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(A) :: Não é fácil ser um europeu médio

Não é fácil ser um europeu médio

O macaco que singra na Europa pode até ganhar uma carreira universitária mas essa esforçada conquista vem mais do teatro de variedades do que das avenidas largas da emancipação.

Tiago de Oliveira Cavaco
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A Europa está cheia de europeus médios. E o europeu médio sonha provavelmente em manter-se europeu, perdendo o médio. Não é fácil. Este nosso continente pode não ser a Ásia do Japão ou da China, cheia de liturgias sociais, ou a da Índia, com castas várias, mas, ao mesmo tempo, não facilita os elevadores sociais que a América do Norte nos inspira. Não é fácil ser um europeu médio.

Mas é tudo uma questão de perspetiva. Imaginem um encontro académico. Há um convidado especial que discursa a partir da sua experiência de vida. A sua experiência de vida é única e ganhou a pertinência de conquistar um espaço na atenção do mundo universitário. Este convidado especial detalha o seu percurso: era um chimpanzé da Costa do Ouro quando foi capturado pela Firma Hagenbeck.

O macaco que discursa levou dois tiros mas sobreviveu. Foi transportado para a Europa maritimamente numa jaula. Viajou sem condições, apanhou pulgas, conviveu com os marinheiros que não tinham maneiras. Decidiu aprender com eles: “era tão fácil imitá-los. Logo nos primeiros dias já sabia cuspir. (…) Não passou muito tempo até que começasse a fumar cachimbo.” Aprende a arte de beber aguardente e atinge o dom da linguagem surpreendendo todos com um “Olá!”.

Quando é entregue a um domador em Hamburgo tinha dois caminhos: o jardim zoológico ou o teatro de variedades. Escolhe o segundo e nota: “a natureza símia fugia de mim para sempre a toda a pressa e aos tropeções, de tal maneira que o meu primeiro professor quase se tornou ele próprio um macaco, desistiu das aulas e teve de ser internado num sanatório”. A criatura construiu a sua própria sorte macaca e agora descreve-a na Universidade.
Numa das últimas afirmações que partilha com os Excelentíssimos Senhores da Academia, revela confiante: “Graças a um esforço como o mundo nunca viu, adquiri a educação de um europeu médio”. Como podem calcular, a história não é minha. É de um conto de Franz Kafka, chamado “Relato para Uma Academia” e faz parte de “Josefine, a cantora ou o povo dos ratos”, acabado de editar pela Penguin. É obrigatório.
Se há nome literário usado em vão é o de Kafka. Sempre que alguma coisa ultrapassa negativamente os limites da nossa expectativa metemo-lo ao barulho e afirmamo-nos numa realidade kafkiana, como se a conquista do escritor de Praga fosse o diagnóstico de que o mundo está doido pelo menos desde o início do século XX. Não é que não possamos concluir algo parecido enquanto o lemos, mas é claramente pouco ficar por aí.
O chimpanzé de Kafka celebra na Academia o que pela sua vontade conquistou ao mesmo tempo que não idealiza: “do mesmo modo que a liberdade pertence aos sentimentos mais elevados, é também maior a desilusão que lhe corresponde”. O macaco que singra na Europa pode até ganhar uma carreira universitária mas essa esforçada conquista vem mais do teatro de variedades do que das avenidas largas da emancipação. A moral da história faz-se sozinha.