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Salvador Sobral: "Os artistas têm um dever político. Ser apolítico é virar a cara"

Poucos dias antes da edição de um novo disco, "A Flor do Recomeço", o cantor fala das gravações no Brasil e da vida em Barcelona, mas também aborda o Spotify, a Eurovisão e o "caso Ed Sheeran".

Mariana Carvalho
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Inês Lacerda
photography

Esteve afastado dos palcos e do estúdio de gravações, mas por tempo limitado. Afinal, cantar é a única coisa que sabe fazer, diz-nos. Depois de meses na estrada com a espanhola Silvia Pérez Cruz e do álbum Timbre, lançado em 2023, Salvador Sobral mudou-se para a Catalunha, com a filha Aïda e a mulher, Jenna Thiam — que prefere chamar de namorada. Vive em Barcelona, a cidade com que sempre sonhou, desde 2024, sem perder de vista o país onde nasceu e outras latitudes mais tropicais — as mesmas que informam o novo disco, A Flor do Recomeço, a editar esta sexta-feira, dia 16 de outubro.

Salvador dá voz a onze temas compostos e gravados no Brasil, que torna seus e cuja identidade procurou equilibrar entre os dois lados do oceano. Esquivando-se dos “vocês”, que transforma em “tus”, protagoniza uma viagem pelos sons transatlânticos, tingida pelo jazz. Do catálogo de gigantes da Música Popular Brasileira, onde já tinha ido requisitar o nome de Caetano Veloso, recrutou Ney Matogrosso — que colabora com o português na canção Bam Bam.

Mais caseiro e afeiçoado à rotina desde que é pai — a filha, Aïda Thiam, nasceu em 2022 —, Salvador continua a construir pontes entre geografias diferentes. Evidência é a digressão que arranca em Bilbau (Espanha) e atravessa a Europa de norte a sul, e ainda a América Latina. A conversa com o Observador decorreu por intermédio de dois ecrãs, o que não impediu que o músico fizesse justiça à fama de tipo relaxado e extrovertido, que goza desde 2017, o ano em que venceu a Eurovisão e em que tudo mudou — em que tudo começou. Antes das perguntas, já o cantor disparava questões de volta, invertendo a lógica habitual da entrevista.

A partir de Barcelona (as fotografias foram feitas em Lisboa), Salvador falou das novas canções, da sua experiência no cinema com João Nicolau (em A Providência e a Guitarra) e da vida familiar. E não se esquivou dos assuntos políticos que, nos últimos meses, têm sido notícia. A saída e posterior regresso à plataforma de streaming Spotify, o boicote ao festival a partir do qual lançou a carreira e o ativismo militante face à questão palestiniana estão no centro dos seus pensamentos quotidianos. Apesar disso, admite, já foi mais radical.

[o vídeo de “A Flor do Recomeço”, primeiro single do novo álbum, com o mesmo nome:]

https://youtu.be/ul2yLgOIrGo?si=xtxUZIwN47qdONN4

Em fevereiro, retirou as suas canções do Spotify, uma decisão revogada no início de setembro. Quando regressou à plataforma admitiu: “Fui com tudo e quando olhei para trás não havia ninguém”. Estava à espera de dar início a um movimento de boicote mais generalizado?
Entretanto, recebi mensagens de outros artistas, por exemplo da emmy curl, que é uma ativista fortíssima no boicote ao Spotify. Ela disse-me: “Eu estava lá, não olhaste bem para trás porque eu estava lá”. Mas músicos com nome na indústria, sem contar com ela, não pôde vir ninguém e eu entendo, não é? Eu próprio também voltei. Era preciso o boicote ser total, irmos todos juntos e tirarmos a música no mesmo dia, que foi o que tentámos fazer aqui na Catalunha. Só que não teve assim tanta expressão, porque a maioria dos artistas envolvidos não tinha muitos streams, do grupo catalão eu sou quem tem mais ouvintes — e nem sou fortíssimo no Spotify.

