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O que separa Neil Young dos Twisted Teens: cinco álbuns que levamos de setembro

A maior das locomotivas rock'n'roll regressou aos discos no último mês, o mesmo que deu ao mundo o descontrolo indie nascido na garagem dos Twisted Teens. Viva setembro. Viva!

João Bonifácio
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E pronto, cá estamos em outubro, o malfadado outubro das chuvas, dias sombrios e vontade de ler poesia. Estou a brincar. Estarei? Adeus, pétalas que se abrem para o sol amigo. Adeus, clorofila a clorofilar, fotossíntese a fotossintetizar. Adeus às últimas ondas a rebentar sem violência, desabando suavemente na alegre harmonia dos corpos dos contribuintes que têm dinheiro para ir de férias.

Ah, ir de férias em Setembro. Setembro é tremendo, aquele mês em que toda a gente decide melhorar. Inscrevemo-nos em ginásios, compramos agendas, juramos que vamos beber menos, dormir mais, ler livros, poupar dinheiro e bordar. Há qualquer coisa no fim do verão que transforma adultos perfeitamente sensatos em crianças no primeiro dia de aulas, convencidas de que um caderno novo lhes dará uma personalidade nova. Eu precisava de uma personalidade nova – em vez disso tenho outubro.

Que fiz eu em setembro? Fui de férias? Nunca. Recuso-me a baixar a produtividade. O meu ritmo manteve-se impiedoso: ouvi pelo menos um disco novo por dia — que se ouvisse mais do que isso iam parecer-me todos iguais. Alguém tem de gastar o seu tempo livre na única atividade de aperfeiçoamento pessoal que é verdadeiramente necessária para a humanidade: ouvir gente talentosa a fazer música.

É dos cueiros de outubro que vos garanto: setembro, felizmente, trouxe muita (música boa). Portanto, enquanto vocês retiram os últimos resquícios de sal do corpo e abandonam (como aliás manda a boa educação) os grandes projetos de renovação pessoal que anunciaram nas últimas semanas, podem ao menos cumprir um objetivo modesto, porém engalanado de formosura: ouvir estes cinco discos que se seguem.

“Second Song”

Neil Young

Sim, Neil Young está com 80 anos, o que significa, mais coisa menos coisa, que vocês estão com 50; se por acaso estiverem a ler um texto sobre Neil Young e tiverem 20 anos, parabéns, é muito possível que não tenham um único amigo da vossa idade, mas um dia a mais bela das babes apaixonar-se-á por vocês. (Ehehe, porra, nunca na vida.) Aos 80 anos, convenhamos, não podemos esperar que tio Neil saque um After the Gold Rush, ou nos atire com um Harvest ou um Harvest Moon, ou nos lance assim uma eletricidadezinha abrasiva ao modo de Rust Never Sleeps (estou a citar imensos discos de modo a quem não o conhecer ficar já com uma lista catita).

https://open.spotify.com/intl-pt/album/7BqXCKZb6jZbilu5CyO9k3?si=7f8d3d13a8ca45d6

Second Song, semiacústico, lento e outonal, é feito de guitarras acústicas, piano, órgão e uma voz agora mais frágil, mas cuja vulnerabilidade reforça as canções. As letras olham para temas que fazem sentido em quem se chama Neil Young e chegou aos 80 anos: envelhecimento, memória, amor, família, a proximidade da morte e, ocasionalmente, política e alterações climáticas. Aqui e ali anotamos canções que podem entrar para o cânone Youngeano: Day After Day é uma bela balada hipnótica e melancólica, Earth Girl é uma declaração de amor terna, quase clássica na melodia, enquanto em Second Song, com mais de onze minutos, Young divaga ao ritmo de uma progressão que recorda Harvest Moon. Em Soon I Might Be Going a consciência da mortalidade anda lado a lado com a inquietação política. Soa a disco de homem que sabe que o tempo é finito. Mais uns anos e vamos ouvi-lo de outra maneira.

“Day and Night”

Carly Rae Jepsen

Dois canadianos seguidos, e aposto que não faziam ideia de que Carly era canadiana, mas é também para isso que aqui estamos. Muitos de vós desprezais a autora, que eu bem sei, só porque os seus talentos foram revelados no Canadian Idol, que há-de ser um American Idol só que bem educado; snobs que sois, é bem possível que desmereçam Call Me Maybe, o seu grande êxito. Curiosamente, a carreira é mais interessante do que o êxito, fosse na synth-pop quase perfeita de EMOTION (2015) ou neste Day and Night, onde a sua obsessão pela canção pop a leva quase ao duplo-álbum: 24 temas divididos em dois mundos.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/1XWFzAYlF1ihMFPU4a9YQg?si=5ac487e073c24ccb

Day é mais luminoso e psicadélico, com ecos da folk dos anos 60; Night pousa as guitarras e vai buscar os sintetizadores, o disco, o house e a música de dança. O amor ainda é o principal tema, mas de forma menos juvenil – menos paixão impossível, mais como é que se constrói uma vida a dois: Jepsen casou-se e foi mãe enquanto fazia o disco e After All reimagina essa felicidade doméstica. Don’t Leave Me on the Dance Floor aproxima ABBA da pista de dança contemporânea, transformando uma crise amorosa em euforia disco, enquanto Near or Far é mais elegante e melancólica, com sintetizadores dissonantes. Day and Night é pop com classe para quem já tem dores nas pernas quando dança.

