
A frase
Papa Leão XIV manda recado após ataques de Flávio à Igreja Católica.
— Utilizador de Facebook, 28 de setembro de 2026
Circula nas redes sociais uma publicação que alega que o Papa Leão XIV mandou um “recado” a Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro e candidato às eleições presidenciais de 4 de outubro, após este ter lançado “ataques” à Igreja Católica.
“O Papa Leão XIV fez, nesta segunda-feira (28), um alerta sobre o uso da religião para justificar violência ou opressão. A declaração ocorreu durante um encontro inter-religioso em Metz, na França, em meio à repercussão das críticas feitas pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) à atuação de setores da Igreja Católica no cenário eleitoral brasileiro”, lê-se na publicação, que cita Leão XIV a dizer que “invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão constitui uma profanação desse nome”.
“A fala ocorre um dia após acusarem a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de ter ajudado o PT a disseminar informações que, segundo ele, seriam falsas sobre sua posição em relação a Nossa Senhora Aparecida”, acrescenta ainda a publicação, destacando que os bispos brasileiros rebateram a acusação.
Trata-se, porém, de uma publicação falsa, elaborada a partir de uma manipulação de uma frase que foi verdadeiramente proferida pelo Papa Leão XIV.

De facto, a frase foi dita pelo Papa, mas não num contexto em que se estivesse a referir ao Brasil. As declarações foram feitas durante um encontro inter-religioso na cidade de Metz, em França, na reta final da visita de quatro dias que Leão XIV fez ao país no fim de setembro. O discurso integral de Leão XIV encontra-se no site do Vaticano e pode ser lido aqui. Falando concretamente da realidade política da União Europeia, lembrou o católico Robert Schuman, um dos pais fundadores do bloco europeu, que permitiu construir a paz além-fronteiras, e citou o Papa Francisco para destacar que o diálogo entre pessoas de diferentes religiões deve servir para estabelecer a paz — e não para fomentar a guerra.
“Com efeito, invocar o nome de Deus para legitimar a violência ou a opressão configura uma profanação desse nome. Nada do que desfigura a dignidade humana pode reivindicar uma autêntica inspiração divina. O discurso religioso deve exortar constantemente ao desarmamento dos corações e das palavras. Isto implica a responsabilidade direta de cada um de nós, enquanto guardiães das nossas respetivas tradições”, assinalou Leão XIV.
Mais tarde, a bordo do avião que levou Leão XIV de regresso a Roma após a visita a França, o Papa voltaria a abordar a questão do extremismo e da religião. A conferência de imprensa encontra-se integralmente transcrita no site do Vaticano e pode ser lida aqui. Leão XIV tocou no assunto em resposta a uma pergunta do jornalista Ludwig Ring-Eifel, da KNA, agência de notícias católica da Alemanha, sobre o contexto específico da realidade política alemã. O jornalista queria saber o que pensava o Papa do “declínio constante da Igreja Católica na Alemanha e a surpreendente ascensão dos partidos extremistas na Alemanha”.
https://observador.pt/especiais/qual-e-a-nossa-sede-mais-profunda-de-visita-a-franca-leao-xiv-encontrou-o-paradoxo-de-uma-europa-secularizada-a-redescobrir-a-fe/
Na longa resposta, Leão XIV reconheceu os problemas que têm provocado o afastamento dos fiéis da religião na Alemanha, mas mostrou-se otimista em relação ao futuro. Mais à frente, afirmou: “Seria interessante estudar, analisar se existe e de que modo uma relação, por exemplo, entre o crescimento destes grupos de extrema-direita (e a extrema-direita está também agora a fragmentar-se, como se vê no caso de um grupo em particular que se está a tornar ainda mais extremista do que outros assim chamados de extrema-direita) e uma certa combinação dos pontos de vista de extrema-direita com um tipo específico de religião, que — não só na minha opinião, mas também segundo o que afirmam os responsáveis da Igreja católica e da Igreja protestante na Alemanha — não representa uma expressão autêntica do Cristianismo.”
“E, mais uma vez, voltamos aos valores do Evangelho, que não são o ódio nem a divisão, mas a compreensão, a compaixão e o acompanhamento. Espero sinceramente — e espero que também a Igreja possa contribuir para isso — que consigamos encontrar a forma de chegar à maioria das pessoas de boa vontade, para que compreendam o quão importante é o seu empenho, também em termos de participação nos processos políticos, em fazer escolhas claras a favor do bem comum e não a favor de ideias extremistas que poderiam causar danos muito mais graves do que aqueles que percebemos neste momento”, acrescentou.
O Papa Leão XIV nunca se referiu, portanto, à realidade concreta do Brasil. Pelo contrário, quando disse aquela frase em específico estava a referir-se ao processo de construção da União Europeia. Depois, falou particularmente da situação na Alemanha.
Ao longo das últimas semanas, a religião tem assumido um crescente protagonismo na muito polarizada disputa eleitoral entre o incumbente, o Presidente Lula da Silva, e o filho de Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro. Aliás, a religião tem sido um importante fator de divisão no país, com os católicos a inclinarem-se maioritariamente para Lula e os evangélicos para Bolsonaro. Várias notícias falsas de âmbito religioso têm circulado no contexto desta campanha eleitoral. Recentemente, a conferência episcopal brasileira teve de vir a público distanciar-se de uma acusação lançada por Flávio Bolsonaro de que os bispos católicos estariam a ajudar Lula da Silva a disseminar a ideia de que Bolsonaro queria retirar o título de padroeira do Brasil a Nossa Senhora Aparecida.
Conclusão
O Papa Leão XIV disse aquela frase em concreto, sim, e até disse outras frases no mesmo sentido. Problema? Nunca se estava a referir ao Brasil. Estava, na verdade, a falar sobre a realidade política na União Europeia, durante um encontro inter-religioso em França. É portanto falso que Leão XIV tenha mandado um “recado” a Flávio Bolsonaro com aquelas palavras.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.