A dada altura, comecei a sentir que as pessoas já não ouviam a minha música. É curioso, porque o single A Flor do Recomeço foi o primeiro, desde que ganhei a Eurovisão, que não passou na rádio. A venda de bilhetes para os concertos também começou a descer e eu tenho, primeiro que tudo, de alimentar a minha família — ou a minha filha, que a minha mulher ganha o dinheiro dela. Era mais importante para mim chegar às pessoas e vender bilhetes, para continuar a fazer aquilo de que gosto, e participar no boicote enquanto utilizador, porque como músico tornou-se incomportável.

https://observador.pt/2026/09/01/seis-meses-depois-de-boicote-salvador-sobral-regressa-ao-spotify-golias-demasiado-forte-para-enfrentar-sozinho/

É difícil, enquanto figura pública, voltar atrás com uma decisão desta natureza, que divulgou nas redes sociais?
Sim. E pensei muito antes de avançar, mas estava a sofrer imensa pressão por parte da indústria e dos promotores de concertos. Quando publiquei o vídeo [a anunciar o regresso à plataforma] no Instagram, aconteceu uma coisa muito estranha, porque ganhei 2.000 seguidores do nada. Como se a Meta percebesse, “ele já voltou ao Spotify, podemos devolver-lhe uns likes, ele está de volta”. Senti-me de regresso aos braços do inimigo, comecei logo a ganhar engajamento nas redes, é uma coisa muito perversa. Também recebi carinho das pessoas, que me disseram “Ora, não foi em vão, eu e a minha família fizemos boicote, agora usamos outra plataforma”. Depois houve, claro, o hate, mas também já estou um bocadinho habituado, já tenho algumas — como dizem os espanhóis — tablas.

Acredita que os artistas ou pessoas com uma plataforma considerável têm algum dever cívico acrescentado? Devem usar a sua influência para fins ativistas?
Em 2026, sim. Não é só um dever cívico, têm um dever político, porque os valores humanos estão em crise e estão em perigo. Alguém que tenha uma plataforma tem a obrigação política, cívica, social e humana de defender os direitos básicos e os direitos humanos. Já não existe isso de ser apolítico, a história do Ed Sheeran é absolutamente ridícula. Ser apolítico é ser político, porque é virar a cara.

https://observador.pt/2026/09/20/ed-sheeran-fala-sobre-a-polemica-com-macklemore-nunca-quis-ser-um-musico-ativista-mas-estou-no-centro-de-um-conflito-politico-complexo/

Mas será que os músicos e artistas preferem manter o silêncio sobre temas divisivos porque não têm noção da própria influência que têm junto do público?
Eu percebo, mas acho que é muito inocente pensar isso. Acho que artistas [como o Ed Sheeran] sabem o efeito que têm, mas estão muito confortáveis na sua posição. Eu próprio estou confortável na minha posição. Quando percebi que ia perder trabalho, tive de voltar, não é? Ainda se nos uníssemos todos… Mas é muito difícil, a gente nem se consegue sindicalizar! Hoje em dia, em 2026, temos de ter essa missão e apelar aos valores básicos da humanidade. Agora, no Brasil, todos os artistas que conheço usam a sua voz para apelar ao voto Lula. É o que se pode fazer e isso mobiliza as pessoas, está à vista.

Este ano, o Salvador apelou ao boicote à Eurovisão. É curioso como, com o passar do tempo, e já lá vão quase dez anos, se foi distanciando do festival que lhe serviu de plataforma de lançamento. Apesar da vitória, nunca se identificou plenamente com os valores do certame internacional?
A própria estética do festival não tem muito a ver comigo e foi por isso que ganhei, porque era estranho ali, era uma coisa muito diferente. Fui ao Jornal da Noite consciencializar as pessoas para o boicote ao festival. Porquê? Porque ganhei a Eurovisão e, a partir desse lugar, posso criticar o facto de não deixarem participar a Rússia, mas terem uma abordagem diferente em relação a Israel. Da mesma maneira que não aplicam tantas sanções a Israel como à Rússia. A nível da Eurovisão e a nível político — é igual.

Não o preocupam as consequências dessas tomadas de posição? Corre o risco de hostilizar uma fatia do público.
Fico feliz que o público sionista boicote o meu trabalho. Aliás, na minha última tournée, cantei uma canção palestiniana em todos os países e nunca recebi críticas. O meu público é humanista e politizado, minimamente consciente… Só na Lituânia é que a receção foi menos satisfatória, mas percebi que é porque estão muito mais preocupados com a guerra na Ucrânia.

