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(A) :: Este era o jogo Dele mas ele mostrou que também é capaz (a crónica do Portugal-Noruega)

Este era o jogo Dele mas ele mostrou que também é capaz (a crónica do Portugal-Noruega)

Portugal voltou a ter um futebol ofensivo enquanto teve pernas, quebrou no final mas somou quarto triunfo seguido com uma jogada fabulosa concluída por Ramos no jogo que devia ser de Ronaldo (2-1).

Bruno Roseiro
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Mais do que uma vitória, uma questão de afirmação. Num contexto onde cada erro podia ser multiplicado por dez e cada passo em falso iria promover maior divisão, a Seleção que outrora era conhecida por andar de calculadora na mão mudou por completo as contas: somou boas exibições individuais dentro de um enorme sucesso coletivo, diminuiu as grandes armas do adversário, não deu hipóteses em qualquer número de análise que se pudesse levar em conta. O “efeito Ronaldo” nunca deixou de estar presente à volta de toda a delegação portuguesa mas nem por isso conseguiu entrar nas quatro linhas, com Portugal a conseguir a sua melhor exibição desde que Jorge Jesus assumiu o comando técnico na Dinamarca para a terceira vitória.

Num cenário que seria considerado otimista à partida desta série de quatro encontros na Liga das Nações, a Seleção chegava ao quarto e último compromisso com possibilidade de carimbar já a passagem aos quartos de final – e praticamente com o primeiro lugar do grupo A4 garantido, o que dava vantagem no sorteio onde entraria como cabeça de série. Era aí, apesar de todo o “ruído” que o caso Ronaldo continuava a provocar, que estava todo o foco do grupo. E, ao contrário do que aconteceu antes do jogo na Dinamarca, e que terá sido a gota de água final para o avançado abandonar o estágio, Jorge Jesus conseguiu “fintar” o tema que tanto tem dividido opiniões com essa garantia de que, à noite, estaria disponível para abordar tudo isso.

“O que quero é ganhar para praticamente estarmos qualificados para os quartos. Se conseguirmos fazer o que fizemos com a Dinamarca, com momentos com muita qualidade… Era aquilo que mais queria, mas nem sempre no futebol o que queremos conseguimos. Gostava que Portugal ganhasse, que no nosso país ficasse com o carimbo da qualificação. Reconciliação com Ronaldo? O foco tem que ser a Seleção, por tudo. Na Noruega, naquilo que temos que fazer bem, que o nosso povo também esteja em sintonia com a bandeira e com o objetivo. Não posso ignorar o Cris, claro. O Cris é um símbolo da Seleção, de Portugal. Depois do jogo há muito tempo para se falar sobre isso…”, comentou o selecionador, numa das raras intervenções ao longo de 14 questões em que abordou a situação com o capitão que chegou mesmo a gerar cartazes de apoio a CR7.

“Agora só quero focar-me na equipa, no adversário. A Noruega é uma equipa do top 5 da Europa, com grandes jogadores. Temos que estar focados. Depois temos todos tempo para analisar tudo, até mesmo em relação aos jovens jogadores portugueses. Temos mais dois jogos a seguir [na Liga das Nações] mas primeiro temos que carimbar a qualificação. Carinho dos portugueses? O carinho que procuro e que gostava não passa do símbolo da Seleção. O carinho é para a equipa, não é para mim. Eu faço parte de uma equipa, sou o comandante. Antes de ser selecionador também era adepto da Seleção, ferrenho e doido. Olhava para o meu país. Não quero estar à parte de nada da Seleção”, completou, com um ligeiro desabafo na 14.ª questão sobre tudo o que se passou: “A vitória na Dinamarca encheu-me de orgulho como treinador, por aquilo que os meus jogadores fizeram, mas, quando acabou o jogo, fiquei feliz mas poderia estar mais feliz”.

