Parece que António Guterres vai deixar o cargo de Secretário-Geral das Nações Unidas. Guterres pautou toda a sua acção pelo princípio do antiocidentalismo. Nas suas declarações, conferências de imprensa, nos temas sobre os quais se pronunciou ressalta sempre a autofobia ocidental. Trai-se esta constantemente no verbalismo das boas intenções. As flores de uma retórica exacerbada até perder o sentido foram atiradas à humanidade do alto da sua tribuna pelo representante de todas as nações. Mas essas flores alimentaram-se por meio de raízes que desciam até uma toalha freática venenosa. Quem quer provar tudo nada prova.
Guterres no seu afã de mostrar serviço aos seus senhores não hesitou diante de nada. E a cada exagero descabelado fez seguir um exagero ainda maior. O tom hiperbólico, porém, torna-se suspeito. Em Guterres deu um salto qualitativo: tornou-se probatório. As alterações climáticas, na versão muito própria da alquimia alambicada do Secretário-Geral da ONU, transformam um fósforo na explosão de uma supernova. Três frases de Guterres e o ser humano normal julga-o morto, afogado nas suas próprias lágrimas. O tom adequa-se por si ao conteúdo que é dito. A divergência dos dois elementos é já indício de um problema. No caso em apreço, não é preciso procurar muito – trata-se da mentira. Guterres mente. Guterres mente de manhã e Guterres mente à noite; mente quando fala e mente, sobretudo, quando se cala. Prova de que compreende cabalmente e muito bem aplica as leis básicas da propaganda. Não parlenga à matroca. Sabe muito bem o que pretende dar a entender. E a quem o quer dar a entender. O contrato não terá sido escrito, mas não é menos óbvia a relação de subordinação. Em especial no caso do conflito israelo-palestiniano.
No seu último discurso, como em quase todos os outros, Guterres cala todas as perversidades do Hamas: o açambarcamento do leite destinado às crianças – as próprias crianças palestinianas – para depois o negociar, o uso de escudos humanos, as perfídias de guerra (como o uso de hospitais para fins militares), os jornalistas, que afinal são militantes do Hamas, as juras de morte a Israel por dirigentes desse mesmo grupo terrorista (que nas Nações Unidas passou a ser designado singelamente por «o Hamas e outros grupos armados», abençoada pluralização canalha! Abençoado sumiço infame do adjectivo terrorista!), por aí fora e por aí adiante. Nesse discurso, o ataque do 7 de Outubro de 2023 é despachado numa linha. Não passa da gota de um remédio homeopático: o seu único efeito é mostrar que não tem efeito. E quanto a isso ninguém se engana. Que nada disso é inocente entra pelos olhos adentro quando se considera o discurso, dois dias depois, na reunião ministerial da Agência das Nações Unidas para os Refugiados Palestinianos no Médio Oriente (sintomaticamente disponível apenas em inglês e em árabe).
O sinistro parlapatão repete a receita. Uma vez mais força a nota sentimentalona na hipotipose enumerativa de que se empanzina, como uma coquette que o tempo transformou numa velha gorda arrebicada e cheia de dourados se empanturra de duchesses no chá das 5. E depois, viperinamente astuto, afirma que «uma campanha política ininterrupta tentou manipular as percepções públicas, comprometer a capacidade de funcionamento da UNRWA e negar os direitos dos refugiados palestinianos». Guterres afirmou, mas afirmou calando-se, porque não disse quem orquestrava uma tal campanha. Não disse porque sabia que seria compreendido, e muito bem. Israel é o alvo (acessoriamente projectar-se-á nessa ausência os EUA? a Europa? o seu público saberá fazer as devidas projecções). Ao mesmo tempo, para os idiotas inúteis ocidentais, oferece-se um esboço em que não deixarão de ver contornos bem definidos: a conspiração judaica.
Um escritor católico observou com graça que um Protestante era alguém que ainda não tinha tido tempo de se tornar ateu. Aplica-se o mesmo raciocínio a Guterres – sem graça. Se se ficou pela conspiração judaica é só porque ainda não dispôs de tempo. Mais um ano no cargo e invocaria poços envenenados, a peste negra ou cerimónias satânicas com hóstias. Ele sabe a quem tem de agradar. Parece que vai deixar as Nações Unidas. Nunca lá deveria ter entrado. Até ao fim não desmereceu quem o lá pôs e nunca se cansou de mostrar o que vale – não vale nada.