"Alguém que tenha uma plataforma tem a obrigação política, cívica, social e humana de defender os direitos básicos e os direitos humanos. Já não existe isso de ser apolítico, a história do Ed Sheeran é absolutamente ridícula. Ser apolítico é ser político, porque é virar a cara."
Salvador Sobral

O novo álbum, A Flor do Recomeço, sucedeu a um ano de pausa na sua carreira. O que inspirou esse hiato?
Muitas das coisas de que já falei. Existe aquele termo, “ecodeprimido” — naquela altura, eu estava socialmente ou politicamente deprimido. Fazia-me confusão fazer música e concertos, cantar como se nada fosse, com tudo o que estava a acontecer. A ultradireitização do mundo, o genocídio em Gaza, o perigo das eleições no Brasil, estava tudo a deixar-me muito deprimido, com falta de imaginação e criatividade. Por outro lado — e que também não é de somenos —, a tournée com a Silvia Pérez Cruz deixou-me mesmo muito cansado. Muitas datas e muitas viagens mostraram-me que o meu trabalho não está nos concertos e não é cantar — o meu trabalho é viajar e esperar. E a espera mata-me. A espera no aeroporto, a espera no avião, a espera pela prova de som, pelo hotel, enfim. Finalmente, vivo na cidade com que sonho há muitos anos e fiquei com vontade de tirar um ano para pensar, estar com a minha filha, levá-la à escola, jogar futebol e tocar piano.

Nesse ano, só gastei dinheiro, não ganhava nada porque infelizmente só sei fazer isto. Na minha vida, só sei cantar. Lembrei-me do diretor musical da Gal Costa, o Marco Preto, que estava louco para que eu fizesse um disco no Brasil, com canções inéditas. Mandei-lhe uma mensagem, a perguntar: “Ainda te lembras de mim? Estou cansado e sem imaginação, mas preciso de trabalhar. Preciso de ter um disco para mostrar aos promotores e fazer concertos”. Ele disse: “Vem já para cá e vamos fazer esse disco”. E foi assim.

O álbum foi escrito exclusivamente por músicos e letristas brasileiros.
Exatamente. E curiosamente, é o meu primeiro disco cantado 100% em português.

Há alguma coisa de especial sobre cantar em português? Por ser a língua materna carrega memórias e afetos que lhe conferem um caráter especial?
Gosto de cantar em qualquer língua. Na Polónia cantei em polaco, a mesma coisa no Uzbequistão. Amo cantar, ponto, e faço-o em todas as línguas. Não sou nada patriótico, porque acho que o patriotismo e o nacionalismo estão muito pertinho um do outro, mas, se há coisa que me dá orgulho é a língua portuguesa. Nos concertos que já fiz pelo mundo, as pessoas costumam dizer que gostam mais quando canto em português, e a minha mãe também diz isso. De facto, o português tem muitas memórias associadas e carrega a melancolia do fado. Eu não sinto, mas ela deve estar lá intrinsecamente, não é? A verdade é que amo a língua, as nossas expressões e os sons, e estou muito orgulhoso por poder fazer este disco inteiro em português.

Como foi gravar o álbum em São Paulo?
Tínhamos consciência de que um disco brasileiro — com produtores, músicos e composições brasileiras — tinha de ser interpretado em português de Portugal, que, afinal, é a única coisa que eu posso acrescentar de diferente. Se fizesse uma pronúncia brasileira até podia ser problemático do ponto de vista colonial, não é? E a minha… não é uma arma, mas o meu encanto é falar esta língua, com esta pronúncia. A ideia foi trazer a minha portugalidade, ou até a minha alma ibérica — porque também sou muito influenciado pela música espanhola — e desbrasilificar, europeizar, os arranjos e as canções.

Quando cheguei a São Paulo, não conhecia ninguém, foi como o primeiro dia de escola. Estava cheio de vergonha, eles não sabem quem eu sou porque a Eurovisão não significa absolutamente nada. Lembro-me de que a primeira canção que gravámos foi o Homem Louco, composta pelo Marcelo Camelo e pela Mallu Magalhães, que é muito brasileira. Eu ia com esse medo, mas, curiosamente, o terreno comum que a gente encontrou foi o jazz. Um português e um brasileiro encontram-se numa música que vem das pessoas escravizadas nos Estados Unidos, é curioso.

