“Sê bem-vindo à cidade, rapaz / Sei que a vais gostar de conhecer / Passear nas ruas onde jaz / A memória do que está pra ser.” Há duas canções que ficam a rodar-nos na cabeça no fim da primeira de três noites nos coliseus de Lisboa e do Porto dos Rádio Macau. E se a segunda seria uma candidata mais provável, A Vida num Só Dia, já que o tempo é necessariamente de balanços e retrospectivas e até foi o tema com que fechou o concerto, talvez a Cidade Fantasma não estivesse, à partida, entre as suspeitas mais evidentes. E porém, qualquer coisa nesta canção extraída do fundamental O Elevador da Glória, onde morava à sombra de êxitos evidentes como o tema-título e o best-seller O Anzol, envelheceu maravilhosamente nestes quase 40 anos. Quase 40 anos de uma cidade que, em boa parte, se esfumou em lembrança e que talvez por isso, consciente ou inconscientemente, há-de fazer saltar da cadeira pela primeira vez a plateia do Coliseu e pô-la a dançar, quando formos já a meio da setlist.
“É um outro mundo / onde o tempo parou.” O exercício de nostalgia começa ainda lá fora, numa das pequenas tascas das Portas de Santo Antão que sobrevive à “Lisbontrification” de que falará um graffiti projectado no fundo do palco lá mais para diante na noite. Um dos poucos portos de abrigo onde “comer qualquer coisa”, aquele conceito vago, mas muito concreto para o português, que é mais do que lanchar e menos do que jantar, que não se resolve numa pastelaria nem tem tempo a perder com ementas ou cerimónias à mesa.

Uma bifana, uma sandes de ovo, uma patanisca e um empregado imparável que ainda consegue fazer ao mesmo tempo piadas politicamente incorrectas sem ser olhado com sobranceria ou ameaça de denúncia a uma qualquer comissão virtuosa. Prolonga-se ao entrar na sala, total e naturalmente cheia de portugueses, coisa cada vez mais exótica num espectáculo em Lisboa, ainda mais na Baixa (nenhuma queixa aqui, mera constatação). Portugueses a dar para o grisalho, como é evidente, daqueles para quem Rádio Macau foi/é uma das bandas sonoras fundamentais de uma cidade que mudou, sem dúvida, mas quem não o fez? Nós? O mundo? Tudo muda. O que é rádio? O que é Macau?, imaginamos perguntarem os filhos desta plateia à IA.
“Suspendendo no ar / como um arlequim / que não pode parar / o princípio e o fim.” Há dias, despedimo-nos de Jorge Palma; nesta noite, televisões e telemóveis falavam da despedida (?) de Cristiano Ronaldo. É tão importante saber sair; filosofar é aprender a morrer, dizia Sócrates. “Não se perde o que não se quer ter”, canta Xana, mais adiante, no belo Acordar com que a Rádio Macau se apresentou tão conforme ao novo século, “cada vez mais sei esperar”. E foi bela e elegante a despedida. Talvez um pouco longa, talvez ganhasse em perder ali uns temas e concentrar-se noutros – mas quem nunca abraçou de mais, numa despedida?

É em 1992 o inesperado ano com que Xana, Flak, Alex Cortez, Samuel Palitos e Filipe Valentim decidem começar. Vão a A Marca Amarela buscar os dois primeiros temas, Logo se Vê e O Hábito Faz o Monstro, para só no terceiro aterrar num hit: Amanhã é Sempre Longe de Mais, a voz de Xana igual a 1989, ao contrário dos anéis de fumo em que já não se se vai o tempo desfiando dos cigarros de tabaco aquecido. Levo-me no Voo das Minhas Asas é para dedicar a Jorge Palma, “livre como o vento”. E continuamos Entre as Memórias e o Sonho para depois Xana recuar no palco e no tempo, deixando a boca de cena a Flak e Alex, e irmos há 42 anos abrir o álbum de estreia: É Tão Fácil.
Sem truques, sem artifícios. Às vezes, quando a iluminação se torna mais crua e deixa a banda em contraluz, só com a estrela símbolo em fundo, voltamos a vê-los nos anos 80, numa sala mais modesta, num tempo de apresentação, nunca de consagração. Até o discurso de Xana, quando se dirige ao público, não se serve de grandiloquências para fazer balanços de carreira ou grandes viagens na memória; limita-se a situar-nos enciclopedicamente na canção, no álbum, no ano. De Azul em Azul, De Volta ao Espelho, Quebra de Atenção – é a sequência menos enérgica do alinhamento, para finalmente Acordar começar a cumprir uma promessa que só a Cidade Fantasma verdadeiramente concretiza.

Com a sala de pé, seguimos para Bom Dia, Lisboa e Um Dia a Mais, a fechar a melhor etapa do concerto. Pensamos nalgumas das boas influências da banda, de Tears for Fears a The Cure, como o cabelo de Flak até está mais parecido com o de Robert Smith e como o homem debaixo dele atravessa estas quatro décadas possivelmente como o mais fino guitarrista do rock português. (Fino, pois. Uma adjetivação irritante, bem sei, mas que é capaz de servir para nos pôr a pensar, a mim e a si, melómano leitor. De trás para a frente.)
Xana muda de figurino e as projeções em palco tornam-se mais políticas. Entre a Espada e a Parede, Guarda a Faca, A Última Gota de Mim. Há Cantiga de Amor e Aos meus Amores. O Elevador da Glória, esse que também já não existe, ou que se encontra pelo menos momentaneamente desaparecido do mapa da cidade, aqui mesmo ao pé, do outro lado da Avenida, volta a levantar a sala, também quando Xana e a banda o transformam no Gloria de Patti Smith.

Um trio de metais junta-se para O Anzol, com que fecha a parte regular do concerto, e vem um encore já a dobrar as duas horas de espectáculo e as duas dezenas de canções, com Era uma Vez e um arrepio a percorrer-nos a espinha (há que confessar sem medos) na despedida-mesmo-despedida, A Vida num Só Dia: “O som, a cor, o olhar e o número fatal / Tomar de assalto os céus em cruzadas proibidas / Olhar nos olhos de Deus e esperar o final.”
Soube bem, rapazes. Atravessar o tempo com graciosidade. Amanhã fazemo-nos fantasmas de vez.