“Hard Life”

The Tubs

Em 2022, a mãe de Owen Williams suicidou-se, dando-lhe (entre outras coisas como, potencialmente, uma tristeza imensa e um trauma para a vida) tema para os dois primeiros discos dos Tubs, Dead Meat (2023) e Cotton Crown (2025). Sejamos honestos – é também o tema do terceiro, apropriadamente chamado Hard Life. Talvez essa (que a vida é hard) não seja a primeira coisa que ocorra a quem ouça estas guitarras jangly, que recordam uns Byrds apunkalhados, o que é uma forma de dizer uns R.E.M. mais brutos, que é como quem diz uns Hüsker Dü menos agressivos, isto é, uns Replacements.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/4cFFdzzZUjj7pmx8VegJbM?si=5be92cc59990467c

O violino de Chris Haigh, as guitarras que nos lembram Richard Thompson, as melodias luminosas – tudo isto está nos antípodas das letras de Williams, que mergulham em luto, relações falhadas, álcool, culpa e desprezo por si mesmo – há ali um tom sarcástico que chega a ser quase cruel para com o autor. Who’s Gonna Love You Now? transforma a autocomiseração numa irresistível discussão de Williams consigo mesmo; Stoop to Me envolve mais um desastre sentimental em guitarras cintilantes e violino, Heaven or London regressa à morte da mãe e ao modo como luto e excessos se confundem, enquanto Hard Life acumula pequenas desgraças e frustrações até à conclusão resignada do título. Os Tubs continuam a fazer uma coisa estranha e magnífica: escrever canções sobre vidas a desfazerem-se que apetece cantar aos berros.

“Pugnello”

Gilla Band

E depois do suicídio, a esquizofrenia – a de Dara Kiely, que havia parado toda a actividade musical depois de uma grave crise de saúde mental, por alturas de 2015; regressaria com The Talkies (2019) e Most Normal (2022), para, logo de seguida, Kiely, que passou por períodos de psicose desde jovem, ser diagnosticado com a dita esquizofrenia e perder o pai, de quem estava afastado. Não é difícil adivinhar que estas experiências foram decisivas para a feitura de Pugnello, quarto álbum da banda. Musicalmente, continuam num território só deles: noise-rock, pós-punk e eletrónica industrial triturados em guitarras que parecem máquinas, baixos distorcidos, percussão quase techno e os gritos de Kiely.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/5pTvVhdMVV24CQep4GA38F?si=25610218373b4027

Mas as letras são agora mais pessoais que nunca: doença mental, infância, família e luto surgem misturados com Power Rangers, futebolistas, televisão e piadas absurdas – enfim, um pouco de humor como defesa contra a dor. Alogia enfrenta diretamente o diagnóstico de esquizofrenia; “Jacobsons” tenta compreender o estranho luto pela morte de um pai distante. Em “Giraffe”, Kiely contrapõe a sensação de não ser amado ao amor da mãe. E a extraordinária “At the Gallop” fecha o disco imaginando uma última conversa com o pai morto – com a voz eletronicamente transformada para representar o próprio pai. Pugnell soa como uma fábrica a explodir – e no meio dos destroços está Kiely.

“Florida Water Blues”

Twisted Teens

Não acontece nada em Nova Orleães, onde por acaso não me importava de passar umas férias, que raio acontece em Nova Orleães? Nada. Excepto Cameron Winter ir lá passar férias (sem me avisar, o que é de mau tom) e parar para dar um concerto num barzinho repleto de centenas de fãs; o que também acontece em Nova Orleães são os Twisted Teens, centrados em Caspian Hollywell e RJ “Razor” Santos, que parecem ter saído de uma cave obscura em 1979: rock’n’roll primitivo, punk de garagem, country e blues sulista, tocados com deliberada sujidade, que mais se pode pedir (excepto passar férias em Nova Orleães na mesma altura que Cameron Winter?).

https://open.spotify.com/intl-pt/album/2Gyxm1N8hGyBgVdApmpm4I?si=2d3a58a4a3a444da

Depois do homónimo Twisted Teens (2024), aceleraram vertiginosamente: Blame the Clown chegou em fevereiro de 2026 e agora Florida Water Blues, antes do já anunciado The Holy Cross Tigers. Florida Water Blues é um disco febril de 13 canções, onde guitarras distorcidas, guitarras slide e ritmos rudimentares fazem os Stones dos anos 60 chocarem com o garage-punk e velhos discos de country. As letras habitam uma América marginal e meio mitológica: estradas, pântanos, cigarros, desejo, solidão e personagens que parecem estar permanentemente a fugir de alguma coisa. O meu rock é sujo e devasso e é assim que eu gosto dele. Comprem-me uma viagem para Nova Orleães, só de ida, eu mereço e Cameron Winter também.