"O meu trabalho não são os concertos e não é cantar — o meu trabalho é viajar e esperar. E a espera mata-me. A espera no aeroporto, a espera no avião, a espera pela prova de som, pelo hotel, enfim. Finalmente vivo na cidade com que sonho há muitos anos e fiquei com vontade de tirar um ano para pensar, estar com a minha filha, levá-la à escola, jogar futebol e tocar piano."
Salvador Sobral

Na prática, o que significa desbrasilificar a música, de que adaptações estamos a falar?
É preciso mudar a letra. O “você” brasileiro é uma coisa muito complicada para mim, mas, graças a Deus ou aos próprios compositores, muitos “vocês” foram postos de parte para me ajudar. Na canção que encerra o álbum, escrita pelo Vítor Ramil, Oração do Ateu, ele usa a segunda pessoa do plural — o vós —, que ajuda imenso. Fora isso, há uns quantos “vocês”, mas passam rápido, não é uma coisa que faça confusão ao ouvido. Também modificámos os ritmos muito brasileiros — tentámos moderar no samba — e os acordes, porque alguns tinham extensões que soavam muito a Brasil. Foi por aí que a gente tentou desbrasilificar as canções, que eram demasiado tropicais, suponho.

A mudança de sonoridade também obrigou a alterações na banda e nos instrumentos que vão acompanhá-lo em palco?
Gravei o disco com os músicos do Brasil, mas não posso trazê-los para a Europa a tempo inteiro, seria a ruína. Tenho a minha banda daqui, constituída por catalães e portugueses, catalãs e portuguesas. Só tenho um baterista, que tem de tocar outros instrumentos de percussão, porque não há dinheiro para ter muitos músicos — neste caso porque a camioneta só tem nove lugares e mais um percussionista não dava. Hoje em dia escolho a minha banda baseado não na técnica de cada um, mas na personalidade, porque quero estar na estrada com pessoas de quem gosto. A Eva Fernandes é uma saxofonista que queria muito incluir na banda, apesar de boa parte dos temas do disco não terem saxofone. Primeiro tem de ser boa gente; se tocarem bem, ótimo. Quero é estar tranquilo na estrada, passamos muitas horas juntos.

Em várias ocasiões, o Salvador admitiu ser melhor intérprete do que compositor. Mas provoca-lhe alguma estranheza lançar um álbum inteiramente escrito por terceiros?
Antes tinha um bocadinho de vergonha porque, especialmente no mundo do jazz, o cantor tem complexos, porque quer ser músico e quer improvisar como os músicos. Fazia-me confusão dizer que sou cantor, então dizia “sou músico”, sempre. Tive uma epifania quando fiz o projeto do Jacques Brel. Nessa altura pensei, “Não, eu sou cantor, vou cantar e interpretar Jacques Brel, sou cantor acima de tudo”. Foi uma mudança de chip. Hoje em dia, quando os pais de colegas da minha filha na escola me perguntam o que é que faço, digo sempre “sou cantor” — afinal é o que sou, o que faço melhor nesta vida. Não foi difícil [sentir-me dono deste álbum], porque as canções são inéditas, nunca foram cantadas antes. Quando ouvimos a Billie Holiday cantar o Body and Soul, acreditamos que é dela. E essa também é a minha missão, tentar convencer as pessoas de que as canções que estou a cantar são minhas.

O amor é um tema frequente no seu repertório, mas o amor entre pai e filha em específico tinge este álbum de forma especial? A paternidade é relevante para compreender o novo disco?
Tudo o que vivemos conta na hora de interpretar uma canção, desde o amor que tenho pela Aïda até ao almoço que a gente partilhou antes de entrar no estúdio ou à confraternização com os músicos. Mas acho que, acima de tudo, ela deu-me uma certa serenidade em relação a este meu ofício. Sem grandes ambições de ganhar prémios ou de ir tocar aos Estados Unidos, alcancei uma nova paz e um amor pela rotina. Estou a gravar o disco, mas não consigo parar de pensar no momento em que posso voltar à minha rotina com ela. Ainda me falta trilhar caminho. Tenho em mente que aos 40 anos vou aprender a dizer “não” às pessoas.

