Pode ser intensa e limitar a vida pessoal e profissional. Não nos deixa dormir e vira o dia do avesso. A dor ciática, que resulta da compressão do nervo ciático (o maior do corpo humano, estendendo-se da região lombar da medula espinal até à região posterior de cada perna e depois até aos pés) é extraordinariamente incapacitante.
Deve ser procurada ajuda especializada para tratar esta dor e para se chegar a um diagnóstico. É necessário fazer provas de exploração física e exames como ressonância magnética à coluna lombar e o tratamento pode passar por medicação, cirurgia (em alguns casos) e exercício físico — apesar de a dor ciática ser constante e piorar com o movimento, o exercício é altamente recomendado. Ficar sossegado no sofá ou na cama não ajuda. “Se não se mexerem é certo que podem piorar”, diz Mariano Veiga, médico anestesiologista com competência em medicina da dor na ULS Médio Tejo, onde desenvolve atividade clínica na Unidade de Dor Crónica.
O que é a dor ciática?
É uma dor que decorre da compressão, ou seja, do aperto do nervo ciático. A queixa que o doente normalmente refere pode começar por “uma dor lombar que vai pela perna abaixo e normalmente até ao pé, ou seja, até ao calcanhar, até ao dedo mindinho, com uma sensação de choques e, por vezes, de formigueiros, de dormência, mas é uma dor constante que, normalmente, piora com o movimento”, explica Mariano Veiga. É considerada uma doença pela International Classification of Diseases.
Costuma ser confundida com lombalgia?
Sim. A maioria das pessoas com mais de 50 anos, quando tem uma lombalgia, tem uma dor lombar importante que irradia pela perna, mas normalmente não passa abaixo do joelho. A dor ciática “é mais superficial” e continua pela perna abaixo, ao contrário da lombalgia, em que a pessoa tem “uma doença degenerativa da coluna lombar, a que se chama síndrome facetário, que provoca uma dor referida ao membro inferior”. Ou seja, a dor vai para a perna, mas não segue o trajeto do nervo.
Como se diagnostica?
Essencialmente por provas de exploração física em consulta. “Quando avaliamos o doente na consulta e fazemos manobras provocativas são completamente diferentes da doença degenerativa da coluna lombar.” Uma das mais conhecidas é o Lásegue, acrescenta Mariano Veiga, em que o doente com dor na perna direita tem uma sensação de choque e de repuxamento quando elevamos passivamente a perna acima dos 30 graus. “Este é um sinal francamente indicativo de que há uma compressão de uma raiz desse lado.”
O exame físico é fundamental, mas em caso de dúvida, pode ser necessário pedir exames complementares de diagnóstico, que podem ajudar a excluir as “bandeiras vermelhas”, por exemplo, se se está perante um doente que tem compressão por fratura, por cancro, por metástase ou por uma infeção. A ressonância magnética à coluna lombar é o exame de eleição, pode trazer surpresas e revelar algo diferente das conclusões das provas de exploração físicas. “É importante valorizar sempre as queixas do doente.”
Quando devemos procurar ajuda especializada?
Se uma pessoa nota, ao fim de dois meses, que a dor o impede de dormir, trabalhar e impacta a vida social, familiar e de casal, deve procurar ajuda de um profissional. Ou seja, as suas queixas já afetam as dimensões importantes do seu dia a dia. “Na atividade privada muitos doentes que nos procuram com este tipo de queixas, porque vêm referenciados de cirurgiões se estes acharem que a cirurgia não está indicada”, explica o anestesiologista.
Quais os principais sinais de alerta?
Apesar de alguns doentes chegarem tendencialmente tarde às unidades de dor, “muitos deles após serem operados e alguns com uma indicação cirúrgica que poderia ter sido evitada”, Mariano Veiga e os colegas têm-se apercebido que os médicos de família estão cada vez mais atentos às queixas. As que devem ser valorizadas são “a diminuição dos reflexos e a perda motora, ou seja, um doente que, de dia para dia, vai tendo menos força”. Estes sinais justificam uma rápida avaliação por parte de uma equipa cirúrgica.
Existem ainda doentes que chegam à unidade de dor depois de ter sido tentado um tratamento conservador com medicação anti-inflamatória, fisioterapia e que não melhoram ao fim de um a dois meses.
Que critérios são exigidos para um doente chegar à unidade de dor?
