Mais de 270 membros do clero católico foram identificados como autores de abusos sexuais contra quase mil crianças ao longo de várias décadas nas dioceses de Fall River, Springfield e Worcester, no estado norte-americano de Massachusetts, segundo uma investigação de sete anos divulgada esta quarta-feira pelo gabinete da procuradora-geral do estado.
“As provas recolhidas durante esta investigação mostram que, durante décadas, e sobretudo antes de 2002, os responsáveis da Igreja nas três dioceses tinham conhecimento dos abusos sexuais de crianças, mas não tomaram medidas eficazes para os impedir nem para analisar as falhas institucionais da liderança que levaram à vitimização de dezenas de crianças às mãos de padres abusadores”, lê-se no relatório, citado pela CBS News.
A investigação, iniciada em 2019, não resultou em novas acusações criminais. O gabinete da procuradora-geral explicou que alguns dos atos identificados não constituíam crime ao abrigo da legislação de Massachusetts em vigor na altura em que ocorreram. Noutros casos, o prazo de prescrição já tinha expirado. Três casos foram, contudo, encaminhados para diferentes gabinetes de procuradores distritais e um deles resultou em acusações criminais.
O gabinete da procuradora-geral descreveu o documento como “o primeiro levantamento público comparável das falhas institucionais” nas dioceses de Fall River, Springfield e Worcester.
Os casos de abuso sexual na arquidiocese de Boston tinham recebido atenção internacional em 2002, depois de o Boston Globe ter publicado uma investigação que viria a receber o Prémio Pulitzer. A cobertura do jornal desencadeou outras investigações nos Estados Unidos e noutros países, que identificaram casos semelhantes de abuso sexual no seio da Igreja Católica.
A procuradora-geral de Massachusetts, Andrea Joy Campbell, apelou às dioceses e à Igreja Católica para que adotem as recomendações do relatório. “Exorto vivamente as dioceses e a Igreja em geral a levarem estas recomendações a sério e a implementarem mudanças significativas para reforçar a proteção das crianças e melhorar a resposta às denúncias de abusos”, afirmou numa conferência de imprensa, citada pelo The Guardian.
Campbell explicou que “os padres gozavam de uma enorme confiança nas suas comunidades e os que cometeram abusos aproveitaram-se dessa confiança”. “Usaram a sua autoridade e o acesso que tinham às crianças para abusar delas”, continuou.
“Por trás de cada um destes números está uma criança cuja segurança foi posta em causa, uma família cuja vida mudou para sempre e um sobrevivente que carregou as consequências desses abusos durante anos e, em muitos casos, décadas. Muitos continuam a lidar com esse trauma ainda hoje“, acrescentou.
Campbell reconheceu, ainda, que muitos sobreviventes esperaram anos pela divulgação das conclusões. “Sei que muitos sobreviventes esperaram muito tempo para ver estas conclusões tornadas públicas. Compreendo a frustração que acompanha essa espera. Espero que o dia de hoje [quarta-feira] seja um passo significativo em direção à verdade, à responsabilização e à recuperação que as vítimas merecem”, afirmou.
Worcester quer manter crianças seguras e lembra palavras de arrependimento de um bispo
Apenas a diocese de Worcester respondeu publicamente ao relatório. Num comunicado, afirmou que vai analisá-lo “para identificar quaisquer melhorias adicionais que possam ser feitas na resposta às vítimas de abusos passados e para continuar a reforçar os esforços destinados a manter as crianças seguras”.
A diocese não apresentou um novo pedido de desculpas, mas recordou uma declaração feita em 2022 pelo bispo Robert J. McManus, que afirmou estar “profundamente arrependido pelos abusos de menores cometidos por padres” da diocese. “Continuo empenhado, com a ajuda de muitos colaboradores, em fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que estes abusos não voltam a acontecer”, disse na altura. Worcester sublinhou ainda que não foram apresentadas acusações criminais no âmbito da investigação.
Muitas das pessoas identificadas no relatório já morreram. O gabinete da procuradora-geral sublinhou, contudo, que as limitações legais não diminuem a gravidade das conclusões. “Embora a lei penal não possa fazer justiça a todos os sobreviventes atualmente, o gabinete continua a ter a responsabilidade de dizer a verdade sobre o que aconteceu”, concluiu o relatório.