Era tudo menos um jogo de futebol. No espaço de 48 horas, a Seleção Nacional atravessou uma das fases mais dramáticas da sua história recente — até pelo caráter absolutamente surpreendente que todos os capítulos acabaram por ter. Entre o desagrado de Cristiano Ronaldo, uma primeira reunião com Jorge Jesus, a chegada de Pedro Proença e a saída de Copenhaga de jato privado no dia seguinte e na sequência da conferência de imprensa, Portugal jogava.
Esta quinta-feira, portanto, funcionou como um autêntico day after. Cristiano Ronaldo desertou, prometendo explicações para mais tarde, e deixou a Federação Portuguesa de Futebol com a tarefa quase ridícula de apenas confirmar que o capitão tinha abandonado o estágio. Pelo meio, falaram jornalistas, especialistas, antigos jogadores, antigos treinadores, Fernando Pimenta, as irmãs Aveiro e Piers Morgan — e Ronaldo, em absoluto silêncio depois dos três parágrafos que ficarão na história do futebol português, aterrou em Madrid durante a madrugada.
Ficha de jogo
Dinamarca-Portugal, 2-4
Fase de grupos da Liga das Nações
Parken Stadion, em Copenhaga (Dinamarca)
Árbitro: Mykola Balakin (Ucrânia)
Dinamarca: Mads Hermansen, Rasmus Kristensen, Oliver Provstgaard, Joachim Andersen, Joakim Mæhle (Nikolas Nartey, 80′), Hjulmand (Victor Froholdt, 74′), Højbjerg, Mikkel Damsgaard (Kasper Høgh, 85′), Adam Daghim (Gustav Isaksen, 45′), Mohamed Daramy, Rasmus Højlund
Suplentes não utilizados: Andreas Jungdal, Filip Jørgensen, Lucas Høgsberg, Victor Nelsson, Thomas Jørgensen, Andreas Skov Olsen, Mads Bidstrup, Anton Gaaei
Treinador: Brian Riemer
Portugal: Diogo Costa, João Cancelo (Diogo Dalot, 63′), Rúben Dias, Renato Veiga, Nuno Mendes, Rúben Neves, Vitinha, Pedro Neto (João Neves, 81′), Bruno Fernandes (Tomás Araújo, 90+2′), Rafael Leão (Francisco Trincão, 63′), Gonçalo Ramos (João Félix, 81′)
Suplentes não utilizados: Samuel Soares, Nuno Tavares, João Palhinha, Bernardo Silva, Gonçalo Inácio, Fábio Silva
Treinador: Jorge Jesus
Golos: João Cancelo (13′), Mikkel Damsgaard (23′), Gonçalo Ramos (25′), Rasmus Højlund (53′), Vitinha (67′), João Félix (87′)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Mohamed Daramy (79′), a Rúben Neves (82′)
Assim, e na antecâmara da visita à Dinamarca, Jorge Jesus funcionava como o autêntico porta-voz da Seleção Nacional, o principal veículo de comunicação que não poderia fugir a questões da comunicação social. E se grande parte dos comentários ficará naturalmente para depois do apito final, o selecionador nacional não conseguiu fugir às conversas pré-apito inicial com quem tem os direitos de transmissão da Liga das Nações, oferecendo uma resposta mais vaga à RTP e outra mais direta à SportTV.
“Hoje é dia de jogo. Quero focar-me no jogo. Depois vamos para o Dragão e vamos focar-nos nesse jogo. Depois de certeza que teremos tempo para falar sobre isso. Neste momento é um assunto encerrado”, disse à estação pública. “Estou normal. Têm sido dias alucinantes. Tenho muitos anos de futebol e sei que não fiz nada para que o processo não continuasse igual. Estou completamente de consciência tranquila. Agora vamos para o jogo, depois é o do Dragão e depois vamos falar sobre esse tema sem fugir, porque ninguém pode descaracterizar… Ele é um símbolo, é uma figura, isso não está em causa”, acrescentou ao canal especializado, depois de ter sido vaiado por um pequeno grupo de adeptos à saída do hotel.
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Assim, no Parken de Copenhaga e depois de dois triunfos contra País de Gales e Noruega, Jorge Jesus não contava com Francisco Conceição por problemas físicos e lançava Bruno Fernandes nas costas de Gonçalo Ramos, com Rafael Leão na esquerda e Pedro Neto na direita, para além de Rúben Neves e Vitinha no meio-campo. João Félix, com fadiga acumulada, era suplente. Do outro lado, numa Dinamarca que perdeu com os noruegueses e venceu os galeses nas jornadas anteriores, Brian Riemer tinha Rasmus Højlund como referência ofensiva, apoiado por Mikkel Damsgaard, sendo que Morten Hjulmand era titular e Victor Froholdt começava no banco.