Numa entrevista que deu ao Público, disse que a sua irmã Luísa “estava farta de hotéis e desejava era estar em casa com a família” — o contrário das suas ambições na época. A paternidade atenuou alguma da sua sede de mundo, tornou-o mais caseiro?
O ideal é combinar os dois mundos. Estou a amar a rotina com ela e este ano mais sabático que tive, porque sei que vai seguir-se uma avalanche gigante de concertos, descoberta de culturas e de pessoas — que é aquilo que mais me fascina no mundo, as pessoas e a comunicação. Vamos ter 15 concertos na América Latina e estou cheio de vontade de conhecer os locais e cantar para eles, mas sempre sabendo que posso voltar e que vou ter aqui uma rotina à minha espera. Portanto, ainda não estou como a minha irmã…

"Nós tínhamos consciência de que um disco brasileiro — com produtores, músicos e composições brasileiras — tinha de ser interpretado em português de Portugal, que, afinal, é a única coisa que eu posso acrescentar de diferente. [...] A ideia foi trazer a minha portugalidade, ou até a minha minha alma ibérica — porque também sou muito influenciado pela música espanhola — e desbrasilificar, europeizar, os arranjos e as canções."
Salvador Sobral

Vive em Barcelona desde 2024. Porque escolheu regressar à cidade catalã, a mesma onde estudou jazz?
Já não estava a sentir-me muito bem em Lisboa e a minha namorada também não. Ela não conseguia arranjar trabalho, porque a indústria do teatro em Portugal é difícil. Depois, tentámos Paris e fiquei completamente deprimido. Nada melhor do que um sítio que está literalmente situado entre Paris e Lisboa. E sinto que Barcelona é amiga do cidadão em todos os aspetos. No plano urbanístico, porque os passeios têm cinco metros de largura. É uma cidade em que posso levar a minha filha de bicicleta porque é plana, e tem muitas coisas para fazer com crianças.

Ontem, Espanha aprovou o famoso “decreto Maricarmen”, a proteger os inquilinos, enquanto o nosso Governo propõe medidas que favorecem o senhorio. Só penso, graças a Deus que estou aqui. Os espanhóis já perceberam há muito tempo que têm demasiados turistas e que vivemos uma crise de habitação gigante. Em Portugal, ainda não chegámos a essa conclusão, não percebemos que é preciso adotar medidas para mitigar os problemas na habitação e, há dias, o [Carlos] Moedas veio dizer que Lisboa não tinha excesso de turistas. Então, politicamente também me sinto muito mais confortável aqui em Espanha. E tenho de confessar que não gosto muito de ser famoso e aqui não sou.

Já domina o catalão?
Sim, também sou um freak das línguas. Só sei cantar e falar, pronto. Aqui é muito diferente quando se fala catalão — para o estrangeiro que fala catalão, estendem um tapete vermelho. Tudo o que é burocracia, dizem, “Sim vou ajudar-te com tudo!”. E, enfim, estamos na Catalunha, falamos catalão. Queremos estar aqui, pagar impostos aqui, estar inseridos na cultura e na sociedade.

O Salvador contracenou no filme de João Nicolau, A Providência e a Guitarra (2026). Como foi a experiência da representação?
Antes não tinha experiência, só por osmose, de ver a Jenna fazer filmes e tal. Mas apetecia-me. Acho que também foi na altura do Jacques Brel — ele tem uma teatralidade que tentei imitar, fiquei com vontade de experimentar teatro ou cinema. Conheci o João [Nicolau] quando ele veio ver um concerto que fiz com a Orquestra Cubana no Teatro São Luiz. Na altura, ele desafiou-me para o papel principal, só que é muito difícil. Muito, muito, muito difícil. Se eu me queixo da espera na música, a espera no cinema é horrível. E ele não foi brando comigo, deu-me um plano-sequência de dez minutos em que tive de falar num português do século XIX. “Ardo em chamas por este amor desmesurado!” Era a cena de apresentação da minha personagem e a rodagem durou dois dias. Senti que não tinha o talento necessário e que o mundo do cinema é um bocadinho mais hierárquico do que o mundo da música. Fiquei feliz de ser músico. Mas gostei muito, se me chamassem amanhã fazia outro filme.

Representou a personagem de Stubbs, “o antípoda de quem é como pessoa”, de acordo com João Nicolau.
O João gosta de uma coisa postiça. Ele trabalha muito com não-atores e com a ideia de falso, em que se vê que não se é ator e que se está um pouco incomodado. Acho que me chamou por isso. Eu fazia um estudante de Cambridge que não entendia nada sobre arte, em tudo o oposto do que sou na vida. Sentia-me um bocadinho tenso, estava hirto, e o João achava piada. Os cinemas dele são estranhos, foi por isso que aceitei, porque também gosto de coisas estranhas.

