O Brasil vai a votos numas presidenciais que se prevê que sejam muito renhidas. O atual Presidente brasileiro, Lula da Silva, vai enfrentar nas urnas Flávio Bolsonaro, o filho do antigo líder do país que está em prisão domiciliária. Para domingo, está marcada a primeira volta, sendo que as eleições dificilmente ficarão já decididas. A política do país sul-americano continua polarizada entre o movimento de esquerda de Lula da Silva, que conta com o apoio do Partido dos Trabalhadores (PT), e a organização política de direita radical fundada por Jair Bolsonaro.
Além das presidenciais, o Brasil terá também eleições para decidir os governadores dos diferentes estados, como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, polos importantes do poder político num país federal. E não é só isso: os 513 membros da Câmara dos Deputados e 54 dos 81 lugares do Senado — as duas câmaras que integram o Congresso e constituem o centro do poder legislativo —, também serão renovados este domingo. O país vai definir que trajetória vai continuar nos próximos quatro anos: se mantém à frente Lula da Silva ou se dá lugar a uma renovação com Flávio Bolsonaro.
Tal como tem acontecido nos últimos anos, o sistema judicial tem dominado a campanha eleitoral no Brasil. Quando mais não seja porque o filho do antigo Presidente — que foi condenado a 27 anos de prisão no ano passado — vai a votos, prometendo aplicar uma amnistia ao pai. Mas não é apenas isso: Alexandre de Moraes, o polémico juiz que chefiou o processo que levou à prisão de Jair Bolsonaro, continua debaixo de fogo, num clima bastante crispado no Supremo Tribunal Federal, o órgão judicial mais importante do país e que se viu arrastado para o centro dos confrontos políticos.
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Quase 160 milhões de eleitores vão este domingo às urnas. Ainda que as atenções estejam centradas em Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, existem outros nomes no boletim de voto nas presidenciais: Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e até o escritor de livros de autoajuda Augusto Cury. Ainda assim, segundo indicam as sondagens, nenhum deverá ter mais de 5% dos votos individualmente. Não existe praticamente uma terceira via nestas eleições. Contudo, a maior parte destes candidatos é de direita, enquanto a esquerda está totalmente unida em torno da campanha do atual Presidente.
Em termos regionais, estas eleições estão a ser acompanhadas com especial atenção. A América do Sul registou uma guinada à direita: desde 2023, países como a Argentina, o Chile, a Bolívia e o Peru elegeram líderes políticos daquele espaço ideológico. O Brasil configura-se como uma das poucas exceções do subcontinente, mantendo à frente um Presidente assumidamente de esquerda. A eventual derrota de Lula da Silva deixará a América Latina bastante mais próxima dos Estados Unidos, o país que — sob a administração Trump — não esconde os planos de domínio do Hemisfério Ocidental.
Podem Lula ou Bolsonaro vencer na primeira volta?
Tal como acontece nas presidenciais portuguesas, um candidato no Brasil precisa de obter mais de 50% dos votos válidos para vencer logo à primeira volta. Devido à união da esquerda em redor da sua candidatura, Lula da Silva almeja alcançar este resultado já este domingo. Por sua vez, tendo adversários do mesmo espaço político no boletim de voto, será mais difícil para Flávio Bolsonaro aproximar-se dessa votação este domingo.

Mas as sondagens apontam que ninguém deverá atingir a marca de 50% no domingo. O atual Presidente deverá vencer a primeira volta. Segundo o agregador dos estudos de opinião compilado pela CNN Brasil, Lula da Silva obterá um resultado na ordem dos 40%, podendo chegar aos 45% das intenções de voto. A confirmar-se, o Presidente está muito longe de carimbar a permanência no Palácio do Planalto já este domingo e será uma descida considerável face àquilo que obteve em 2022: 48,43% dos votos.
Flávio Bolsonaro não fica muito longe de Lula da Silva. O candidato do Partido Liberal (PL) deverá obter um resultado ao redor dos 36%, podendo chegar aos 40% das intenções de voto, segundo o agregador de sondagens. Um número que também é uma descida face àquilo que o pai obteve há quatro anos — 43,2% —, mas que serve confortavelmente para passar à segunda volta, marcada para 25 de outubro.
Na hipótese muito provável de haver segunda volta, os dois candidatos surgem num cenário de empate técnico, com Flávio Bolsonaro e Lula da Silva a apresentarem intenções de voto muito próximas, estando separados por décimas. Contudo, a distribuição dos apoios dos candidatos eliminados na primeira volta poderá beneficiar ligeiramente o filho de Jair Bolsonaro, ainda que a transferência de voto nunca esteja totalmente garantida.
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O escritor, o candidato da “direita raiz”, o ativista contra Dilma e o empresário. Quem são os candidatos da terceira via?
Os candidatos da chamada terceira via estão muito mais afastados. O escritor Augusto Cury, que é apoiado pelo partido centrista Avante, ficar-se-á pelos 5% dos votos. Sendo uma cara conhecida pelos brasileiros, o médico começou a tentar atrair o eleitorado ao centro que não gosta nem de Flávio Bolsonaro, nem de Lula da Silva. Mantendo-se bastante ambíguo, a sua campanha começou, assim assim, bastante bem — o candidato chegou aos 10% das intenções de voto em algumas sondagens no final de agosto. Porém, nunca se conseguiu afirmar num cenário de bipolarização.
Em quarto lugar, com cerca de 4% dos votos, estará o ex-governador do estado de Goiás, Ronaldo Caiado, do Partido Social Democrático (PSD). Apresenta-se como pertencendo à “direita raiz”, representando sobretudo os interesses da agropecuária. Desde o início, tentou roubar votos a Flávio Bolsonaro, defendendo uma postura económica diferente, centrada na proteção dos grandes empresários agrícolas e da pecuária. Socialmente, assume-se como conservador, como o candidato do PL. As sondagens nunca lhe atribuíram mais de 4% — e não conseguiu fazer mossa na campanha do filho do antigo Presidente.
Segue-se o ativista político Renan Santos, suportado pelo Partido Missão, de direita radical, que se deverá ficar pelos 3% dos votos, conforme indicam as sondagens. Um dos fundadores do Movimento Brasil Livre (MBL) assumiu grande protagonismo durante o mandato da antiga Presidente Dilma Rousseff, organizando massivos protestos contra a governação da afilhada política de Lula da Silva. Com forte presença nas redes sociais, a sua campanha tentou angariar os votos do eleitorado de direita mais jovem, criticando quer o atual chefe de Estado, quer Flávio Bolsonaro. Ainda assim, nunca representou uma ameaça real para o segundo.




