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(A) :: Conversas em agosto, mudança em Oslo, ameaça na véspera, "traição" e equívocos: como o "caso-não caso" se tornou o fim de Ronaldo na Seleção

Conversas em agosto, mudança em Oslo, ameaça na véspera, "traição" e equívocos: como o "caso-não caso" se tornou o fim de Ronaldo na Seleção

Proença antecipou viagem por saber que Ronaldo podia deixar estágio. Não foi aí, foi 24 horas depois. Pelo meio, houve a conferência de Jesus. Antes, vários capítulos. A partir de agora, ninguém sabe.

Bruno Roseiro
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Em agosto, tudo aconteceu. Foi nesse mês que Cristiano Ronaldo terminou as férias depois do Campeonato do Mundo de 2026 que acabou de forma precoce com uma derrota diante da futura vencedora Espanha nos oitavos, foi nesse mês que Cristiano Ronaldo casou numa cerimónia muito discreta em família com Georgina Rodríguez, foi nesse mês que regressou mais tarde aos trabalhos no Al Nassr devidamente autorizado pelo novo técnico Ange Postecoglou e toda a estrutura, foi nesse mês que fez a estreia oficial em 2026/27 com um golo frente ao Al Riyadh tendo saído do banco para a última meia hora. Foi também nesse mês, de uma forma definitiva, que tomou uma decisão em torno do seu futuro como capitão da Seleção Nacional.

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Mais do que uma primeira reunião com o novo selecionador, Ronaldo teve um encontro, privado, que pode ter acontecido mesmo em casa do jogador, com o treinador com quem trabalhara em 2025/26, Jorge Jesus. Realizou 37 encontros oficiais pelo Al Nassr sendo substituído na parte final em quase metade (17), voltou a atingir a barreira dos 30 ou mais golos pelo clube (30), terminou como campeão saudita como há muito procurava. Mais: tudo isso foi feito com uma preparação que visava também o momento que iria atravessar entre junho e julho, na fase final do seu sexto Mundial. A relação sempre foi boa, com o passar dos meses foi ganhando até alguma cumplicidade, ambos respeitavam a figura que tinham à frente e o que representava.

Foi nesse contexto de confiança que Jesus fez ver a Ronaldo que ainda contava com o capitão para os jogos da Seleção, neste caso a breve prazo olhando para as partidas da primeira fase da Liga das Nações. O jogador chegou a admitir encerrar o capítulo por Portugal após a eliminação no Mundial mas esse nunca chegou a ser um tema em cima da mesa de forma real. Com as palavras do técnico, ainda menos. Ronaldo também falou, num outro momento, com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, mas foi com as ideias de Jorge Jesus que interiorizou a ideia de ter ainda capítulos por escrever na Seleção. Curiosamente, foi por parte dessa mesma conversa que houve quase dois dias de mal-estar… até à noite de terça-feira.

Houve muita especulação sobre o peso que o capitão teve para a contratação de Jorge Jesus. A certa altura, chegou mesmo a dizer-se que Ronaldo teve um peso quase determinante na escolha – mas não foi bem assim, acrescente-se. Com a saída de Roberto Martínez, com quem o avançado tinha uma boa relação, e com as hipóteses que estavam em cima da mesa entre as opções nacionais, a escolha tornou-se quase “óbvia”. Foi Pedro Proença que chamou a si e assumiu essa decisão, sabendo que o impacto no grupo de jogadores seria positivo. Antes, como confirmou o Observador em junho, a possibilidade de José Mourinho, que ia ganhando força antes da Final Four da Liga das Nações de 2025 que terminou com o triunfo de Portugal e “adiou” as mudanças pretendidas no comando técnico, gerava um menor consenso interno. Já Jesus era bem aceite por Ronaldo, pelos outros capitães e por todos os elementos, que reconheciam o trabalho ao longo de 35 anos.

