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Mundo volátil: Brasil, Brexit e Kaliningrado

O problema é que a Europa Ocidental se habituou mal. Nas últimas décadas teve muita previsibilidade, segurança e prosperidade – também por cortesia dos EUA. Isso já não pode ser dado como garantido. 

Bruno Cardoso Reis
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Camões diz-nos que “todo o mundo é composto de mudança”. Realmente os portugueses do século XVI protagonizaram mudanças extraordinárias. O passado parece-nos previsível, mas já foi futuro imprevisível. A capacidade de gerar e gerir a mudança tem sido uma das chaves do sucesso da humanidade. O problema é que a Europa Ocidental se habituou mal. Nas últimas décadas teve muita previsibilidade, segurança e prosperidade – também por cortesia dos EUA. Isso já não pode ser dado como garantido. 

Uma eleição difícil de prever

-O Brasil tem eleições presidenciais a 4 de outubro. Se as sondagens acertarem teremos uma segunda volta a 24 de outubro, em que os dois candidatos que lideram destacados – Lula da Silva e Flávio Bolsonaro – aparecem praticamente empatados. Porque importa o Brasil? Interessa a Portugal pela ligação histórica e pela vasta comunidade portuguesa que por lá vive, e pela brasileira que vive por cá. Lisboa é mesmo o círculo eleitoral brasileiro no estrangeiro com mais eleitores, quase 80.000. O futuro do Brasil também passa por cá, até porque a eleição pode ser decidida por uma margem curta. Sobretudo, claro, o Brasil pesa a nível regional e global. Concentra cerca de metade da população, do território, da economia e do investimento em defesa de toda a América do Sul. Tem as segundas maiores reservas de terras raras do Mundo. E com 159 milhões de eleitores, estamos a falar do destino da quarta maior democracia pluralista onde ainda vão existindo eleições mais ou menos livres e justas, depois da Índia, Estados Unidos e Indonésia.

A democracia brasileira é mais recente que a nossa. Depois do golpe militar de 1889, que afastou Dom Pedro II, seguiu-se uma República Velha oligárquica, com a política do “café com leite” a alternar a presidência entre as elites de São Paulo e Minas Gerais, até 1930. Veio então Getúlio Vargas, em ditadura aberta a partir do autogolpe de 1937, que tomou de empréstimo a etiqueta de Estado Novo. Em 1945 surge uma nova República pluralista mas instável e frágil, muito pressionada interna e externamente, que acabou derrubada pelo golpe militar de 1964. Seguiram-se mais de duas décadas de ditadura militar, que negociou uma transição democrática, culminando nas eleições presidenciais livres de 1989. Desde então, tivemos nove eleições e sete Presidentes. Lula da Silva foi protagonista vencido, vencedor ou influente em todas elas. Esta será provavelmente a sua derradeira vitória ou derrota presidencial. Se Lula perder, nas Américas, com dimensão significativa, apenas o México resistirá a uma vaga de direita muito motivada pelo cansaço da população com a violência do crime organizado.

A política externa raramente decide campanhas. E embora no Brasil o Presidente da República lidere o governo e comande a política externa, haverá limites às mudanças na diplomacia brasileira. Flávio Bolsonaro, por exemplo, aponta no seu programa para a adesão ao clube económico “ocidental” da OCDE. Lula insiste na sua aposta no Sul Global e nos BRICS. Mas Lula também precisa da Europa para não ficar demasiado dependente da China. E Bolsonaro filho provavelmente perceberá, como percebeu Bolsonaro pai, que não pode dispensar os 30% de exportações brasileiras que vão para a China.

