Durante semanas, a conversa pública procurou responsáveis: os agrafos, os professores que não quiseram classificar, as escolas que se atrasaram, os diretores que falharam. Há agora dois documentos que permitem olhar para o que aconteceu com mais rigor: o relatório do Júri Nacional de Exames (JNE/EduQA) e o relatório de apoio técnico da Deloitte. Lidos lado a lado, nenhum deles aponta esses fatores como causa central. Descrevem outra coisa, menos mediática e mais útil. Um sistema novo, posto à prova à escala nacional sem os controlos de que precisava.
Convém começar pelo que bate certo. Os números de inscrições, presenças e provas realizadas coincidem, exame a exame, nos dois documentos (478 705 inscrições e 410 894 presenças nas três fases). A divergência não está na contagem, está na narrativa. E convém dizer, desde já, o que os relatórios não fazem: nenhum deles examina a hipótese de boicote por parte de classificadores, nem para a confirmar nem para a desmentir. O que se segue é, por isso, uma leitura do que os documentos descrevem, e não um veredicto sobre o que não descrevem.
O relatório do JNE fala em dificuldades “inesperadas” na leitura dos QR codes. É verdade que o piloto de 2025 não as detetou. Mas esse piloto incidiu num único exame, Filosofia, que teve pouco mais de 20 mil provas na 1.ª fase. Em 2026, a classificação digital passou a cerca de 290 mil provas, uma escala da ordem de catorze vezes superior (conta minha: as 303 563 provas da 1.ª fase, menos Desenho A e Geometria Descritiva A, que continuaram em papel, dão 290 368). Ao mesmo tempo, mudaram as folhas de resposta, a impressão passou para a INCM, os agrupamentos do JNE caíram de 34 para 16 e nasceram três centros de digitalização.
A Deloitte acrescenta o que o JNE não diz. Antes da sua chegada, tinha sido introduzido um mecanismo alternativo de leitura por OCR, com desempenho muito inferior ao dos QR codes, que gerou mais erros de identificação. O motor de cálculo das classificações ainda estava a ser configurado quando a classificação já decorria. A leitura automática das escolhas múltiplas (classificada como crítica) falhava perante rasuras e alterações de resposta. Houve provas classificadas com a matriz de outra versão. E no caso de Física e Química A houve um erro de impressão do QR code na página 4 dos cadernos. Os testes de carga e de cibersegurança de que o JNE fala são importantes, mas não substituem um ensaio ponta a ponta, com papel real, a escala real.
A Deloitte descreve três falhas de processo. A despicotagem manual era lenta. As folhas de continuação aparentemente em branco foram tratadas de modo desigual, nuns postos não eram digitalizadas, noutros eram anuladas na plataforma, e algumas continham respostas. E não havia qualquer mecanismo automático de confirmação de receção, de verificação de completude ou de reconciliação entre o que se digitalizava e o que a plataforma recebia.
O que resolveu a 2.ª fase e a extraordinária também não foi mudar comportamentos. Foram guilhotinas, um novo algoritmo de leitura, uma ferramenta de controlo a montante, a Pré-Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS) reconciliação com a base ENES/ENEB e integração automática entre plataformas. Os prazos foram cumpridos. Isto não prova, por si só, que as medidas foram a causa (a própria Deloitte avisa que as fases não são comparáveis, e a 2.ª fase teve cerca de 28% do volume da 1.ª). Mas é um indício de que havia um défice de desenho e de controlo, e não apenas de boa vontade.
Quanto aos professores, o que os relatórios documentam é atrito real. Itens atribuídos gradualmente, o que impedia planear o trabalho, mensagens sem possibilidade de resposta, gestão de indisponibilidades feita à mão. Quem se queixou tinha motivos objetivos. Os relatórios não avaliam a hipótese de boicote, o que mostram é que existiam falhas técnicas suficientes para explicar boa parte das dificuldades, sem necessidade de outras causas, o que não impede que outras possam ter contribuído, se quisermos fazer um salto retórico. Apurá-lo exigiria dados que nenhum dos documentos apresenta, quantos classificadores desistiram, quando, e com que efeito nos prazos.