Em agosto, ficámos a saber que gravou um segundo filme, que mistura documentário e ficção, sobre um ano particularmente conturbado — 2017, quando ganhou o festival da Eurovisão e recebeu o transplante de coração que lhe salvou a vida. Porquê regressar a esta altura?
Foi outro engano, uma coisa em que caí por não saber dizer que não. Um dia, eu e a Jenna estávamos a falar com um casal de amigos, um dos quais foi programador do Festival de Cinema do Rio. Íamos sempre ao cinema juntos, à Cinemateca [Portuguesa] e tal, e eles perguntaram como é que a gente se conheceu. Eu e a Jenna contámos a história e eles ficaram maravilhados com aquele ano muito maluco de 2017. “A gente tem de fazer um filme!” Está bem, um dia fazemos um filme. Isto foi há cinco anos.

Só que, pouco a pouco, eles foram conseguindo financiamento — e, uma vez que há financiamento, é obrigatório por lei avançar. Estivemos agosto inteiro a rodar, que é isso mesmo, um documentário. Tem cenas reencenadas, como o dia em que nos conhecemos na Tasca do Chico [em Lisboa], ou cenas do hospital e momentos musicais. É um filme algo maluco, não sei se as pessoas vão entender. Deve sair para o ano que vem, quando faz justamente dez anos do transplante e da Eurovisão. Vamos ver se as pessoas gostam e entendem, porque também nos baseámos muito naqueles filmes franceses meio kitsch e satíricos, como o On Connaît la Chanson [1997, de Alain Resnais].

"Experimento um efeito de dissociação muito forte em relação a esse "eu" do passado, porque era tão diferente do ponto de vista físico... Nem sequer me revejo na pessoa que fui, é uma coisa muito estranha, deve ter um nome na psicologia. Sinto que, depois de sair do hospital, fui construindo o "eu" verdadeiro, que sou hoje."
Salvador Sobral

A música é original?
Sim, escrevi as músicas com a Jenna e com o [produtor] Leo Aldrey. Acho que, ou o filme é muito bem recebido, como uma coisa diferente, que faz o circuito dos festivais, ou [vai ser alvo de chacota no] Extremamente Desagradável. Não há meio termo.

Custa regressar aos momentos que passou no hospital ou é algo que encara com uma sensação de alívio, porque conseguiu ultrapassar um problema de saúde tão debilitante?
Experimento um efeito de dissociação muito forte em relação a esse “eu” do passado, porque era tão diferente do ponto de vista físico… Nem sequer me revejo na pessoa que fui, é uma coisa muito estranha, deve ter um nome na psicologia. Sinto que, depois de sair do hospital, fui construindo o “eu” verdadeiro, que sou hoje. Esse distanciamento ajudou nas filmagens, mas houve alguns momentos muito mais difíceis do que estava à espera. Um dia em particular foi muito duro, tivemos mesmo de parar de gravar. E tudo isto, no contexto do cinema português: pouco dinheiro, poucas horas. Tem de ser tudo feito à pressa.

A enfermeira que acompanhou o seu caso clínico participa no filme.
Queria levar o médico, mas ele ficou com vergonha. Mas a enfermeira Virgília [Freire] foi uma presença muito importante nesses meses de hospital. Ela trazia luz ao hospital, tinha sempre muitas histórias para contar. Uma vez, cozinhou um arroz de pato para mim e para a Jenna, quando eu estava nos cuidados intensivos, ao lado de um senhor em coma. Ela fechou a cortina, trouxe o arroz de pato, umas velas e a mesa e preparou um date para mim e para a Jenna. No filme, a Virgília canta, coisa que nunca tinha feito na vida. Canta a receita do arroz de pato.

Também foi muito estranho voltar ao dia em que conheci a Jenna. Durante a rodagem, ela estava praticamente com a mesma roupa, sentada na mesma mesa, porque a gente gravou mesmo lá, na Tasca do Chico. Foi muito curioso. E ótimo para nós, porque a paternidade e a maternidade são difíceis, acho que foi bom para salvar o casamento.

Agora que já teve ambas as experiências, que paralelos identifica entre a atividade de um músico e de um ator?
Há coisas que levo da música, especialmente do jazz — como o estado de constante alerta. Ao tocar com muitos músicos, sei perfeitamente o que cada um está a fazer, tenho os ouvidos muito abertos e isso ajuda bastante em tudo na vida. Em particular no teatro e no cinema, [essa habilidade] permite ter noção de tudo o que está a acontecer e aquilo que devo fazer a seguir: ir até aquela marca, dizer a fala, repetir o take com mais calma… Nós, músicos, temos muita sorte porque conseguimos compartimentar assim as coisas.

