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Depois de um ano e meio na defensiva, a tentar conter os avanços russos no Donbass, as forças armadas ucranianas passaram ao contra-ataque e lançaram a Operação Vivaldi, uma contraofensiva centrada na região norte da região de Donetsk. A operação, que já teve três fases e vai continuar, prometeu o Presidente da Ucrânia, permitiu já ao país recuperar 176 quilómetros quadrados do seu território e capturar 250 militares russos. Este é já considerado o maior sucesso operacional da Ucrânia no terreno ao longo dos últimos meses.
A última fase da Operação Vivaldi recapturou 51 quilómetros quadrados de território, de acordo com o Terceiro Corpo de Exército da Ucrânia. O brigadeiro-general Andrii Biletskyi, responsável pela última fase da ofensiva, explicou que o avanço das forças ucranianas resultou na libertação de mais três localidades: Nove, Ridkodub e Katerynivka, bem como no controlo total sobre Karpivka e Novomykhailivka.
O avanço ucraniano está a acontecer numa zona estratégica, a norte da cidade de Lyman (mais concretamente na interseção da região de Donetsk com as regiões de Lugansk e Kharkiv), uma área que as forças russas tentam ocupar desde o início da guerra em larga escala, em 2022. O objetivo, segundo as forças armadas ucranianas, foi impedir o avanço da Rússia para oeste.
Objetivo russo seria cercar cidades-fortaleza de Donetsk a partir do norte
Desta forma, foram frustrados os planos da liderança militar russa para cercar as chamadas cidades-fortaleza ucranianas a partir do norte da região de Donetsk (isto é, as cidades Kramatorsk, Slovyansk, Kostyantynivka e Druzhkivka, que continuam a ser controladas pelas forças ucranianas) e também para capturar a cidade de Lyman.
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Segundo uma análise do Atlantic Council, a contraofensiva ucraniana na frente norte de Donetsk anulou mais de um ano de avanços russos nessa zona. Os detalhes do contra-ataque da Ucrânia só foram divulgados nas últimas semanas, com a confirmação oficial da ofensiva a surgir apenas a 15 de setembro. No entanto, o início das operações foi bastante anterior, com a liderança militar ucraniana a manter um rigoroso silêncio operacional para proteger o sucesso da Operação Vivaldi.
As forças ucranianas afirmam ter criado o que os comandantes descrevem como uma “cortina” de guerra eletrónica (através de uma campanha de ataques contra os sistemas de guerra eletrónica e antenas de controlo russas). Esta estratégia conseguiu impedir que os drones de reconhecimento russos penetrassem em áreas-chave da frente, ao mesmo tempo que ocultava os movimentos ucranianos.
Com as capacidades de vigilância russas significativamente reduzidas, a Ucrânia recorreu a antigos blindados soviéticos de transporte — convertidos em robôs kamikaze controlados remotamente e armados com metralhadoras pesadas ou carregados com explosivos — que causaram estragos na retaguarda russa e criam as condições para o avanço da infantaria.
Ucrânia usou antigos blindados soviéticos e atacou noutra direção
Em muitos casos, as forças russas parecem ter sido apanhadas completamente de surpresa, com um oficial russo, numa conversa intercetada pelas forças ucranianas, a mostrar-se incrédulo com a forma como os robôs ucranianos estavam a conseguir atingir as linhas de defesa russas. A Ucrânia também lançou drones de médio alcance para isolar unidades russas e cortar rotas logísticas que abasteciam posições na linha de frente.
O resultado destas ações combinadas, que fazem parte da denominada Operação Vivaldi, foi arrasador para a Rússia. Ao longo das três primeiras fases da contraofensiva, segundo as forças ucranianas, a Rússia sofreu mais de 5 mil baixas, enquanto outros 250 soldados foram capturados. “Subunidades russas inteiras renderam-se, juntamente com oficiais, pilotos e pessoal de artilharia”, garantiu o brigadeiro-general Andrii Biletskyi. Vídeos partilhados nas redes sociais mostram soldados russos capturados pelas forças ucranianas.
https://twitter.com/front_ukrainian/status/2105323755820249309
Outro fator que contribuiu para o sucesso da Operação Vivaldi foi uma manobra de distração levada a cabo pelas forças ucranianas, que levou a Rússia a acreditar que a ofensiva se iria centrar numa direção, quando, na verdade, a Ucrânia atacou noutra zona. A liderança militar russa acreditou que, nesta terceira fase, a contraofensiva ucraniana iria acontecer em Zelena Dolyna, uma pequena aldeia controlada pelas forças de Moscovo. “O inimigo estava convencido de que a principal direção do ataque era Shandryholove—Zelena Dolyna. Isso levou-os a gastar indiscriminadamente as suas reservas em contra-ataques precisamente nessa direção”, disse o brigadeiro-general Andrii Biletskyi, acrescentando que os “russos perderam o verdadeiro alvo, que era a captura de Nove”.
Ucrânia retomou controlo de vila estratégica. Zelensky promete que contraofensiva vai continuar
A captura da vila de Nove era considerada um objetivo essencial para a Ucrânia e acabou por ser atingida. Ao garantir as posições elevadas em redor da aldeia, as forças ucranianas controlaram o avanço das forças russas para oeste e começaram a atacar as posições inimigas nas imediações — que passaram a estar vulneráveis.
A Operação Vivaldi (batizada em homenagem ao ciclo de concertos para violino e orquestra ‘As Quatro Estações’ do compositor italiano Antonio Vivaldi) demonstra que a Ucrânia pode reverter alguns dos avanços russos em Donetsk. O sucesso da contraofensiva é também uma forma de Kiev provar aos aliados que os avanços da Rússia no Donbass não são inevitáveis.
Esta quarta-feira, o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, adiantou que as forças armadas estão a preparar a quarta fase da Operação Vivaldi, sem adiantar mais detalhes. O chefe de Estado reuniu-se com os comandantes das unidades diretamente envolvidas na operação, num encontro em que foram discutidas as necessidades na frente, nomeadamente artilharia e apoio financeiro para as tropas. “A música de Vivaldi continua”, sublinha Andrii Biletskyi.
Embora os avanços ucranianos na região de Donetsk estejam documentados por diversos analistas e pelos grupos de monitorização da guerra, o Kremlin desvaloriza a Operação Vivaldi. O Ministério da Defesa russo classificou o sucesso anunciado pela Ucrânia nos arredores de Lyman como uma cortina de fumo “para os curadores ocidentais de Kiev”, alegando que não ocorreu nada mais do que a infiltração malsucedida de “pequenos grupos de ataque inimigos” na região norte de Donetsk.
Por outro lado, o contra-ataque ucraniano nos arredores de Lyman está a provocar indignação junto dos bloggers militares russos, que acusam os comandantes militares russos de produzirem “relatórios otimistas”, com falsas alegações sobre a solidez das posições russas na região norte de Donetsk. Segundo esses relatórios, as forças ucranianas na região estariam à beira do colapso, o que não corresponde à realidade.