“Golo 1.000 ou a Liga das Nações? Os dois, o objetivo é chegar aos dois, atingir os 1.000 golos e ganhar a Liga das Nações. Esta é uma nova era, sendo que devemos dar os parabéns ao trabalho que o mister [Roberto] Martínez fez, noutro país e com todos os ataques que lhe fizeram. Agora temos o mister Jorge Jesus, que todos conhecem e tenho a certeza que vai correr bem. O que acho da escolha? Jorge Jesus foi uma escolha perfeita. É um ar diferente, ideias diferentes e um idioma diferente. Como o mister disse, muitos já trabalharam com ele, o que facilita as coisas. O mister vai ficar muitos anos e acho que foi a escolha perfeita”, comentou Ronaldo na conferência de imprensa antes da partida com o País de Gales no Estádio José Alvalade, que iria marcar a estreia de Portugal nesta Liga A da Liga das Nações. E não ficou por aí.

Voltando a dizer que as críticas não o afetam, e assegurando que irá avisar antes de fazer o último encontro pela Seleção, o avançado não teve problemas em assumir que não estaria os 90 minutos dos quatro jogos de Portugal diante do País de Gales, da Noruega (duas vezes) e da Dinamarca. “Aprendi aos 30 e poucos anos a viver o momento, por isso não sei. Mas é muito possível que seja o último ano. Se aviso antes? Sim, vou avisar… Como me sinto em termos físicos? Tens visto os jogos do Al Nassr? Olha posso garantir que não vou jogar os 90 minutos nestes quatro jogos. Quando sentir que não estou aqui a fazer nada, sou o primeiro a fazer as malas”, comentou antes de uma frase que acabou por passar quase despercebida no meio da conferência menos convencional, realizada no Portugal Football Summit, mas que não era habitual.

“Tudo o que o mister precisar, eu estou disponível. Seja para jogar, seja para entrar, seja para não jogar… Ninguém tem mais internacionalizações do que eu, venho porque quero ajudar na Seleção. Sei que o mister conta comigo e não estou aqui pelo currículo mas pelo que faço no clube”. Ronaldo já tinha dito várias vezes que estava para ajudar Portugal e que se encontrava disponível para fazer o que fosse necessário. O que não era tão habitual, ou era mesmo raro, era ver o capitão assumir que podia ser suplente utilizado ou ficar na bancada. Não foi por acaso que o número 7 disse isso. Aliás, com ele nada é por acaso. E é aqui que se volta à tal conversa em agosto entre Ronaldo e Jesus, que preparou os primeiros quatro jogos nacionais.

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Quando Jesus assumiu o comando do Al Nassr no verão de 2025, depois da passagem (com sucesso) pelo rival Al Hilal nas duas épocas anteriores, Ronaldo foi uma das principais razões para essa tomada de decisão. A possibilidade de poder trabalhar com o avançado pesou, a perspetiva de lutar para quebrar um longo jejum sem títulos do conjunto de Riade também. Logo após os primeiros jogos oficiais, o técnico desfazia-se em elogios sobre o avançado. “É um grande exemplo para o mundo do futebol. O Al Nassr merece ter esta estrela global, que vai ajudar a ganhar títulos esta época. Aos 40 anos, ainda está ao mais alto nível atlético. É profissional e não tenho dúvidas de que é o melhor do mundo. Como português, tenho orgulho em poder treiná-lo. Ainda hoje, uns 80% dos adeptos vieram apenas para ver o Ronaldo”, frisou em agosto de 2025.

Exatamente um ano depois, na conversa com o jogador que deixara de ser “seu” no clube mas passara a ser “seu” na Seleção, Jesus não fugiu aos mesmos elogios. Pelo contrário. No entanto, também fez ver que queria o melhor para Portugal e para o próprio Ronaldo, explicando de forma detalhada como via este primeiro ciclo de encontros com grande densidade competitiva ao longo de duas semanas. Por um lado, e numa fase em que ainda não é fácil ao selecionador mudar por completo o chip que existia com Roberto Martínez, cada partida teria uma abordagem e modelo diferentes dentro da mesma ideia de jogo. Por outro, seria complicado um jogador fazer os 360 minutos a não ser Diogo Costa e a dupla de centrais, Rúben Dias e Renato Veiga.

