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Das festas nas embaixadas às senhas de racionamento. A portuguesa Annie Silva Pais juntou-se à revolução cubana

Vivia na melhor zona de Havana, frequentava festas em embaixadas e pertencia à elite com acesso a luxos impensáveis para os cubanos. Mas escolheu juntar-se à revolução cubana, com Fidel e Che.

Inês André Figueiredo
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Inês Correia
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Quando Annie Silva Pais e Raymond Quendoz aterraram em Cuba, instalaram-se no edifício da Embaixada da Suíça em Havana, na zona do Country Club, a mais luxuosa de toda a cidade, onde se encontravam praticamente todas as embaixadas.

É o dia 12 de outubro de 1962.

A revolução cubana derrubou o ditador Fulgencio Batista, no poder desde o golpe de Estado de 10 de março de 1952, há apenas três anos. Fidel Castro é primeiro-ministro do país, assinou a lei de reforma agrária e deu início a um processo de estatização da economia. E, em pleno período de Guerra Fria, levou Cuba a afirmar-se como um regime de matriz marxista, o que haveria de levar a vários momentos de grande tensão com os Estados Unidos da América.

Um desses momentos acontece apenas quatro dias depois de Annie, portuguesa, de Lisboa, e Raymond , diplomata suíço, chegarem a Havana— e há de entrar para a história como o momento mais perigoso da Guerra Fria.

Começou a 16 de outubro de 1962, quando o então Presidente dos EUA, John F. Kennedy, foi informado de que um avião-espião tinha sobrevoado Cuba e captado imagens alarmantes: era a prova de que a União Soviética estava a instalar mísseis nucleares apontados para o território norte-americano.

Em reuniões secretas ao mais alto nível, colocaram-se em cima da mesa várias alternativas, entre elas a possibilidade de um ataque rápido com uma ação súbita e não anunciada para eliminar definitivamente a base ou a combinação de pressões para isolar Cuba diplomática e economicamente. E debateram-se vantagens e desvantagens, desde logo dando prioridade a ações que causassem menos problemas aos aliados dos EUA, já que um movimento militar podia desencadear uma guerra com a União Soviética.

Dias mais tarde, o Presidente dos EUA acabou por anunciar que iria ser iniciada uma “quarentena rigorosa” a todo o equipamento militar de ataque que fosse transportado para Cuba. O regime cubano chamou-lhe “bloqueio”. Em causa estava um embargo comercial que dura até aos dias de hoje.

Quarenta anos depois, em entrevista aos jornalistas José Pedro Castanheira e Valdemar Cruz, autores do livro “A Filha Rebelde”, que conta a história de Annie Silva Pais, Raymond Quendoz admitiria: “foram momentos muito tensos” aqueles que ele e a então mulher viveram à chegada a Cuba. Sobretudo porque o diplomata suíço era, na altura, nada menos do que a pessoa responsável por descodificar as mensagens secretas que chegavam à embaixada. E porque em Cuba não existia embaixada dos Estados Unidos — a Suíça era a representante dos interesses norte-americanos na ilha.

Apesar dos momentos de tensão vividos naquela fase, Annie e Raymond adaptam-se rapidamente à vida em Havana. Passam, quase de imediato, a ser convidados para outras embaixadas, frequentam as festas mais badaladas e conhecem as maiores figuras da revolução cubana. A portuguesa fala muito bem francês e espanhol e isso facilita a integração, tanto com cubanos como com estrangeiros, sobretudo embaixadores e embaixatrizes. O casal faz amizades e é recebido nas melhores casas da ilha, principalmente na embaixada portuguesa, onde a filha do diretor da PIDE se torna muito próxima do encarregado de negócios Luís Gonzaga Ferreira e da mulher dele, Milu.

No Podcast Plus “Os Escândalos de uma Revolucionária”, uma das primas de Annie, Madalena Nita Palhota, recorda que os primeiros tempos foram felizes e que ambos andavam sempre “naqueles círculos diplomáticos” em que existia “outro tipo de tratamento”. O casal chegou a mandar para casa, em Lisboa, uma fotografia a preto e branco, em que surgem, sorridentes, com dois cães ao colo. “Ela estava feliz”, relembra a prima.

