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Dançar a tristeza: a catarse de Pedro da Linha

O compositor e produtor reinventou-se para o segundo álbum, “Música Menor mas Feliz”. Descobriu as cordas, usou gravações de Camané, Dead Combo e Bonga, percebeu que já não queria estar sozinho.

Ricardo Farinha
text
Diogo Ventura
photography

Seis anos após o álbum de estreia, Pedro da Linha regressa ao formato de longa-duração com Música Menor mas Feliz, disco editado esta sexta-feira, 2 de outubro. Herdeiro dos Buraka Som Sistema e discípulo da sua editora Enchufada, o compositor e produtor português tornou-se um arquiteto do som essencial na música nacional ao longo da última década — entre a eletrónica, a pop urbana, as sonoridades africanas e o hip hop, produzindo para Ana Moura, Pedro Mafama, EU.CLIDES, Dino D’Santiago, ProfJam ou Diogo Piçarra, entre tantos outros. Hoje, mais do que nunca, é o autor do seu próprio projeto artístico, uma trajetória que o novo álbum vem consolidar e materializar.

“Houve uma altura em que me tornei mais produtor do que artista. E também me perdi um bocado nisso”, confessa em entrevista ao Observador. “Estava feliz e realizado, mas esqueci-me um bocado do outro lado. Quando ia para a minha música, não sentia tanta pica. Até que chegou um tempo em que as coisas que estava a fazer [para outros] não me chegavam. Então voltei atrás — mas foi mais difícil do que esperava. Foram anos em que duvidei da música que faço, da qualidade do trabalho, em que houve muitas dúvidas e negatividade à volta.”

Música Menor mas Feliz é o resultado de dois anos de trabalho, da redescoberta da motivação, da procura por um processo criativo mais coletivo e de uma performance mais robusta e sofisticada em cima do palco. O concerto de apresentação acontece na Casa Capitão, em Lisboa, a 23 de outubro.

Entre o balanço e a tristeza

Estamos na Baixa de Lisboa, a 11 minutos de comboio entre a estação do Rossio e a da Damaia, no concelho da Amadora, o lugar a que Pedro da Linha chama casa. Foi lá, nas vivências de escola e rua mas também através do digital, que o músico de 35 anos cresceu rodeado da música dos PALOP que persiste no seu ADN. No centro histórico da capital está outra parte da sua identidade, como descobrimos ao passarmos pela porta da Nova Pombalina, a poucos metros do Terreiro do Paço, o restaurante gerido pelo pai e o tio desde a década de 1980. Conhecido pelas sandes de leitão, é um dos últimos redutos do comércio mais tradicional na Baixa, hoje transfigurada pela massificação do turismo e a gentrificação da cidade.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/51QVhMXqQSABJOkMLJE9Zu?si=-rhWz4PwSD2V2RXdX1XrEQ

Se o balanço quente das músicas de Pedro da Linha evocam o kuduro, a batida ou a kizomba com que cresceu, e aos quais se foram somando outras latitudes da eletrónica global, do funk carioca ao reggaeton; a sua personalidade parece mais moldada pela melancolia e nostalgia entranhadas nos azulejos azuis da fachada da Nova Pombalina, essas características tão intrínsecas do ser português.

O novo disco não explora quaisquer indícios musicais de portugalidade, pelo menos não da perspetiva tradicional — ao contrário das explorações do EP Rua Rosa, 24 (2023), onde revisitou o cancioneiro popular nacional — mas tem uma sensação portuguesa a percorrer o alinhamento. “O tuga tem muito a coisa da saudade e da tristeza e acredito que, à minha maneira, tentei passar esse sentimento”, conta, sentado numa das mesas do restaurante da família. “Tentei que esse fosse o ambiente instalado. Há uma profundidade grande de não conseguir sair de um momento triste. Pelo menos para mim é muito difícil sair. Às vezes até parece que te boicotas e procuras estar nisso.”

Pedro da Linha lida com a curiosa dualidade de a sua música ter um caráter particularmente dançável — até porque emergiu enquanto DJ a provocar a agitação na pista, fase marcada pelo impactante EP de estreia Damaia (2017) — e de suscitar felicidade na multidão, apesar de para si ser sempre uma fonte de dúvidas e autoquestionamento, de dificuldades de autoestima e de não haver uma intenção de transmitir alegria com aquilo que compõe.

