos; e muito tempo sobre a água.

Outra coisa que não está ligada às chuvas torrenciais da Catalunha. Não há nenhuma DANA, uma depressão isolada em altitude, como a que causou a tragédia de Valência. O que parece estar a acontecer é que o aquecimento do Mediterrâneo está a produzir situações atmosféricas pouco habituais e muito extremas. Aliás, os sinais apontam para menos ciclones mediterrânicos, mas para que sejam mais intensos: com mais chuva, ventos mais fortes e possibilidade de ganharem características tropicais.

Há uma coisa que este episódio nunca poderia ter sido: um “minifuracão”. Simplesmente porque a designação não existe. É apenas uma forma simplificada, popular, de resumir o que se passou e o que causou.

O porquê destes fenómenos diluvianos acontecerem sempre na mesma região espanhola é fácil de explicar. O Mediterrâneo tão quente no final do verão funciona como um reservatório de calor e humidade. Os ventos de leste (levante) percorrem todo o Mediterrâneo, desde a Turquia, carregando uma enorme quantidade de vapor de água; é esta a zona da costa, pela sua orientação, em que o ar húmido entra em terra; como há várias montanhas muito junto ao litoral, até aos Pirenéus, o ar quente sobe, arrefece, condensa e cai como chuva; os cursos de água íngremes e não muito longos ganham caudais largos rapidamente com essa chuva extrema; e a urbanização intensa no litoral dificulta o escoamento.

Em alguns dos observatórios de Barcelona, este sábado foi o dia mais chuvoso desde que existem registos. Em Barcelona-Raval há um número impressionante: 3,4 mm num único minuto e 36,1 mm em meia hora. Na última atualização, houve mais de 300 mm desde o início de outubro em algumas estações: o Meteo.cat regista 308,9 mm em Les Cases d’Alcanar e 290,3 mm em L’Ametlla de Mar.