"Havia lojas dólares e nós podíamos, tínhamos acesso a todos os bens, a mariscos, vinhos, espumantes, tínhamos tudo. Mas era pago dólares e os cubanos obviamente não tinham dinheiro para ir a essas lojas onde se pagavam divisas estrangeiras"
Alfredo Duarte Costa, ex-embaixador português em Havana

Alfredo Duarte Costa, embaixador português em Havana, entre 1999 e 2004, não conheceu Annie, mas explica que a vida de diplomata era bem diferente da dos cubanos. “Era muito agradável porque havia lojas onde podíamos pagar com dólares e tínhamos acesso a todos os bens: a mariscos, vinhos, espumantes, tínhamos tudo. Os cubanos obviamente não tinham dinheiro para ir a essas lojas onde se pagava com divisas estrangeiras”, conta.

Enquanto as relações com diplomatas iam crescendo, Annie construía uma espécie de vida paralela com amigos cubanos. Não só se mostrava encantada por Che Guevara — algo que o próprio marido notava — e o tentava imitar (passa a usar o cabelo o mais parecido possível com o do ícone da revolução), como começou a convidar para a Embaixada da Suíça figuras relevantes da revolução cubana. Um deles era René Vallejo, secretário e médico de Fidel Castro. José Abrantes Fernandez, membro da polícia política do regime, e o chefe de protocolo, Roberto Melendez, também eram visitas frequentes.

À medida que se integrava cada vez mais na sociedade cubana, Annie ia-se afastando do marido. Estavam há três anos a viver em Havana e a relação começava a dar sinais de desgaste, tanto que o próprio encarregado de negócios português mais tarde haveria de comentar que até já discutiam em público.

Foi nesta altura e neste estado de coisas que, em setembro de 1965, Annie decidiu passar alguns dias de férias no México, com a amiga Laura Bosques, que tinha conhecido em Havana, quando o pai era embaixador do México em Cuba. Raymond não se opôs. Longe de saber que essa viagem seria o momento definidor da vida de Annie.

Depois das semanas que passou na Cidade do México, a portuguesa nunca mais voltaria a ver o marido. Abandonou a vida de luxo que tinha na ilha para se juntar à revolução cubana, com a ajuda e cumplicidade das mais altas figuras do regime — Fidel incluído.

Rui Ferreira, jornalista e amigo de Annie, explica que a viagem ao México, “em termos de espionagem”, funcionou como uma “exfiltração”; uma manobra planeada propositadamente para retirar alguém de determinada situação ou contexto. “Talvez a amiga mexicana nunca tenha sabido, mas ela foi para lá para criar uma separação com o marido”, diz, 61 anos depois, em entrevista para o Podcast Plus “Os Escândalos de uma Revolucionária”.

https://observador.pt/especiais/annie-silva-pais-a-vida-e-os-escandalos-da-filha-do-ultimo-diretor-da-pide/

“Apaixonou-se pela revolução. Não foi pelo dinheiro, nem pelas condições de vida. Abraçou o projeto, apaixonou-se pelo projeto”
José Covas, empresário português amigo de Annie

Do luxo à vida cubana

São os primeiros dias de janeiro de 1966. Annie volta a ser vista em Havana durante a Tri-Continental, a primeira Conferência de Solidariedade dos Povos de África, Ásia e América Latina. O evento é tão grande e reúne tanta gente de várias partes do mundo que a portuguesa pode voltar a viver fora do secretismo dos últimos meses sem dar nas vistas.

Tal como os cubanos tinham prometido, a filha do diretor da polícia política do Estado Novo não foi usada para criar um escândalo que pudesse prejudicar o regime de Salazar. Voltou simplesmente a ser avistada nas ruas da cidade, como se nada tivesse acontecido, pronta para começar uma nova vida, como uma cubana — e bem longe do luxo a que antes tinha direito como mulher de um diplomata.

