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Reprimir as emoções adoece-nos?

Raramente fugimos do que nos adoece a mente. Abraçamos vidas cheias de stress, damos pouca importância ao que realmente importa, cuidamos pouco e por vezes não nos permitimos ser cuidados.

Leonor Gaião
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Pouca importância damos à depressão, à ansiedade, ao luto, ao desgosto, à repressão emocional, aos laços familiares quebrados quando comparados com um cancro do pulmão ou da mama, com uma esclerose lateral amiotrófica ou com uma esclerose múltipla. As doenças físicas parecem assustar-nos muito mais do que qualquer “maleita psicológica”. É que tendemos a acreditar que aquilo que compromete o corpo, também compromete a nossa existência, e que aquilo que compromete a cabeça, o vento há de levar ou o tempo há de curar…

Fugimos do cancro ou de qualquer doença física que desperte o medo da nossa mortalidade. Há os que fogem negativamente: não indo ao médico, negligenciado a saúde e os sinais de doença, fingindo que nada se passa, descurando os cuidados alimentares, o exercício físico, o tabaco e o álcool. No polo oposto, temos os que fogem de forma positiva: vão ao médico, fazem sempre os exames de rotina, cuidam da alimentação, bebem pouco, não fumam e até dão os 6000-8000 passos diários recomendados. Mas raramente fugimos do que nos adoece a mente. Abraçamos vidas cheias de stress, damos pouca importância ao que realmente importa, cuidamos pouco e por vezes não nos permitimos ser cuidados. E se um dia, por azar, formos diagnosticados com uma doença complicada, havemos de dizer “por que vivi eu assim tanto tempo?”.

Ter uma doença não devia ser um momento para depositar culpas em nós, nos outros ou no universo. Mas muitas vezes revela-se um momento de grandes reflexões. No seu livro Quando o corpo diz não, o célebre médico e autor Gabor Maté cita vários pacientes que acompanhou na Unidade de Cuidados Paliativos do Hospital de Vancouver, e há dois tipos de histórias de vida que se repetem vezes sem conta. A primeira: a dos “demasiado simpáticos”, que exigiam de si próprios o que nunca exigiram aos outros, que se orgulhavam de trabalhar 12 horas por dia, que viviam sem estabelecer limites de nenhum tipo, que se mantinham décadas em situações e relações sem quaisquer benefícios físicos, emocionais, sexuais, intelectuais ou sociais. A segunda: a dos que cresceram em famílias onde a repressão emocional era a norma, onde as emoções e os sentimentos não eram vistos, falados, ouvidos, discutidos e muito menos sentidos, crianças que no futuro se tornaram em adultos embotados a nível afetivo, incapazes de reconhecer as suas necessidades emocionais, e muitas vezes com vergonha ou culpa de as terem.

Ao longo do seu livro, Gabor Maté toca num assunto que ainda é controverso pelo menos numa parte da comunidade médica: a correlação elevada entre o stress e o nosso estado emocional com o aparecimento de doenças crónicas, autoimunes e diversos tipos de cancro. Centenas de estudos têm vindo a demonstrar esta realidade. Segundo um estudo de 1962, onde se avaliou a personalidade de homens com cancro do pulmão, o risco deste tipo de cancro era cinco vezes maior nos homens que não tinham a capacidade de expressar emoções de forma eficaz. No nono Simpósio Internacional de ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica), em Munique, em 1998, foi apresentado um estudo com o mote “por que são os pacientes com ELA tão simpáticos?”, onde se discutia o facto curioso de muitos dos pacientes com esta doença serem extremamente altruístas, ao ponto de se anularem a si próprios para dedicarem a sua vida a cuidar dos outros, mesmo quando eram muito mal tratados e desvalorizados. Ao longo de décadas a conviver com pacientes em cuidados paliativos, Gabor Maté fez um apanhado das crenças psicológicas mais comuns nos seus pacientes:

– “Não é correcto eu ficar zangado.”

– “Se eu me zangar, não serei digno de ser amado.”

– “Eu sou responsável pelo mundo inteiro.”

– “Eu consigo lidar com tudo.”

– “Tenho de estar muito doente para merecer que cuidem de mim.”

É desconcertante imaginar o peso que tantos seres humanos carregam sem nunca ter onde os pousar.

A mente pode adoecer o corpo até um ponto de não retorno, mas quando nos prevenimos contra doenças ainda não é na proteção do nosso bem-estar emocional que pensamos em primeiro lugar.

Queremos acreditar que os sentimentos e os pensamentos aos quais não damos importância nem espaço para existir são apenas sensações perdidas no vácuo, sem consequências nem impactos no nosso futuro. O adoecer não é uma culpa para ser carregada e não é o propósito destes estudos mostrar às pessoas que a sua infelicidade ainda acaba por ser o fardo que as deixa doentes. É antes um alerta e uma janela que dá para uma esquina que não estamos habituados a ver. Somos seres emocionais, cujos corpos se ressentem quando a raiva, a tristeza, a angústia, a ansiedade, não podem ser vistas pelos outros nem partilhadas.

“A pessoa que não sente ou exprime emoções negativas ficará isolada, mesmo que rodeada de amigos, porque o seu verdadeiro eu não é visto”. – Citação do livro Quando o corpo diz não, de Gabor Maté.