Portugal teve algumas dificuldades para entrar no jogo, somando perdas de bola na zona intermédia ou no meio-campo contrário e permitindo que a Dinamarca, ainda que sem um enorme ascendente, conseguisse entrar em espaços perigosos com transições rápidas. Vitinha até teve o primeiro remate da partida, de fora de área e para as mãos de Mads Hermansen (7′), mas Rúben Dias teve de se aplicar logo a seguir para aliviar um cruzamento de Adam Daghim que poderia ter provocado estragos (7′).
Ainda dentro do quarto inicial, contudo, a eficácia portuguesa acabou por falar mais alto. Logo após Gonçalo Ramos acertar no poste, João Cancelo recuperou a bola ainda nas imediações da grande área, combinou com o avançado e apareceu na cara do guarda-redes para picar de forma perfeita e abrir o marcador (13′). Os dinamarqueses procuraram reagir através de um remate de fora de área de Hjulmand, que passou ao lado (15′), mas a Seleção Nacional assentou depois do golo marcado e não só não permitia grande coisa ao adversário como ia causando alguns lances de perigo.
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Rafael Leão teve dois consecutivos, com um remate cruzado na esquerda (22′) e outro já na área que desviou num adversário (22′), mas a resposta imediata da Dinamarca acabou por ser letal. Numa transição rápida, Damsgaard recebeu a bola na área e atirou um remate em jeito perfeito que não deu qualquer hipótese a Diogo Costa (23′). A reação de Portugal, contudo, não ficou atrás: praticamente na reposição de bola, Gonçalo Ramos deixou de calcanhar em Bruno Fernandes, recebeu mais à frente e, só com o guarda-redes pela frente, atirou de pé esquerdo para recuperar a vantagem (25′).
A Seleção ainda ficou perto de chegar ao terceiro, com Nuno Mendes a rematar ao lado (32′) e Ramos a motivar mais uma boa intervenção de Mads Hermansen após cruzamento de Rafael Leão na esquerda (40′), mas já nada mudou até ao fim da primeira parte. Ao intervalo em Copenhaga, Portugal estava a vencer a Dinamarca e estava a vencer bem, reagindo da melhor maneira ao golo sofrido e capitalizando com muita eficácia as oportunidades que foi construindo.
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Brian Riemer mexeu logo no início da segunda parte e tirou Adam Daghim para colocar Gustav Isaksen, jogador da Lazio, com Bruno Fernandes a ter desde logo uma boa oportunidade para marcar com um remate à entrada da grande área que Mads Hermansen defendeu (47′). Bastou um lance em que Portugal estava desequilibrado, porém, para a Dinamarca voltar a empatar: transição rápida exímia, Damsgaard soltou Højlund e o avançado fugiu à marcação para, na cara de Diogo Costa, picar a bola (53′). Logo a seguir, festejou à Cristiano Ronaldo.
A Seleção caiu muito depois do golo sofrido, também porque os dinamarqueses subiram as linhas e começaram a atuar por inteiro no meio-campo contrário pela primeira vez no jogo, e Jorge Jesus recorreu ao banco para mexer e lançar Diogo Dalot e Francisco Trincão para as saídas de João Cancelo e Rafael Leão, com Pedro Neto a passar para a esquerda. Portugal cresceu, empurrou a Dinamarca para trás e voltou a aproximar-se do golo, com Gonçalo Ramos a rematar por cima de forma acrobática (62′) e Rúben Neves a obrigar Mads Hermansen a mais uma grande defesa (64′).
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Pouco depois, o golo apareceu mesmo. Bruno Fernandes tirou um passe perfeito da direita para a esquerda e Vitinha, completamente sozinho, cabeceou na área para recuperar a vantagem e estrear-se a marcar pela Seleção Nacional (67′). Brian Riemer fez mais uma substituição, lançando Victor Froholdt, e Portugal ia gerindo com muita naturalidade e visivelmente à boleia da subida de rendimento de Bruno Fernandes, que foi de menos a mais entre uma primeira parte banal e uma segunda parte muito acima da média.
Jorge Jesus ainda lançou João Félix e João Neves e o avançado do Al Nassr foi mesmo a tempo de fechar a goleada, concluindo um contra-ataque que Diogo Dalot conduziu pela direita depois de um grande passe longo de Rúben Neves (87′). Portugal goleou a Dinamarca em Copenhaga, chegou à terceira vitória consecutiva e tem pé e meio nos quartos de final da Liga das Nações na antecâmara do próximo jogo contra a Noruega, no Dragão.
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