Depois, há o lado da improvisação. Agora vou tentar aqui uma coisa diferente, tentar aquela nota em vez da outra ou dar o solo ao piano em vez da guitarra. No filme também acontece: quando a Jenna diz isto, vou tentar reagir de outra forma — essas coisas repentistas são comuns a ambos os mundos. Além de que tanto a música como o cinema pagam muito mal, não é? Também há essa parte.

E, nos dois casos, é preciso ter um corpo disponível, entregue à performance, não?
Sou muito corporal em palco, gosto de correr sem parar e dançar também. Mesmo nas canções que não são tão bailongas, mexo-me muito, não consigo interpretar da mesma maneira sem esse movimento. E movo-me de forma muito estranha, nisso identifico-me muito com o Ney Matogrosso. Tem 85 anos e continua com aquela postura dele.

"A enfermeira Virgília [Freire] foi uma presença muito importante nesses meses de hospital. [...] Uma vez, cozinhou um arroz de pato para mim e para a Jenna, quando eu estava nos cuidados intensivos, ao lado de um senhor em coma. Ela fechou a cortina, trouxe o arroz de pato, umas velas e a mesa e preparou um date para mim e para a Jenna. No filme, a Virgília canta, coisa que nunca tinha feito na vida. Canta a receita do arroz de pato."
Salvador Sobral

O segundo single do novo álbum, Bam Bam, é uma parceria com o músico brasileiro. Já se conheciam? Como é que aconteceu?
O manager dele, o João Mário, organiza as minhas tournées no Brasil. Um dia, [o Ney Matogrosso] foi jantar ao restaurante da minha mãe — ele e o Chico Buarque — e foi lá que os conheci. Tinha a intenção de convidá-lo para participar neste disco, inspirado no álbum que ele publicou [em 1990] com o Raphael Rabello, À Flor da Pele, que só tem violão e voz. Ele canta as baladas de uma maneira tão bonita… Mas quando recebi esta canção escrita pela Céu, o Hyldon e o Arnaldo Antunes, comecei a imaginá-lo a cantar e dançar, a fazer aquelas expressões com o corpo. Escrevi-lhe diretamente e ele disse logo que sim. Chegou ao estúdio, sabia a letra, gravou aquilo rapidíssimo e depois rodámos o vídeo quando veio cantar ao Avante.

Acho que eles chegam a uma idade — e também senti isso com o Caetano [Veloso] — em que já não se levam a sério, já provaram tudo o que tinham a provar. E não têm nenhumas “divices”, que vejo em tanta gente da minha idade. Já cantei com o Caetano e com o Ney Matogrosso e nenhum deles tem essas merdas. Afinal, o que a gente faz é um ofício como qualquer outro. Não temos mais importância do que um padeiro, enfim.

[o vídeo de “Bam Bam”, canção gravada com Ney Matogrosso, que faz parte do novo álbum:]

https://www.youtube.com/watch?v=jWQWopyczw0&list=RDjWQWopyczw0&start_radio=1

O Salvador insiste muito na ideia de autenticidade, já disse várias vezes que música boa é música genuína. Mas não sente necessidade de explorar uma persona em palco, até para se proteger?
Acho que o Ney Matogrosso é o melhor exemplo disso, porque ele é um senhor velhote querido e, de repente, veste aquela roupa, põe-se a cantar e é a personagem. Só que isso é genuíno. Dá para ver, não é? Acho que todos temos o botão da verdade e da honestidade artística. Todas as personagens que conheço que são diferentes — sei lá, os Daft Punk — eu compro isso. Compro a Rosalía quando ela faz mil danças e versos de mil maneiras diferentes. Compro tudo isso, porque é honesto para a arte dela. Mesmo os fogos de artifício que um dia critiquei, acho que também são válidos quando contribuem para a arte que a pessoa está a fazer — desde que ela não se limite a isso. Para quem é cantor, o mínimo que se exige é que seja afinado.

Mas existem cantores que não são necessariamente afinados, que manipulam a voz, por exemplo com autotune, para obter esse resultado.
O autotune eu compro. Também já usei num single que tenho com o AGIR. Hoje em dia, não sou tão radical. Acho que tudo vale. Quem sabe se a minha filha um dia não é cantora e quer usar autotune? Quem sou eu para criticar?