Autor de dois fotolivros sobre o nosso país, com escritos de Nuno Júdice (Portugal, un voyage dans le temps, 2013, e Lisbonne, l’appel du large, 2019), publicados em França, o primeiro dos quais enquanto o poeta e professor universitário (1949-2024) foi diretor do Instituto Camões em Paris, o bretão Bernard Cornu (1951-) veio a Idanha-a-Nova expor uma escolha das suas fotografias sobre a Meseta espanhola e a raia portuguesa feitas ao longo de quase quatro décadas, e as “suas extensões infinitas, áridas, pedregosas, cultivadas pela mão do homem que quase nunca se vê…” (p. 7), dando consistência ao que a presidente da autarquia Elza Gonçalves celebra como “uma amizade estética que perdura no tempo” (p. 5) e valida a vocação transfronteiriça consolidada na rede de cidades criativas da UNESCO, que Idanha-a-Nova forma com Burgos e Valladolid. Num gesto nobre, o fotógrafo doou este seu portefólio à vila da Beira Baixa. E os textos incluídos no livro foram traduzidos para espanhol, catalão e galego, o que amplifica ainda mais o âmbito ibérico desta realização, que podemos considerar exemplar.
Albert Bensoussan (1935-) enquadra esse território num breve porém abrangente roteiro histórico-literário (pp. 10-19), antes de folhearmos as 72 fotografias a preto e branco que — com inesperada variedade de perspetivas — desdobra a paisagem desta “vasta mesa pedregosa” (Bensoussan, p. 12), sazonalmente percorrida pela transumância de ovelhas e bovinos. Sem surpresas, a platitude da Meseta traça uma linha horizontal a meia altura, em que aqui e ali sobressaem negras copas de sobreiros ou construções em ruína, os ciprestes dum cemitério (1991, p. 144) e alguns postes de eletricidade (1993, p. 97, 1998, p. 153), debaixo de céus baixos e claros (que são “sepulcro e santuário”, escreveu Unamuno, e “de cinza”, para Lorca) onde nuvens as mais variadas rompem a monotonia paisagística. Campos lavrados há pouco, searas altas ou já colhidas alternam com linhas ferroviárias (1990, p. 157) e estradas de terra batida (1992, p. 81; 1996, p. 121) neste “mar de terra” desértica — a “terra morta até ao infinito”, nas palavras de Albert Bensoussan (p. 11) — onde parece haver também as ruínas duma antiga mina (2009, p. 155) ou de povoados sem gente (1990, p. 140).

A presença líquida é ali tão rara, que a imagem dum charco à beira duma estrada surge reproduzida duas vezes (2003; pp. 154 e 56-57), e o próprio sol — tão vibrante na Meseta, onde a temperatura alcança os 40 ºC — só aparece, já baixo, na última fotografia, p. 163. O próprio homem — o tratorista, em primeiro lugar — não se deixa ver, é certo, contudo transparece indubitavelmente na atividade agrícola que aproveita como pode estes solos pobres, onde também há salinas (de Revellimos, 1900, p. 141), e a passagem dos rebanhos marca uma época do ano. Abrigos no meio do quase nada, hoje bastante derruídos (v. p. 135), fazem imaginar antigos albergues para trabalhadores rurais ou guias de transumância em noites gélidas ou abrasadoras.
Bernard Cornu está em Castela como nos antípodas dos seus trabalhos na Bretanha natal, os álbuns dedicados aos seus extraordinários cavalos (1989 e 2013), aos pescadores da ilha de Ré e ao Mont Saint-Michel (2022 e 2011), ao litoral e às aves marinhas daquela região francesa (2024 e 2002), e isso só acrescenta valor ao desafio ibérico que tomou a seu cargo.
Um livro a colocar na estante ao lado de Terraformada de Pedro Letria (Assírio & Alvim, 1999) e também de Doze Fronteiras. A raia luso-espanhola percorrida em toda a sua extensão de Joaquim M. Palma (Documenta, 2020).