Afinal, na antecâmara do encontro, falou mais sobre Ronaldo o “novo” capitão, Bruno Fernandes, do que o próprio Jorge Jesus. E foi o médio do Manchester United, que jogou com o avançado nos red devils, a fazer um resumo de toda a situação como mais ninguém na FPF conseguiu. “Falei com o Cris por respeito, por saber o que significa para nós portugueses. A minha esperança é que ele não tome decisões a quente e queira abandonar a Seleção de vez. Se o quiser fazer, tem de ser num dia de festa e não de uma maneira assim como foi. Merece isso, é o maior ícone do nosso futebol e do país, alguém que levou o nome do país a um lugar e um patamar onde Portugal nunca tinha estado, com todo o respeito por Eusébio e Luís Figo. Se um dia tiver de acontecer Ronaldo deixar a Seleção, tem de ser num dia de festa e não num dia em que o país fique dividido. A Seleção tem de ser lugar para todos e de todos, onde não existem divisões”, frisou.

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À margem de tudo aquilo que se foi falando nos últimos dias, colocando de lado todas as opiniões e análises feitas desde a noite de quarta-feira (algumas vezes com recurso a uma IA que ajuda em muita coisa mas não consegue mudar outras…), Portugal procurava atribuir uma hierarquia a todos os assuntos pendentes: à cabeça, a receção à Noruega; depois, o regresso aos clubes dentro das condicionantes físicas que este período “obrigou”; de seguida, a tentativa de encontrar a plataforma de entendimento que abrisse caminho a outro tipo de despedida de Ronaldo da Seleção – mesmo tendo viagem marcada para Riade este domingo, com tudo aquilo que isso iria dificultar em termos de solução a breve prazo. Agora, era o “futebol”.

Aí, Portugal voltou a mostrar que está diferente. Mais móvel, mais rápido, com maior tração ofensiva, agora com Vitinha a ser o pêndulo de tudo tendo João Félix a brilhar mais solto à frente e Bruno Fernandes numa posição híbrida entre o meio e a esquerda para projetar Nuno Mendes na frente. Enquanto houve pernas, a Seleção foi sempre melhor; quando surgiu a inevitável quebra física nos dois lados, o encontro acabou por ser resolvido com uma jogada genial entre Vitinha, João Félix e Gonçalo Ramos. No jogo que em condições normais deveria ter Cristiano Ronaldo como titular, ele, que será para sempre Ele no futebol nacional e na história, viu o seu sucessor na frente voltar a ser decisivo para a quarta vitória consecutiva.

Tal como estava “programado”, Jesus voltou a manter a tónica nas três/quatro alterações na equipa inicial: João Palhinha foi chamado para ‘6’ em vez de Rúben Neves, Francisco Conceição foi o ala escolhido para a vaga de Pedro Neto (que jogara as três primeiras partidas) e João Félix regressou às opções por troca com Rafael Leão, com Bruno Fernandes a funcionar como aquele meia esquerdo e não ala jogando por dentro para ser Nuno Mendes a dar a largura pelo corredor. Não foi apenas isso que se confirmou logo nos minutos iniciais: a Noruega aproveitava todas as oportunidades para pressionar alto e condicionar a primeira fase de saída, Vitinha tinha o jogo todo a passar por si sendo a “sombra” de Ödegaard sem bola, João Félix tinha de novo margem para alargar o raio de ação onde quisesse, Nusa e Schjelderup como unidades de referência nas saídas em transição dos escandinavos, que procuravam também Haaland quando queriam jogar mais direto. E o arranque foi movimentado dentro deste contexto, com essa particularidade de ter apenas um remate (e muito fraco) de Vitinha para defesa fácil de Selvik (10′) e nenhuma oportunidade flagrante a abrir.

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Depois dessa entrada, uma toada mais morna. Vitinha continuava a assinar tratados de futebol sempre que a bola lhe passava pelos pés mas os noruegueses conseguiam defender bem o seu último terço, com todas as tentativas pelos corredores laterais a resultarem em passes ou cruzamentos que eram cortados pela muralha defensiva contrária. Ainda assim, tentativas não faltavam: João Félix conseguiu antecipar-se na área aos dois centrais contrários após passe da direita, atirou forte mas Östigärd evitou que a tentativa fosse para a baliza (20′), Vitinha arriscou de novo a meia distância mas por cima (20′), João Cancelo quis também surpreender de fora mas o remate enquadrado acabou por ser desviado por Selvik para canto (21′). Só mesmo depois dessa fase de maior pressão nacional a Noruega apareceu mas em jogadas individuais ou nas bolas paradas, com Nusa (25′) e Berg (27′) a terem os primeiros remates enquadrados mas sem grande perigo.