Para Fernando Silva Pais e Armanda Palhota foi “alívio” — a que se seguiu uma fase de inevitável “choque”. O pai e a mãe de Annie, que tinham passado os últimos dois meses em cuidados, sem notícias dela, ficaram “logicamente zangados”, diz a prima Madalena Nita Palhota. Principalmente porque “pôs toda a família, principalmente o pai, numa situação complexa”.

A filha do diretor da PIDE tinha acabado de largar tudo para se juntar à revolução cubana. Não havia forma de o próprio Silva Pais não sair mal no retrato — tanto que a primeira coisa que fez foi apresentar a demissão ao Presidente do Conselho, que achou por bem não a aceitar e ordenar-lhe que se mantivesse em funções.

José Covas, que chegou a transportar correspondência entre Annie e a família, garante que a decisão não foi um ato de afronta aos pais. “Apaixonou-se pela revolução. Não foi pelo dinheiro, nem pelas condições de vida. Abraçou o projeto, apaixonou-se pelo projeto”, diz o empresário e amigo comunista da portuguesa, também entrevistado para “Os Escândalos de uma Revolucionária”.

Depois de dois meses escondida numa casa que o regime cubano lhe arranjou, Annie Silva Pais, a mulher que vivia na zona mais luxuosa de Havana, instalou-se sozinha no número 1456 da Calle 33, no bairro do Nuevo Vedado, numa casa cedida pelo estado cubano.

“Há o centro da Habana, Habana Vieja, colonial, etc, depois atravessa-se o rio e entra-se na zona mais chique. Aliás, as pessoas de cor no tempo da ditadura do Batista não podiam passar aquela ponte sobre o rio. Só brancos é que podiam passar. E depois há uns bairros melhores, que é o Vedado, a seguir o Nuevo Vedado e depois a zona das embaixadas onde está a residência de Portugal, que é designado pelo Country Club”, descreve o embaixador Alfredo Duarte Costa. Apesar de nunca ter conhecido Annie, diz que a casa onde ela morou se destacava por ter uma “arquitetura fora do normal”.

Já Rui Ferreira e o empresário José Paulo Fafe, que viveu em Cuba durante os anos em que o pai foi embaixador de Portugal em Havana e conheceu Annie quando era adolescente, recordam uma casa humilde, onde sempre houve fotografias dos pais — e também uma grande moldura onde se podiam ver Che Guevara e Fidel Castro a andar por um corredor. A completar a decoração, descrevem, Annie tinha uma imagem da Virgem de Fátima, um galo de Barcelos e uma matrioska russa.

Mora na companhia de dois cães e leva uma vida simples. Começa logo a trabalhar na Organização de Solidariedade com os Povos de África, Ásia e América Latina, um organismo que serviu para apoiar a Tri-Continental. Depois, passa para o Departamento de Guias e Congressos do Instituto Cubano de Amizade com os Povos, onde só trabalham pessoas de confiança do regime cubano. E, mais tarde, será integrada na Equipa de Serviços de Tradutores e Intérpretes de Cuba e vai tornar-se uma das tradutoras mais respeitadas e requisitadas.

Tal como fazem os cubanos, na sua nova vida Annie passa a ter de usar senhas de racionamento para comprar bens essenciais. Aliás, Raymond Quendoz fica a saber que a mulher voltou a Havana exatamente por isso: um antigo colega conta-lhe que a viram com uma senha na mão, numa fila para comprar comida. O diplomata suíço considera a mudança tão abjeta que nem sequer tenta contactá-la. Décadas depois, em entrevista aos autores de “A filha rebelde”, há de explicar porquê: “Para mim, ter uma mulher que se passou para um regime comunista era intolerável”.

Ao contrário do que fazia na embaixada, Annie passa a comprar comida e a cozinhar. Rui Ferreira, que foi visita habitual dela durante vários anos, lembra-se que a comida que fazia era sempre cubana. “Não fazia nada português”, era quase sempre “arroz com feijão e frango”.

E a vontade de se integrar na sociedade cubana era tanta que, de vez em quando, usava o uniforme dos membros das milícias nacionais revolucionárias, criadas para defender o novo regime, mas também para mobilizar civis. Vestia “umas calças beges, com uma camisa estilo ganga e boina”. José Paulo Fafe conta que Annie aparecia “toda orgulhosa, com o seu uniforme, porque estava de serviço nesse fim de semana”.

