Em 24 de outubro de 1147, após dezassete semanas de cerco, Lisboa abriu as portas a Afonso Henriques. Não a tomou sozinho: ao seu lado combateram cruzados ingleses, flamengos, alemães e normandos, que largaram a rota de Jerusalém para se juntarem à empresa de um jovem rei que ainda não era reconhecido como tal. Sob as muralhas da Alcáçova, homens de línguas diversas sofreram a fome, a chuva e o ferro pela mesma causa. Quando o estandarte subiu, a Lisboa cristã passou a ser a cabeça de um reino, e o inglês Gilberto de Hastings, o primeiro bispo depois da conquista da cidade, ergueu a cruz onde antes se ouvia o almuadem. Foi a vitória de um homem, com a diplomacia da espada; a quem os seus, ainda sem sê-lo, já chamavam de rei.
Antes de Lisboa, houvera Ourique. Em julho de 1139, diz a tradição, um exército muito inferior em número enfrentou os almorávidas no Alentejo e saiu vencedor, e ali os soldados teriam aclamado Afonso como rei. A crítica histórica discute a data, o lugar e a dimensão do feito, mas a memória colectiva guardou o essencial: um povo pequeno, decidido a existir por si, a afirmar a sua independência contra impérios maiores. Para muitos, porém, o verdadeiro marco fundador não é Zamora, em 1143, onde um tratado veio apenas dar forma diplomática ao que já existia. O momento decisivo foi São Mamede, em 24 de junho de 1128, quando um rapaz de cerca de dezassete anos, apoiado pela nobreza e pelo clero portucalenses, recusou que a terra dos seus pais fosse governada como província galega. Foi aí que o condado escolheu ser dono de si; tudo o resto, Ourique, Zamora e Lisboa, foi consequência dessa escolha. De Guimarães, em 1128, a Ourique, em 1139, e daí a Lisboa, em 1147, desenha-se o arco de um país que se fez a si próprio, com coragem, obstinação e alguma fé.
Um reino que nasceu da vontade de ser senhor de si não pode aceitar ser incapaz de saber quem entra pelas suas portas. Afonso Henriques fez da fronteira uma questão de honra; hoje, essa honra exige um Estado que a defenda com lei, clareza e justiça. Durante anos, a “manifestação de interesse”, abolida em junho de 2024, permitiu chegar sem contrato garantido e ficar à espera de um papel que tardava, enquanto a AIMA, herdeira do extinto SEF, acumulava centenas de milhares de processos pendentes. Dessa irregularidade, tolerada por omissão, nasceram as redes que lucram com a esperança alheia: intermediários que vendem falsas promessas de trabalho, patrões que exploram quem não tem documentos e senhorios gulosos que, sabendo que quem chega não tem alternativa, alugam cubículos sem dignidade. Perante este quadro, tem sido frequente responsabilizar os imigrantes pela crise da habitação. A imigração ilegal não é só uma lírica afronta a Lisboa, é, sobretudo, uma falha de um Estado, que abandona uma pátria com fronteiras que não se cumprem, contratos que não se fiscalizam e uma porta que se abre a quem faz negócio com a clandestinidade.
A história de Portugal está, de facto, atravessada por batalhas contra poderes muçulmanos. Depois de Ourique (1139) e de Lisboa (1147), Sancho I tomou Silves em 1189, com ajuda de cruzados, para a perder de novo em 1191 para os almóadas. Afonso II ganhou Alcácer do Sal em 1217, e só em 1249 Afonso III conquistou Faro e completou a fronteira continental, fazendo de Portugal um dos reinos peninsulares de contornos mais antigos e estáveis da Europa. A luta não parou na costa algarvia: em 1415, D. João I tomou Ceuta, e a expansão marroquina, com os desastres de Tânger (1437) e as vitórias de Arzila (1471), prolongou-se até ao Índico, onde Francisco de Almeida venceu a frota mameluca e gujarati em Diu, em 1509. O ciclo fechou-se em 1578, em Alcácer Quibir, onde morreram D. Sebastião e boa parte da nobreza, abrindo caminho à perda da independência em 1580.
Há uma Lisboa que hoje corre o risco de se perder e não por culpa de D. Sebastião. Nas encostas de Alfama, da Mouraria e da Graça, onde em 1147 se combateu casa a casa; as janelas acendem-se cada vez menos para quem ali nasceu. O alojamento local devorou andares inteiros, os vistos gold, criados em 2012, transformaram habitações em activos financeiros, e as rendas subiram para lá do alcance de quem trabalha na cidade: professores, enfermeiros, comerciantes e jovens que não conseguem sair da casa dos pais. Os lisboetas são empurrados para as periferias, e o centro fica como cenário para quem passa ou para qualquer um que venha e fique. Esta é uma perda real, com causas conhecidas e com responsáveis que têm nome e assento em conselhos e assembleias. Permitam-me alguma dose de romantismo histórico, mas honrar os que tomaram a cidade em 1147 é fazer com que ela continue a ser habitada por quem a faz viver, com casas e trabalho para os que lá nascem e que lá querem criar os filhos.
Uma cidade defende-se com políticas de habitação; a perda de Lisboa enquanto cidade habitada resulta, em larga medida, de desastrosas decisões políticas e económicas relativamente recentes. Em 2012, o regime dos vistos gold associou a residência a um investimento, sobretudo imobiliário, e foi apresentado como política de atracção de capital. A expansão do alojamento local, por sua vez, transformou muitas casas de habitação em alojamento turístico, com rendimentos muito superiores aos do arrendamento tradicional. O resultado foi a subida das rendas e a saída de moradores dos bairros históricos para a periferia num processo em que as autarquias e o Governo foram, no mínimo, permissivos. Os jovens qualificados, sem acesso a habitação compatível com os seus salários, emigraram em número significativo.
Um dos segredos mais mal guardados do mercado de arrendamento lisboeta é o modo como muitas rendas se pagam. Há casos documentados, em Lisboa e no Alentejo, de apartamentos onde vivem dez, quinze ou mais pessoas, com aluguer à cama ou até por turnos, em quartos partilhados e sem contrato. Convém dizer que a sobrelotação é também um problema de saúde pública e de segurança, com riscos de incêndio e de doença.
O mundo não vai deixar de ser injusto, e a Europa, com os seus salários e a sua “auto-culpa” será sempre vítima da desmesura migratória massiva. Continuarão a chegar pessoas a Portugal; e nenhuma fronteira, por mais vigiada que seja, o impede por completo. A promessa política de “acabar com a imigração” é, por isso, uma guerra perdida à partida, e daí que o mínimo exigível seja claro: respeito pela lei, contrato ou meios de subsistência legais, aprendizagem obrigatória da língua e conhecimento dos princípios constitucionais. Regras essenciais, porém, em que se o seu incumprimento não gerar consequências rígidas, quem não as cumpre aprende, impune, que pode ignorá-las. Por isso, a política migratória deve incluir um sistema de afastamento credível: a expulsão de quem cometa crimes graves, a saída efectiva de quem permaneça depois de uma decisão definitiva de recusa, e severas sanções às redes, empregadores e senhorios que lucram com a irregularidade.
Em 1128, em São Mamede, um jovem de cerca de dezassete anos afirmou que a terra dos seus pais não seria governada por interesses alheios, fossem eles galegos ou de quem quer que fosse. Quase nove séculos depois, vale a pena recordar esse gesto e perguntar quem decidiu e quem beneficiou com a venda das nossas cidades.