Kaliningrado e a nova ameaça russa

Putin ameaçou a NATO com a arma nuclear em reação a um alegado plano de “bloqueio” de Kaliningrado. Rutte rejeitou haver intenção de ocupar o exclave russo. De caminho falou com o primeiro-ministro da Lituânia, depois de caças italianos terem abatido um drone russo que violava o espaço aéreo lituano. Claro que os dois episódios não podem ser separados. Kaliningrado é uma bizarria. Corresponde à metade norte da Prússia Oriental anexada pelos soviéticos vitoriosos em 1945. Se a Crimeia é “historicamente russa” por ter pertencido à Rússia entre 1783 e 1954, o que fazem os russos em Kaliningrado, a antiga Königsberg, terra natal de Kant, que foi capital da Prússia Oriental alemã desde 1255 até 1945? Isto mostra como o argumento da longa pertença histórica é arbitrário, só é usado pelo Kremlin quando lhe convém. Isto lembra também que, se os Países Bálticos são vulneráveis a ataques, Kaliningrado também o é, encravado entre a Polónia e a Lituânia. Devemos temer esta ameaça nuclear russa? Quem ameaçou foi Putin, que tende a ser mais contido na retórica e é quem decide. Mas convém lembrar que, quando a Ucrânia ocupou território russo em Kursk, Putin não recorreu ao nuclear.

Rutte faz bem em dizer que a NATO, como aliança defensiva, não inicia guerras – não o fez no Kosovo, não o fez no Iraque ou no Afeganistão, interveio depois de guerras e massacres iniciados por outros. E, por isso, não planeia uma guerras de conquista contra Kaliningrado. Coisa diferente é pôr em cima da mesa restringir o acesso russo a esse território em resposta a uma escalada inaceitável de ataques híbridos contra alvos em países da NATO. Essa questão claramente preocupa os russos, e, portanto, deveria ser usada para dissuadir a escalada russa. E se um país da Aliança for atacado pela Rússia claro que a ameaça de agir contra o exclave deveria ser colocada, até para dissuadir a agressão de acontecer. Kaliningrado deve ser um de vários instrumentos de pressão sobre Moscovo, a usar em público e em privado, a par do reforço do apoio militar à Ucrânia. O que isto mostra é que a guerra é, cada vez mais, uma questão com que os europeus têm de lidar, gostem ou não. No Sul temos a vantagem da distância face a uma Rússia predatória, mas isso não nos protege de todos os riscos de um mundo mais conflituoso: 2025 foi um ano recorde em número de guerras desde 1945.

O fim do tabu da reversão do Brexit

O novo chefe do governo britânico, Andy Burnham fez, na semana passada, o seu primeiro grande discurso estratégico. O foco foi em questões internas. Mas para o resto da Europa a grande novidade foi afirmar que ia colocar em cima da mesa todas as hipóteses nas relações com a União Europeia, desde tudo ficar na mesma até ao regresso ao Mercado Único ou mesmo uma nova adesão. É o primeiro chefe de governo britânico a admitir voltar totalmente atrás, dez anos depois do referendo que aprovou o Brexit.

Porquê? Os britânicos saíram a contar com o reforço das pontes com os EUA, exatamente na altura em que o mesmo tipo de populismo nativista e antiglobalização que levou ao Brexit também levou Trump à Casa Branca, deixando a Grã-Bretanha num isolamento cada vez menos esplêndido. Burnham está a testar as águas. O seu rival populista, um dos arquitetos do Brexit, Nigel Farage, espera colher tempestades nacionalistas. Portugal e a Europa devem saber aproveitar a maior vontade de cooperação do governo de Londres sem cair em expectativas excessivas sobre uma política britânica que continua a ser muito volátil.

E Portugal?

A estabilidade deixou de ser um dado adquirido. Num mundo assim, Portugal pode apostar na imagem de oásis de segurança e previsibilidade para atrair investimento. Mas paradoxalmente isso implica mudar. Implica antecipar riscos e mudanças e adaptar-se ativamente para reduzir vulnerabilidades e explorar oportunidades, por exemplo, com: mais reservas hídricas, mais diversificação energética, mais reservas alimentares e de matérias-primas críticas. Infelizmente, apesar dos esforços da SEDES, desde a sua fundação, em 1970, a nossa cultura organizacional e política é muito avessa ao planeamento, ao risco e à sua gestão inteligente. Apesar de tudo, ouvi num debate organizado, esta semana, pela SEDES em Évora um bom exemplo, o de José Roquette e da Herdade do Esporão. Antecipando a tendência de queda global no consumo de bebidas alcoólicas, há uns anos arrancou 40% da sua vinha e apostou na produção de azeite.  Seriam precisos mais destes jovens de 90 anos dispostos a gerir um Mundo de maior risco.