“Queria chegar a outros locais com a minha música, foi super intencional. Como não sou uma pessoa formada, para mim se soa bem, soa bem. Mas procuro ter este contacto com músicos formados que sabem que há barreiras, que há limites dentro da estranheza que um gajo consegue criar no computador, e que foram dando inputs.”

“Não me lembro de uma única vez que tenha feito música alegre de forma intencional”, explica. “Há muitas pessoas que me dizem que gostam muito dos meus sets, da minha música e que as deixa felizes. Mas eu nunca deixei de ser uma pessoa que nunca foi assim tão feliz ou alegre. Muitas vezes tenho prazer nos momentos que estou a viver, mas nunca fico em êxtase, nunca sinto orgulho de mim mesmo, nunca sinto que sou suficiente, lido mal com a ansiedade. Então também achei que fazia sentido este título para o álbum, até porque tudo o que exploro é sempre na escala menor da música. O menor é sempre associado ao triste, à nostalgia, a algo do passado. Então tinha essa tristeza que eu queria contar. Reflete muito esta coisa, que não percebo muito bem, de fazer música que para mim é triste e que é um pedaço de mim, mas que faz as pessoas dançar. Há algo de muito bonito nisso.”

O processo criativo de Música Menor mas Feliz também se tornou um ponto de viragem no trajeto de Pedro da Linha. Procurando contrariar o método solitário, de “estar muito sozinho em frente do computador”, tentou “americanizar” a maneira como fazia música ao aliar-se a outro produtor e compositor, mas o processo acabou por “não ser prazeroso”. Ao longo de 2025, sozinho, foi compondo e aperfeiçoando as várias maquetes que já tinha e apercebendo-se de que tinha um disco entre as mãos. Houve um tema em particular que se tornou essa revelação: Canção Triste, que conta com um sample de B. Leza, dos Dead Combo. “Foi a canção que me deu a certeza daquilo que queria fazer. Foi o que me fez perceber que dá para usar o universo da eletrónica com as cordas e conseguir um equilíbrio.”

Como em qualquer disco coeso mas inventivo, de muitas referências e fusões, não é simples nem para o seu autor “definir um estilo”, mas é incontornável a presença de cordas — como nunca antes tinha acontecido — neste segundo álbum de Pedro da Linha. O músico sublinha que outros projetos da música contemporânea portuguesa em que as guitarras assumem protagonismo, como os MAQUINA. ou os Expresso Transatlântico, foram inspirações determinantes para traçar este caminho.

Há um par de anos, teve a primeira experiência a trabalhar com um instrumentista para uma música sua, quando uniu a sua produção à guitarra endiabrada de The Legendary Tigerman (e à voz do cantor Lucy Val) para o single Aqui Se Faz, Aqui Se Paga. Ao compor, e como tantos outros artistas de diferentes géneros, Pedro da Linha começa frequentemente com uma progressão de notas em guitarra — embora, no seu caso, como não toca o instrumento, falemos de uma guitarra virtual enquanto VST (“virtual studio technology”) de um software de composição musical. “Como nunca soa bem, muitas vezes uso aquelas notas noutro instrumento ou tento tapar ao máximo a falta de qualidade. Neste caso percebi que a maior parte das ideias que tinha mereciam um guitarrista, uma pessoa a tocar, apesar de todas as linhas de guitarra no disco terem muito trabalho de produção por cima, um processamento para soarem diferentes.”

Pedro da Linha juntou-se a Zé Cruz (Expresso Transatlântico) e a Pedro Ferreira (Yakuza), dois multi-instrumentistas de horizontes alargados, para finalizar e gravar Música Menor mas Feliz. “Foram os músicos que me ajudaram a tornar tudo aquilo que era computador em instrumentos a sério, em vida real”, explica. “Queria chegar a outros locais com a minha música, foi super intencional. Como não sou uma pessoa formada, para mim se soa bem, soa bem. Mas procuro ter este contacto com músicos formados que sabem que há barreiras, que há limites dentro da estranheza que um gajo consegue criar no computador, e que foram dando inputs.”

As ideias de Pedro da Linha transformaram-se através da abordagem de Zé Cruz e Pedro Ferreira aos diferentes instrumentos. Assim que tudo foi gravado, o produtor desmontou e reconstruiu os diferentes temas do disco, adicionando texturas e manipulando os diferentes elementos com efeitos, num processo de elevado perfeccionismo, num equilíbrio entre produção digital e instrumentação orgânica. “Pode ser uma coisa tão simples como baixar o tom, falhar o timing de um baixo para o humanizar, ou fazer um corte meio estranho, voltar a fazer um sample e de repente aquela guitarra parece transformar-se numa flauta. Por exemplo, no Sem Alma parece que o instrumento principal é uma flauta, mas aquilo é um baixo. É interessante pegar num som, desvirtuá-lo ao máximo e criar uma coisa nova.”