As escolas, por seu lado, reportaram folhas em falta, páginas em branco, versões trocadas e identificações erradas. A maior parte destes problemas tem origem a jusante, na digitalização e no processamento, e não à porta das escolas. Há discrepâncias entre a folha de rosto e o conteúdo dos envelopes que a Pré-PCS passou a detetar, mas nenhum dos relatórios as quantifica. Não há base para fazer delas a explicação principal. Quanto aos agrafos, nenhum dos documentos os menciona, o estrangulamento físico que descrevem é a despicotagem, e situava-se no centro de digitalização, não nas escolas.
O relatório do JNE não diz que tudo correu bem. Reconhece dificuldades, adiou as pautas e propõe melhorias sensatas. Mas o enquadramento é mais otimista do que os factos permitem, por quatro razões.
Primeiro, o “99,9% recuperado”. A métrica não é definida. Recuperar não é o mesmo que classificar corretamente, e o glossário da Deloitte distingue, com cuidado, prova realizada, importada, submetida e classificada. Mesmo tomada à letra, 0,1% de 290 mil são cerca de três centenas de alunos sem nota na data prevista, num exame que decide acesso ao ensino superior.
Segundo, a reapreciação funcionou como rede de reparação. O próprio relatório diz que serviu para mitigar provas com itens em falta ou inconsistências. Esse recurso recai sobre famílias que têm de conhecer o direito e usá-lo. Daí a dificuldade em sustentar a frase de que nenhum aluno seria prejudicado por dificuldades técnicas ou administrativas. Os números pedem prudência. Foram cerca de 20 mil pedidos segundo o texto, mas 23 879 segundo a Tabela 5, ou seja, quase 8% das provas da 1.ª fase, contra 3,1% na 2.ª. Aproximadamente 78% das classificações subiram (algo como 18 600 provas). E, das reclamações que se seguiram, 64,4% também subiram. O relatório afirma que a distribuição está “em linha com anos anteriores”, ao mesmo tempo que diz que o volume foi mais do triplo do habitual. Pode haver enviesamento de autosseleção, mas a pergunta merece resposta pública.
Terceiro, a viabilidade foi demonstrada onde era mais fácil. O bom desempenho da 2.ª e da 3.ª fase decorreu com uma fração do volume. O teste à escala da 1.ª fase foi ultrapassado com meios extraordinários. Uma empresa externa, cerca de 2 000 relatores, três dias de adiamento. A digitalização é viável, sem dúvida. O JNE conclui que o é desde que acompanhada de condições que a 1.ª fase mostrou serem necessárias (plataformas mais robustas, validações antes de cada fase, bolsa estável de classificadores, formação antecipada), e a Deloitte descreve, por sua vez, várias delas como ausentes no arranque. A escalabilidade ficou por demonstrar.
Quarto, o que o relatório não trata. O título abrange as provas finais do ensino básico, mas o conteúdo é quase todo do secundário, apesar das mais de 204 mil provas da 1.ª fase do básico. A fase extraordinária teve uma taxa de presença de 51,7%, contra 88,6% e 91,1% nas anteriores, e o relatório não explica porquê.
Nenhum dos dois relatórios é independente. O do JNE é uma autoavaliação. O da Deloitte foi produzido por um prestador contratado pelo EduQA, com um mandato limitado às plataformas existentes, e declara expressamente que não é auditoria. Ambos são valiosos, e nenhum dispensa uma avaliação externa.
Se o objetivo é aprender, há lições concretas. Pilotar em proporção ao que se vai generalizar. Não mudar tudo no mesmo ano: folhas, impressão, estrutura regional, plataformas e método de classificação. Testar os planos B antes de precisarem deles, porque o OCR mostra que um mecanismo de recurso mal testado pode agravar o problema. Instalar desde o primeiro dia a verificação de completude e a reconciliação, em vez de as improvisar em julho. Contratar apoio técnico e constituir a bolsa de classificadores antes do ciclo, e não durante a crise. Definir e publicar métricas com rigor. E encomendar uma auditoria independente que analise, entre outras coisas, se a passagem ao digital alterou a distribuição das classificações (a média de Português desceu de 126 para 114 pontos, e a de Geometria Descritiva A subiu de 89 para 114, isto não prova nada, mas é uma pergunta que deve ser feita e respondida).
Recuperar quase todas as provas em poucos dias, com equipas exaustas, foi um feito. Merece reconhecimento, e o melhor modo de o dar é contar tudo o que aconteceu. Um sistema que aprende com os erros protege alunos, professores, escolas e a instituição, e o próximo ciclo de exames começa já.