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Apesar desses lances, Portugal estava melhor e, com o tempo, conseguia também encontrar outras formas de desequilibrar na frente além da mobilidade que todas as unidades já davam. Uma delas, aquela que melhor resultado deu, passou pela subida de João Palhinha vários metros à frente do raio que ocupava, dando depois a vantagem numérica pelo corredor central que permitia criar situações de remate para Bruno Fernandes (32′), Gonçalo Ramos (32′) e Nuno Mendes (34′), todos sem sucesso dando no máximo cantos. Ainda assim, seria uma questão de tempo até surgirem os golos… e com vários pontos de contacto: bolas longas na zona da entrada da área, de livre pelos noruegueses e num lançamento de Portugal, segunda bola para a equipa que atacava e grandes remates de Ajer (36′) e João Cancelo (38′) sem hipóteses. Apesar de não ter conseguido impedir o empate ao intervalo, Portugal voltava a ter um timing perfeito para chegar ao golo.

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Até pelo lance de inspiração que teve no final da primeira parte, Jesus optou por manter João Cancelo em campo apesar dos sinais que chegaram a ser dados por Rúben Dias para controlar a possibilidade de o lateral estar em risco de um segundo amarelo. Tudo continuava na mesma, com a Noruega a procurar cada vez mais um jogo direto em Haaland para o avançado do Manchester City congelar bola e dar mais metros à equipa e Portugal a manter a vontade de jogar rápido, desequilibrar com a mobilidade e arriscar sempre que possível a baliza tendo em conta a forma como conseguia bloquear as tentativas de saída contrárias. Bruno Fernandes, num remate descaído sobre a esquerda após combinação com Nuno Mendes que saiu ao lado (52′), e João Cancelo, que ganhou uma segunda bola para testar de novo Selvik (55′), foram os protagonistas das duas primeiras oportunidades do segundo tempo num jogo que continuava a ser controlado pela Seleção.

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Haaland, a passe de Berg, ainda teve uma rara oportunidade na área de visar a baliza de Diogo Costa (60′) mas já antes Jesus tinha preparado as duas primeiras substituições com as entradas de Diogo Dalot e Rúben Neves para as saídas de João Cancelo e João Palhinha. Não eram trocas estruturais que fossem mexer muito com o que se estava a passar, eram trocas que “protegiam” o lateral do Barcelona e procuravam dar maior critério na construção a meio-campo de uma Seleção que estava a perder clarividência na frente. Havia ainda um problema que parecia comum aos dois conjuntos: em termos físicos, a quebra era notória. Os sinais que Haaland ia dando para ser substituído a meio do segundo tempo funcionavam como exemplo paradigmático de fazer quatro partidas em 11/12 dias. Seria preciso algo de “diferente” para desbloquear a partida.

Uma hipótese era a bola parada, com Rúben Neves a surgir ao segundo poste após livre lateral na direita de Bruno Fernandes para o desvio com perigo mas que saiu por cima (73′). A outra, claro, era esperar por um momento de inspiração de jogadores que sozinhos conseguem resolver jogos – e, neste caso, foram logo três seguidos, com Vitinha a ter um passe fabuloso a picar por cima dos centrais para a entrada de João Félix na área, assistência para o lado contrário de primeira do avançado do Al Nassr e toque subtil de pé esquerdo de Gonçalo Ramos na pequena área por cima de Selvik para o 2-1 (79′). A história do resultado estava contada, a história do jogo ainda não: Francisco Conceição viu dois amarelos num lance em que ficou a protestar uma grande penalidade (86′), Portugal ainda sofreu mas conseguiu segurar o triunfo.

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