Comecemos pelas incógnitas. Não é segredo para ninguém que os juros da dívida pública estão a aumentar por esse mundo fora. Se em meados de Agosto, Portugal parecia longe de um furacão em formação, este aproxima-se. É certo que a dívida pública portuguesa tem descido face ao PIB nos últimos anos, mas também é verdade que o feito se deveu ao crescimento do PIB e não à descida da dívida, menos ainda da despesa que, pelo contrário, não deixaram de aumentar. Ou seja, caindo o PIB (ou se não crescer mais do que sobe a dívida) o problema volta e em força.
A juntar-se aos juros da dívida, a inflação está em crescendo. Também não é segredo para ninguém que mais inflação pode ser positivo para quem tenha uma dívida elevada porque o PIB aumenta com a inflação, logo a dívida pode descer face ao PIB. Mas uma vez mais, se descer será porque o PIB aumenta de forma automática, logo artificial. O que pode parecer positivo, não deixa de comportar um risco elevado. Além de que a inflação tem o seu lado negativo até para os estados mais endividados na medida em que os juros aumentam, logo o preço do dinheiro sobe, logo a própria dívida pública cresce. A inflação é um cancro tão grave quanto a dívida e quando as duas se juntam alguma coisa explode.
De acordo com os últimos dados, a venda de casas em Portugal está em queda. (Isto apesar de os preços continuarem a aumentar.) Ainda não se conhecem quais os motivos, pelo menos os mais directos, se a procura caiu e se caiu porquê, se é por haver menos estrangeiros à procura de casa em Portugal se é porque os preços se tornaram incomportáveis para os portugueses e estes estão a comprar menos. Não sabemos. Mas sabemos que, se e quando ocorrer, uma descida dos preços pode levar a que bancos percam valor nas garantias hipotecárias necessárias em caso de incumprimento. Também não desconhecemos (porque já temos experiência nesta matéria) que uma crise bancária, mesmo que não esteja à vista, é complicada.
Entretanto, o cumprimento do Orçamento do Estado em vigor complica-se e é difícil que 2027 seja melhor. A dívida pública portuguesa caiu em Julho, mas porque se reembolsou uma linha de obrigações lançada em 2016, quando os juros sofreram uma forte queda. Foram agora pagos, o que é bom sinal, mas a custo baixo. Mais, de acordo com o quadro do Banco de Portugal publicado pelo ECO (e que consta da mesma notícia), desde Abril de 2025 que a dívida pública se tem mantido acima dos 280 mil milhões de euros, longe dos valores a que nos habituámos desde Julho de 2021. Os próximos meses nos dirão se a queda de Julho último foi uma tendência ou um mero acaso.
Passemos agora ao impasse. É perante este cenário económico e financeiro que assistimos à contínua descida da AD nas sondagens, colocando-a em terceiro lugar. É verdade que as sondagens não passam de sondagens. Mas não deixa de ser uma realidade que o cenário político-partidário português está em transformação. Primeiro, o Chega tomou o lugar do PCP e do Bloco enquanto partido de protesto e representante das classes mais esquecidas ou reaccionárias. De seguida, ocupou boa parte do lugar do PS enquanto partido dos pensionistas e dos funcionários públicos. Fê-lo pela direita, é verdade, mas unicamente porque as razões de identidade ganharam uma força que não tinham.
O que as sondagens nos parecem indicar é que a descida da AD para terceira força política pode significar um novo passo neste caminho de mudança do espectro político-partidário. Por enquanto, também ainda não sabemos se a descida da AD nas intenções de voto se deve a Luís Neves, se ao aumento do custo de vida, se à desesperança que se sente, se à soma dessas razões. Mas intuímos que a próxima vítima do arranjo político-partidário português pode estar a ser o PSD. O PS parece já ter percebido isso e não tem pressa para novas eleições. Deixar Montenegro a cozer o PSD em lume brando significa fazê-lo perder votos, mesmo que muito lentamente. Num empate a três todo o voto conta. Se a permanência do PSD em terceiro lugar nas sondagens convencer os eleitores de que assim é, PS e Chega podem tornar-se nos maiores partidos portugueses e a alteração do cenário partidário ficar por aí. Se assim for, ao PS e ao Chega basta esperar. O primeiro assumir-se-á cauteloso, o segundo fingir-se-á apressado. Serão diferentes tácticas que os distinguirão um do outro. Nada mais. No fim, o que lhes interessa é o resultado final. E esse, se forem pacientes, pode não surgir em 2027, mas mais tarde.
Um Estado endividado, incapaz de prestar os serviços públicos a que se obrigou e que se prontificou a levar por diante. Um estado com uma falta crónica de polícias para cumprir uma da suas funções essenciais, que é a segurança. Um regime democrático com instituições políticas descredibilizadas devido ao comportamento reiterado de políticos que afinal não se reduzem apenas aos do PS. Um governo sem força porque pressente que o partido que o segura está em queda. Uma comunidade que não sabe que país quer. Este é o impasse. Um estado, um regime, um governo, um país que se segura porque está na União Europeia.
Com o detalhe de a UE não ser o que era há 16 anos. É verdade que está mais desperta para a realidade, mas também está à procura de novos fundamentos que a façam continuar. A nova Europa pode trazer dois efeitos imediatos: primeiro, a escolha de atores políticos que não querem que o projecto europeu continue como até aqui. Segundo, porque com uma mudança política no centro da Europa (França com um presidente extremista; Alemanha com um governo extremista), os problemas em Portugal perdem relevância no continente. Ou seja, e para concluir, o impasse é a solução que convém aos três maiores partidos portugueses porque não têm força para fazer diferente, mas também não têm ideia do que fazer diferente. Não decidir, mas fazer de conta que sim. Aquele ar sério, moderado, meditativo, mesmo que um ou outro personagem se queira passar por mais enérgico e transmita a ideia de que vai dar um murro na mesa, não passarão de atitudes, comportamentos, poses que veremos em dose dupla e que reafirmarão sem que expressamente se diga que nos encontramos à espera. Do quê? Do que vier.