O que significava isso em termos práticos? Ronaldo ficava apontado a ser titular na estreia diante do País de Gales, mantinha-se com o grupo nas passagens pela Noruega e pela Dinamarca não sendo opção e voltava a ser uma aposta inicial na receção à Noruega, no Dragão. Havia uma parte física, de estar a 100% para render o máximo possível quando a equipa “pedia” Ronaldo, existiam também questões de jogo superiores a tudo o resto. Quantas vezes tocou Gonçalo Ramos na bola em Oslo? Não muitas. Em apoios frontais, a jogar de primeira na profundidade em busca da velocidade dos alas, a surgir em zonas de finalização para aproveitar as potenciais oportunidades criadas. Onde fez a diferença? Na forma como assumiu o papel de primeiro defesa sem bola pressionando a saída de bola dos noruegueses a partir de trás pelo corredor central. Ou seja, e em resumo, o encontro pedia um 9 como Ramos e não como Ronaldo (ou como Fábio Silva). Isso e só isso.

Ronaldo percebeu os argumentos de Jesus. Aceitou-os. Soube separar a possibilidade de não jogar dois dos quatro encontros de Portugal nesta paragem para a Liga das Nações dos elogios que o novo selecionador lhe voltou a fazer perante o peso que tem na equipa, na Federação e no futebol mundial. Foi também com esse contexto que abordou a partida com o País de Gales na antecâmara. Jogou 67 minutos, teve um golo anulado pelo VAR por fora de jogo, falhou duas boas oportunidades (uma flagrante na pequena área por chegar atrasado para o último toque), saiu “a bem”, acabou de novo elogiado por Jesus apesar da substituição. “Foi o que o jogo ditou, estava pensado. Precisava de um jogador que estivesse fresquinho para condicionar a saída de bola deles. Pode não ter tecnicamente a qualidade do Cristiano mas sabia o que o Gonçalo Ramos nos iria dar, sobretudo a nível defensivo. Fiquei satisfeito”, comentou o técnico depois do triunfo por 1-0.

Portugal partiu depois para Oslo, tendo em vista a partida frente à Noruega. Nada faria prever tudo o que se passou ao longo da última semana. Mais: Ronaldo sabia que não seria opção na segunda partida da Liga das Nações. Foi isso que aconteceu por linhas tortas. Assim se escreveu tudo menos direito. Para todos.

De acordo com o que o Observador apurou, a viagem de Pedro Proença para Malmö foi antecipada, tendo em conta que tinha o trajeto “programado” para a manhã de quinta-feira para Copenhaga depois de acompanhar o apuramento da Seleção Sub-21 para o Campeonato da Europa da categoria no triunfo frente a Gibraltar em São Miguel, nos Açores. Assim, quando surgiram notícias sobre uma reunião entre Jorge Jesus e Cristiano Ronaldo que teria apaziguado todo o ambiente, e que existiu, a presença do líder federativo quase parecia esvaziada apesar de haver um encontro com a dupla marcado para a manhã desta quarta-feira. Questão: Proença sabia que, após esse encontro, o avançado tinha ideia de deixar o estágio. Aí, nada aconteceu. Menos de 24 horas depois, o final foi outro. Agora, procuram-se “culpados” numa novela sem inocentes.