Apenas com 1% dos votos, segundo as sondagens, está Romeu Zema. O empresário defensor de privatizações é apoiado pelo Partido Novo, representando o espaço da direita neoliberal no Brasil. Piscando o olho ao eleitorado das grandes cidades que não se revê nos dois principais candidatos, o ex-governador de Minas Gerais nunca se conseguiu perfilar como uma alternativa viável.
Haddad contra Tarcísio. O duelo em São Paulo (e as eleições para governadores)
No Brasil, este domingo, têm ainda lugar as eleições para decidir os governadores. Os 26 estados, juntamente com o Distrito Federal — onde está a capital, Brasília —, vão eleger os líderes regionais. As regras são idênticas às das presidenciais: o candidato tem de obter mais de 50% dos votos válidos para vencer logo na primeira volta. Caso contrário, terá de submeter-se a uma segunda, agendada para 25 de outubro, tal como as presidenciais.
Politicamente, destaca-se o estado de São Paulo, o mais populoso do Brasil: Fernando Haddad, antigo candidato à Presidência da República — que perdeu em 2018 para Jair Bolsonaro —, candidata-se ao cargo de governador, tentando derrotar Tarcísio de Freitas, um dos rostos mais influentes da direita brasileira e cujo nome chegou a ser ponderado para liderar a corrida ao Palácio do Planalto em vez de Flávio Bolsonaro. As sondagens mostram que Tarcísio está perto de uma vitória na primeira volta, o que seria um grande balão de oxigénio para a direita brasileira e uma pesada derrota para o PT.

No Rio de Janeiro, a corrida disputa-se entre Eduardo Paes, membro do Partido Social Democrático e aliado de Lula da Silva, e Douglas Ruas, pertencente ao PL da família Bolsonaro — partido que governa o estado atualmente através de Cláudio Castro. Nenhum dos candidatos deverá vencer logo na primeira volta, mas o atual o candidato do PSD surge em boa posição para ser o próximo governador, registando na primeira volta intenções de voto na ordem dos 45%.
A importância do Congresso e como a direita quer destronar o “centrão”
Na Câmara dos Deputados, a totalidade dos 513 lugares vai a votos em todo o país, com cada estado a eleger entre oito e 70 deputados, consoante a sua população. Já no Senado, haverá uma renovação de dois terços — correspondendo a 54 dos 81 assentos —, o que significa que cada um dos 26 estados e o Distrito Federal vão eleger dois senadores.

Apesar de parecerem eleições secundárias, a composição do Congresso — que fica definida já este domingo, não havendo uma segunda volta — será um elemento importante para quem vier a vencer as presidenciais. As duas câmaras costumam ser controladas pelos partidos de centro (o chamado “centrão”), que influencia a presidência, seja na aprovação do Orçamento, seja no avanço de reformas estruturais.
Os partidos da direita brasileira pretendem aumentar a representação parlamentar. Atualmente, o Congresso é dominado pelo “centrão”, que viabiliza propostas do PT e do Executivo, se estes avançarem com concessões políticas e orçamentais. Para o movimento ainda liderado por Jair Bolsonaro, uma vitória expressiva no Parlamento permitiria condicionar a Presidência, caso Lula da Silva seja reeleito. No melhor dos cenários — se Flávio Bolsonaro vencer as presidenciais —, a direita passaria a controlar tanto o poder executivo como o legislativo.
As sondagens preveem um cenário em que o PL deverá obter o maior número de assentos parlamentares, quer na Câmara dos Deputados, quer no Senado. No entanto, o resultado dificilmente será suficiente para garantir uma maioria absoluta em ambas as câmaras. Assim, é expectável que a governabilidade continue a depender das negociações com os partidos do bloco de centro.