“Foram muitos anos a fazer música, pôr na pen e tocar. A ser um DJ solitário. Foi muito bom, conheci muitos países, fui a muitos sítios tocar a minha música. Mas, não sei se é uma questão de idade ou maturidade, senti que estava um bocado preso no mesmo sítio há algum tempo. E agora tem sido fascinante, até porque há outra segurança em palco, é como se fosses com os teus amigos.”

Inspirado no modelo do produtor britânico Fred Again.., Pedro da Linha procurou também resgatar excertos de canções antigas, neste caso de músicos emblemáticos da lusofonia como o português Camané e o angolano Bonga, para acrescentar camadas ao seu disco, tornando-as colaborações oficiais. “O que me interessou foram os textos, como aquilo se inclui no meu disco e naquilo que eu estava a querer contar sobre a música menor, da música triste que ao mesmo tempo dá para dançar. A conversa foi: ‘Não me quero sentar contigo a gravar uma música nova, gostei muito de uma coisa que fizeste há anos e quero trazê-la para o meu universo, processando-a e manipulando-a da maneira certa’. A ideia foi servir o propósito do disco.”

Em simultâneo, o álbum integra parcerias criativas inéditas com Lucy Val (Para Quê), Ela Li (Dos Olhos Teus) e com a cantora brasileira Jadsa (Por Um Triz), onde Pedro da Linha explora pela primeira vez um samba tristonho. O músico encara o disco como se ele se iniciasse de manhã, transitasse para a noite, com uma intensidade e tensão crescentes, culminando no amanhecer. Explica que procurou tornar a sua música “menos quadrada e óbvia”, complexificando-a, desenvolvendo-se à imagem de outros artistas-produtores com identidades sólidas como Sega Bodega, Arca ou M.I.A.

A comunhão no palco

Pedro da Linha é, como tantos outros artistas, sobretudo um criativo notívago. “Quando a pessoa está triste ou ansiosa, a noite muitas vezes não é a tua melhor amiga. Então adoro fazer música, ajuda-me a combater certas cenas”, explica. Ao mesmo tempo, muitas vezes aproveitou a energia com que vinha dos DJ sets para aplicar na criação. “Lembro-me de ir tocar, não vir satisfeito com o que fiz, e obrigar-me — não que estivesse exausto — a fazer música. Ligava-me um bocado nessa energia negativa: vou tentar fazer qualquer coisa com isto.”

Tanto no estúdio como ao vivo, desejava cortar com o processo solitário. “Estava a sentir necessidade de estar e trabalhar com pessoas”, conta. Daí ter transposto o processo de criação para o palco, ao criar uma formação com Zé Cruz (viola, pandeiro, percussão, trompete) e Pedro Ferreira (baixo e guitarra elétrica), que se estreou este ano e percorreu festivais como o FMM Sines; o Bons Sons, na aldeia de Cem Soldos; o Ti Milha, em Pombal; ou o NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés. Já estavam a tocar o novo disco, bem como temas anteriores com novos arranjos.

“Foram muitos anos a fazer música, pôr na pen e tocar. A ser um DJ solitário. Foi muito bom, conheci muitos países, fui a muitos sítios tocar a minha música. Mas, não sei se é uma questão de idade ou maturidade, senti que estava um bocado preso no mesmo sítio há algum tempo. E agora tem sido fascinante, até porque há outra segurança em palco, é como se fosses com os teus amigos.”

A nova performance, num registo híbrido entre digital e banda, também permitiu que chegasse a outros palcos e conquistasse novo público. “Também adorava fazer teatros, acho que há forma de tornar esta música mais lenta ao vivo, e era interessante também levar este projeto lá para fora, fazer o internacional.”

Pedro da Linha acredita que, mais do que nunca, o produtor é hoje reconhecido como artista no panorama da música nacional e já não é estranho encabeçar um projeto que possa circular por diferentes tipos de palcos e eventos. Música Menor mas Feliz devolveu-lhe a vontade de criar música nova e de desenvolver o seu projeto autoral. “Fez-me perceber que não estava assim tão morto, que tinha mais para dar, coisas válidas para dizer e contar. Já tenho música suficiente para mais um ou dois discos, mas quis contar a história desta maneira, com estas 12 músicas.”