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Ainda não se conhecem todos os capítulos. Por um lado, a versão de Ronaldo, um dos lados da questão. Por outro, os esclarecimentos de Pedro Proença, o fiel da balança que ouviu os argumentos de ambas as partes. No limite, a própria reação de Jesus depois da saída do número 7 da concentração. No entanto, o “gatilho” para tudo foi mesmo o que se passou no dia do jogo com a Noruega. De manhã, quando o avançado soube que em vez de ir para a bancada passaria a começar no banco com a “promessa” de jogar 20/30 minutos. No jogo, quando esteve cerca de meia hora em exercícios na zona de aquecimento. No final da partida, quando foi direto para os balneários e não teve depois qualquer palavra nessa noite do treinador. Quando os elementos federativos (que não apenas Proença) perceberam que o que aparentava ser pequeno se tinha tornado numa autêntica bola de neve, já era tarde para encontrar um ponto de reversão neste caso.

Depois da conversa a dois, a reunião a três, uma conferência e o adeus de jato privado

Antes da tão aguardada conferência de imprensa de Jorge Jesus, neste caso de antevisão ao encontro frente à Dinamarca, as duas partes admitiam erros em esferas privadas. Ronaldo foi tendo a perceção de que toda a sua máquina de comunicação não estava a conseguir transmitir a imagem do que estava realmente em causa, o que abria margem para considerarem que se tratava de uma mera “birra”. Já Jesus assumia que a ideia de ter levado o avançado para o banco e não o lançar na segunda parte apesar de ter estado na zona de aquecimento causou desagrado ao jogador – mas provavelmente faria o mesmo em circunstâncias iguais. E se alguém esperava algum tipo de desculpas por parte do treinador, acabou por ouvir… quase o inverso.

“Quero fazer uma introdução. O mais importante é o objetivo daquilo que viemos fazer a Copenhaga, é o respeito pelo adversário. Vamos jogar com um grande adversário e temos a missão de conquistar a Liga das Nações. Não tenho um jogador, tenho 23 jogadores [n.d.r. que são 25]. Podem pôr as questões que quiserem sobre qualquer jogador. Quanto ao Ronaldo, uma pergunta é pouco, três é de mais. Só deixo fazer duas perguntas sobre o Ronaldo. O Ronaldo não é o principal tema de estar aqui, o principal é a Dinamarca e eu que sou selecionador nacional”, começou por balizar Jesus, num repto que acabou por ser “alargado”.

“É verdade que fiz uma combinação, criámos um plano para ele como fizemos com o Bruno Fernandes. Disse ao Cris que no jogo na Noruega e no jogo na Dinamarca ele não iria jogar. Eu trabalhei um ano com o Cris, não cheguei há três meses à Seleção e conheci o Cris. Conheço completamente as condições físicas do Cris e sei, porque já o fazia na Arábia Saudita, que quando havia jogos de três em três dias, raramente o Cris jogava. Além disso, o Cris nunca treina no primeiro nem no segundo dia após o jogo, nunca. Combinei isso com ele. Quando tivemos a primeira conferência de imprensa, em Portugal, ele falou sobre isto: ‘Se é para jogar jogo, se é para ficar no banco fico, é o que o míster quiser’. Nunca se negou a nada. Foi isso que aconteceu. Só que eu sou um treinador que vou para o banco e não penso que aos 60 minutos vou tirar ou meter este ou aquele, não funciono assim. O jogo é que me vai dizer o que vou fazer. Tinha combinado que não jogava estes dois jogos mas que se calhar até ia precisar dele nos últimos minutos. O jogo disse-me outras coisas, eu não o coloquei no jogo. Isto é o ponto verdadeiro”, apontou o selecionador, afastando qualquer problema com CR7.