Apesar da vida de cubana que sempre quis ter, Annie tinha um bom salário para os padrões de Cuba, como funcionária da Equipa de Serviços de Tradutores e Intérpretes. Falava várias línguas e durante a vida profissional viajou para dezenas de países em trabalho. A ligação de Annie ao regime é tão grande que leva os próprios amigos portugueses a terem algumas cautelas

Apesar da mudança radical de vida, Annie nunca deixou de ter contacto com embaixadores e embaixatrizes, principalmente os portugueses. O filho de José Fernandes Fafe lembra que Annie era uma visita habitual na embaixada e se tornou amiga da família, principalmente da mãe dele. Conviviam muito, principalmente aos fins de semana, em longos almoços e jantares. “Ela defendia a revolução cubana de uma forma exacerbada, às vezes até ridícula. Na altura até me picava com ela e picava-a muito. Ela não tinha limites na defesa da revolução cubana, era mais fidelista que o Fidel.”

Fafe recorda-se do dia em que a mãe foi à loja diplomática, viu um ferro de engomar e lembrou-se de o comprar para Annie, que não tinha um há pelo menos dois anos. “E o trabalhão que foi para a Annie aceitar o ferro, porque a Annie achava que não devia aceitar o ferro, porque as pessoas do prédio onde ela vivia não tinham ferro de engomar”, conta, décadas depois, o empresário. Depois de a amiga muito teimar, Annie acabou por aceitar o ferro. Mas a história não terminou por aí: “Daí a um mês, um mês e meio, a minha mãe disse-me: ‘Eu já não tenho paciência para esta Annie! Então não é que ela agora pôs o ferro à disposição do prédio?!’”.

Apesar da vida de cubana que sempre quis ter, Annie tinha um bom salário para os padrões de Cuba, como funcionária da Equipa de Serviços de Tradutores e Intérpretes. Falava várias línguas e durante a vida profissional viajou para dezenas de países, principalmente para ser intérprete das grandes figuras do regime cubano. Já em Cuba era responsável pela tradução de personalidades políticas que visitavam o país.

A ligação de Annie ao regime era tão grande, conta José Paulo Fafe, que os próprios amigos portugueses tinham algumas cautelas com ela. Um desses casos aconteceu em abril de 1975, quando Kenneth Kaunda, Presidente da Zâmbia, esteve em Havana, numa altura em que os dois países partilhavam interesses no apoio aos movimentos de libertação em África, nomeadamente em Angola.

O Presidente da Zâmbia queria encontrar-se com o embaixador português justamente por causa da guerra no país, que tinha começado em 1961. O caminho para a independência tinha sido iniciado após o 25 de Abril, mas o conflito ainda não tinha terminado. Como era habitual, ainda mais com um português envolvido, Annie foi chamada pelo regime cubano para ser a intérprete da conversa.

Porém, o embaixador José Fernandes Fafe recusou e preferiu os serviços de tradução do próprio filho adolescente. Mandou o motorista ir buscá-lo à escola e perguntou-lhe se se “aguentava bem no inglês”. “Eu fui, com 14 anos, miúdo, ao Country Club, às redes de protocolo cubanas, servir de intérprete entre o meu pai e o Kaunda porque o meu pai não confiava nos intérpretes, no caso, na Annie”, explica, justificando que o responsável português em Cuba “sabia distinguir as coisas”. “Amigo, amigo, mas calma, porque estávamos na altura de Angola.”

Durante toda a vida, Annie Silva Pais nunca voltaria a viver definitivamente em Portugal. Esteve no país a colaborar com a 5.ª Divisão após o 25 de Abril, com o objetivo de ajudar o pai que tinha sido detido, mas manteve sempre a casa em Cuba e foi para lá que voltou após o 25 de Novembro. Nunca abdicou dos ideais que a levaram a fugir do marido e a trair os princípios da família. Morreu no dia 17 de julho de 1990, com apenas 54 anos, vítima de um cancro, em Havana. Foi lá também que escolheu ser sepultada.

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