Foi um choque a vários níveis. Um choque porque, apesar daquela derrota na ronda inaugural do Masters de Cincinnati frente ao argentino Thiago Agustín Tirante, todos o colocavam no mínimo nos quartos de final da prova. Um choque porque, ao longo de um encontro longo a cinco sets, foram deixados sinais a que ninguém estava habituado – vómitos, fraqueza, incapacidade de puxar para o seu lado os pontos-chave do encontro. Um choque porque, mesmo estando a fazer uma boa temporada, o também argentino Mariano Navone seria sempre o outsider. 70 erros não forçados depois, Novak Djokovic caiu na ronda inaugural do US Open.
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“Foi uma sensação horrível. É algo que me tem acompanhado todos os encontros este ano, infelizmente. O corpo começa a colapsar, com cãibras e dores. As costas no final desistiram, tal como os ombros e não consegui fechar o encontro. O amor e o apreço que me deram no final tocaram-me realmente o coração. Foram incríveis. Sou muito grato por ter vivido isto. Foi óbvia a sensação horrível em court para mim. A forma como me senti fisicamente não foi nada agradável. Desprezei praticamente todos os momentos que passei em court por causa disso. Pensei em desistir mas ganhei o segundo e o terceiro sets e pensei que talvez houvesse uma oportunidade. Não queria render-me”, comentou o jogador sérvio no final.
A partir daí, falou-se de tudo e mais alguma coisa sobre o jogador que fará 40 anos em maio e que bateu quase todos os recordes no mundo do ténis – a começar pelo número de Grand Slams conquistados, acima de Rafa Nadal e Roger Federer. Era o fim definitivo? Haveria ainda mais algum capítulo possível num Major a começar pelo próximo Open da Austrália? Para onde seguia a carreira do balcânico? Agora, a dúvida ainda era outra: como iria reaparecer um mês depois dessa derrota em Nova Iorque num torneio que se tornou “seu” com o passar dos anos como o Open de Pequim? Em parte, Nuno Borges estava nessa resposta.
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Em seis participações com outros tantos títulos no torneio 500 chinês, Djokovic apresentava números fora do comum: 29 vitórias em 29 partidas disputadas entre 2009 e 2015, 27 sets consecutivos conquistados numa série que estava ainda a decorrer. Mais de uma década depois, o sérvio voltava a Pequim para agarrar nesse autêntico bastião de carreira e mostrar que ainda estava vivo na modalidade, numa altura em que saiu pela primeira vez desde 2018 do top 10 do ranking mundial ATP. Já o português, que após chegar aos oitavos do Masters de Cincinnati e de cair na primeira ronda do US Open diante de Learner Tien venceu as partidas que realizou por Portugal na eliminatória frente a El Salvador na Taça Davis, queria ter uma palavra a dizer.
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“Vai ser um desafio grande. É engraçado que ele nunca perdeu aqui mas já não jogava desde 2015, claro que muita coisa já se passou entretanto. Obviamente que ele gosta destas condições. É um torneio muito forte. Já sabia que a probabilidade de jogar com um jogador de topo era grande. De certa maneira, estava preparado para isso. Estou entusiasmado para jogar com bastante público e num estádio grande. É a minha primeira vez em Pequim, mas até são condições bastante confortáveis para se jogar bem ténis. Agora, claro que tenho um desafio muito grande pela frente. Espero estar à altura, fazer um bom jogo e, quem sabe, pode ser que ele me dê algumas oportunidades…”, apontava o jogador maiato antes da partida à agência Lusa.
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“A pressão não está do meu lado, a estatística está toda do lado dele. Ele nunca perdeu aqui em Pequim e já me ganhou uma vez. De certa maneira, vou tentar passar a pressão para o outro lado, tentar desfrutar e trazer o meu melhor ténis. Pode ser que consiga jogar bem”, acrescentava, tendo também na memória o último duelo que teve frente a Djokovic no ano passado, em novembro, no Open de Atenas (7-6 e 6-4).
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Mais do que as oportunidades que o sérvio podia dar, foi Nuno Borges a começar a dar uma oportunidade de ouro para o adversário estabilizar uma possível ansiedade que pudesse surgir no arranque da partida: 1-0 com apenas um ponto cedido, break no primeiro jogo de serviço de Nuno Borges, 3-0 confirmado de novo somente com um ponto cedido. Antes do primeiro encontro a servir Djokovic já estava a alongar, a esticar as pernas e a soltar os braços como se estivesse num quinto set, mas conseguira uma vantagem que seria de ouro face à boa reação do português, que não só começou a segurar os seus serviços como a pressionar os jogos de Djokovic, tendo mesmo dois pontos de break não concretizados antes do 5-2 e do posterior 6-3.
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O antigo número 1 mundial ganhava o 28.º set seguido em Pequim, neste caso com um hiato de 11 anos, mas nada parecia (ainda) resolvido. Nuno Borges estava com maior percentagem de pontos ganhos no primeiro e no segundo serviços mas não conseguiu aproveitar as anormais duplas faltas do adversário para ganhar esse ascendente na partida entre alguns erros não forçados com bolas na rede em pontos-chave. Mais: Djokovic ia dando sinais de um desgaste físico inesperado tratando-se apenas da primeira partida do Open de Pequim, tendo mesmo ficado de mãos nos joelhos após uma troca de bolas mais longa antes do 2-1. O sérvio seria ainda assistido a meio de um set que, entre um break salvo por Nuno Borges, acabou por seguir para o tie break. Aí, um ponto ditou tudo o resto: a agarrar-se a tudo o que tinha ainda em termos físicos, Djokovic fez o 1-0 numa das trocas de bola mais longas, seguiu para o 3-0 e fechou mesmo o encontro por 7-2.