“Não há caso nenhum. Já tive casos com muitos jogadores, não queiram fazer disto um caso que não existe. Tinha um plano com o Bruno, tudo igual. Isto para vos dizer que o estatuto é uma coisa, as regras é que são iguais para todos. O estatuto permite ao jogador, pelo seu passado, que o treinador tenha cuidado com as decisões antes do jogo acontecer. Depois do jogo acontecer é a mesma coisa. O treinador tem de decidir e decide sempre em função do objetivo que é o melhor para a equipa. O estatuto do jogador não dá direitos que sejam diferenciados, o estatuto é o respeito pela carreira deles, como faço com todos, com o Cris, com outros que tive na carreira. Coloco sempre a questão do que quero fazer, do plano que quero traçar com o jogador e depois quem decide sou eu. Eles sabem, todos sabem que trabalharam comigo. Até os presidentes sabem. Num clube manda um presidente, na equipa mando eu”, salientou Jorge Jesus.

“O Cris não se recusou a treinar. Não treinou o Francisco Conceição, que estava lesionado, e o Félix, porque tentámos descarregar a fadiga e vamos ver amanhã. O Cris fez trabalho de ginásio. Fez mobilização no campo e depois fez trabalho de reforço para o hotel. Não recusou. Hoje vai treinar. É o quarto dia, portanto vai treinar. Vocês acham mesmo que algum jogador de uma seleção se recusa a treinar, de Portugal ou qualquer outra? Só se se quiser ir embora e tiver outras ideias, ninguém se recusa a treinar”, referiu, numa ideia que acabaria por ser quase uma premonição para o que estava a caminho de acontecer – e que era tudo menos trabalhar normalmente integrado com os restantes companheiros no relvado antes do jogo no Parken.

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“Eu disse ao Cris que ele não ia jogar estes dois jogos. Pensei depois que durante o jogo se calhar podia precisar. Vai aquecer, depois não o pus no jogo. Qualquer jogador, quando andamos ali a aquecer 20 ou 30 minutos, e depois não entra, não gosta. Não há nenhum que fique contente, quanto mais o Cris, como o Pelé ou o Maradona. É esse o estatuto. Os direitos são iguais e como treinador decidi que não entrava. Porque falei com ele na terça-feira à noite? Obrigaram-me a falar com o Cris de um caso que não havia. Eu disse ‘Cris, em Portugal está a falar-se tanto que temos de falar, não estou a perceber o que está a acontecer’. Não havia nada para falar. O que falámos é o que ele disse. Ele disse: ‘Estou aqui para tu decidires. Queres que eu jogue, eu jogo. Queres que eu vá para bancada, eu vou’. O presidente veio, é óbvio, tem de estar aqui, com a equipa. Falando o que se estava a falar em Portugal, quis saber o que se passou. Mas depois de jantar já tínhamos resolvido o problema que não era problema…”, assegurou Jesus (mesmo não sendo assim).

https://observador.pt/2026/09/30/ja-tive-casos-com-muitos-jogadores-com-o-cris-nao-existe-as-explicacoes-de-jorge-jesus-apos-a-novela-com-ronaldo/

“Posso prometer o que eu quiser. Sou o treinador, disse ao jogador que não era para jogar. Disse: ‘Vou levar-te para o banco, se precisar de ti 30 minutos vais jogar, se não, não vais jogar’. Nunca nenhum jogador vai mudar as minhas ideias, nem ele nem ninguém no futebol. O que prometi? Não ia lançá-lo no jogo mas disse que se precisasse ia jogar 20 ou 30 minutos e ele disse ‘Tudo bem’. Chegou ao jogo, mandei aquecer aos 45′, eu não sabia o que ia fazer. Isso foi o que fiz mal, devia tê-lo metido a aquecer uns 15 minutos mais tarde. Não sabia o que ia acontecer, comecei a ver e não o pus. O presidente Proença falou comigo e com o Cris porque é o papel de um presidente. Falar com o capitão, com o treinador quando há ruídos. Se não houvesse esse caso ele vinha na mesma, mas estivemos a falar os três. Já tinha falado com o Cris depois do jantar. Ele não veio resolver nada porque não havia nada para resolver”, voltou a frisar.