O principal critério para referenciação para uma unidade de dor crónica é “o doente com quadro de dor estabelecido há mais de três meses que não melhorou com o tratamento conservador”. Muitas das vezes, a fisioterapia, o exercício clínico e a toma de anti-inflamatórios podem ser suficientes, avança o médico. Outras, nem tanto, e são esses os casos que devem ser avaliados em contexto hospitalar.
“A grande limitação, hoje em dia, é a capacidade de resposta das unidades de dor e até algum desconhecimento por parte de quem referencia.” Na região Centro do país, onde trabalha, existe uma ligação estreita com os cuidados de saúde primários (centros de saúde) e a referenciação acontece de forma natural. “Mas acredito que esta não seja a realidade de grande parte das zonas do País.”
Além destas soluções, existem tratamentos minimamente invasivos que podem adiar a cirurgia?
Esta doença pode ser controlada com medicação, reabilitação e procedimentos percutâneos (através da pele) minimamente invasivos. “O que antes se oferecia aos doentes era, num extremo, medicação oral, e noutro extremo, cirurgia aberta, em que é feito um corte, as estruturas são expostas e opera-se.” Entretanto, apareceram os estes procedimentos realizados no bloco, com o doente acordado e administração de anestesia local. “Controlamos a intervenção através de raio-X para conseguir ver para onde estamos a levar a nossa agulha para fazer um bloqueio, radiofrequência, entre outros procedimentos.”
A cirurgia pode não ser indicada?
A cirurgia está indicada numa fatia relativamente controlada de doentes. “Os doentes que têm perda motora em progressão têm de ser rapidamente avaliados por uma equipa cirúrgica.” São aqueles a quem se pede para caminhar em bicos de pés ou nos calcanhares e, no lado em que tem dor, começam a não ter força para andar em bicos de pés ou para levantar a ponta do pé (isto significa que os seus músculos já estão em sofrimento).
Pode ser ainda recomendada a doentes que passam pela consulta e depois de algumas tentativas de tratamento não conseguem resolver as suas queixas. “Devem ser avaliados por uma equipa cirúrgica, composta por ortopedistas com diferenciação em patologia de coluna ou neurocirurgiões.” São estas as duas especialidades que trabalham “com igual qualidade” na abordagem da cirurgia da coluna. No entanto, adverte o médico, se o tratamento minimamente invasivo for adequado, “muitos doentes conseguem passar alguns anos sem ter de ser operados, sabendo que algum dia essa pode ser uma hipótese”.
Há algum tipo de exercício físico proibido para quem tem dor ciática?
“Em boa verdade, não há nenhum exercício verdadeiramente proibido e não há nenhum exercício melhor.” Mariano Veiga considera que é importante adaptar aos gostos de cada pessoa e recomenda que se mantenham ativos (e tentem mexer-se). O exercício de força ou Pilates (idealmente com máquinas) são recomendados. “Há que explicar aos doentes que normalmente recuperam com o movimento, não com a imobilidade. Se não se mexerem é certo que podem piorar.”
Quais os principais mitos relacionados com a dor ciática?
- As mulheres não podem fazer musculação – “O trabalho de força tem inúmeras vantagens. Vai manter a densidade óssea, a força muscular e diminuir o risco de queda.
- Doentes a partir de uma certa idade devem evitar pegar em pesos – O doente deve fazer trabalho de força e não deve fugir ao que se chama carga axial. “É importante que uma pessoa consiga carregar duas paletes de leite, são coisas da vida comum e é importante expor-se a essa dificuldade. “
- Todos os doentes com dor ciática têm de ser operados – Muitas vezes, não têm. Existem muitas estratégias que podem ser uma opção antes da cirurgia. “Por outro lado, há situações em que a cirurgia é uma opção, mas é importante que saibamos identificá-las nas unidades de dor e existam canais de comunicação suficientemente oleados com unidades de coluna para saber referenciar os doentes em tempo útil.”
É possível prevenir?
Existem fatores de risco modificáveis e o principal é o tabaco. “É responsável pela aterosclerose (entupimento dos vasos) e a principal causa para a doença degenerativa do disco que, por sua vez, pode provocar dor ciática.” Mas também o excesso de peso, o sedentarismo e a diabetes.
Em relação a fatores mais difíceis de controlar, Mariano Veiga salienta a idade, as falhas na nutrição e os doentes que foram sedentários toda a vida.