https://observador.pt/2026/09/30/proenca-viajou-mais-cedo-afinal-nao-valia-a-pena-ronaldo-e-jesus-reuniram-falaram-e-superaram-alegado-desentendimento/

Dava a ideia de que tudo estava definitivamente resolvido. Aliás, sobrava até a ideia de que o foco deveria ser recentrado na partida frente à Dinamarca depois de todo o turbilhão. Jesus, visivelmente aliviado pela forma como correra a conferência de imprensa, percebeu no relvado que algo não estava bem. Logo nos instantes iniciais abertos à comunicação social, o técnico estava ao telefone com um semblante bem mais carregado. Aliás, na zona de entrevistas rápidas da SportTV e da RTP, que têm os direitos de transmissão do Dinamarca-Portugal, a forma como falou já foi bem mais contida do que uns minutos antes. No entanto, era demasiado tarde e, quando acabou esse período, passou pelo balneário e subiu para iniciar o treino, Ronaldo tinha deixado o Parken numa carrinha preta com o logo da FPF no vidro da frente para voltar ao hotel.

O capitão marcava uma posição e endurecia o braço de ferro com o pedido para que o jato privado que estava em Madrid rumasse a Copenhaga. Pedro Proença, que deixaria mais tarde o Parken numa carrinha onde ia também Jorge Jesus (que não acompanhou os jogadores no autocarro no regresso ao hotel), tentava de novo segurar o número 7. Desta vez, nem ele, nem ninguém conseguiu. Mesmo quando em termos internos havia ainda alguma esperança que o avião regressasse a Espanha vazio, Ronaldo fez questão de dissipar dúvidas com três parágrafos na página oficial no Instagram que ficarão na história do futebol português.

“Após a conferência de imprensa do selecionador nacional, e no seguimento de uma conversa com o presidente da Federação Portuguesa de Futebol, tomei a decisão de deixar o estágio da Seleção Nacional. A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção.”

https://twitter.com/Cristiano/status/2105373136581546480

Nem sempre o avançado foi hábil nas comunicações e nas mensagens para fora. Desta vez, fez questão de dizer tudo enquanto não chega a explicação de todo o caso (pelo menos na sua versão): 1) a decisão foi tomada em definitivo depois da conferência de Jorge Jesus; 2) Pedro Proença tentou demovê-lo sem sucesso de deixar a concentração; 3) mais do que abandonar um estágio, e tendo em conta que não haverá qualquer mudança técnica a breve prazo, este era mesmo o fim de uma era de ouro na Seleção. Ficam apenas por saber todas as tais razões para uma tomada de posição tão drástica, com algumas pessoas próximas a garantirem que não tem nada a ver com essa ideia de que a equipa era mais importante do que o próprio.

https://twitter.com/livesfoot/status/2105439071015182582

A Federação, que neste processo até acabou por ser ultrapassada pelo próprio jogador podendo apenas confirmar e não “anunciar” que Ronaldo deixara Copenhaga, só confirmou com um lacónico comunicado a saída, ao mesmo tempo que referiu não haver qualquer reforço extra para os últimos dois encontros nesta paragem para seleções. “A FPF informa que o internacional português Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção Nacional, que decorre em Copenhaga. A preparação dos encontros frente à Dinamarca e à Noruega, este último a disputar no Estádio do Dragão, prosseguirá nos termos previstos, com os restantes 24 jogadores convocados. Toda a comitiva mantém o foco absoluto nos próximos compromissos da Seleção e na concretização dos objetivos definidos”, escreveu. Já Pedro Proença, que mesmo depois da publicação de Ronaldo continuou a tentar dissuadir o avançado da ideia até partir no domingo, deve falar no domingo, dia em que Portugal realiza o quarto e último encontro nesta fase da Liga das Nações diante da Noruega.

Em termos internos, e apesar da ameaça da véspera, tudo acabou por cair como uma “bomba”. Para já, a grande prioridade passa por chegar à terceira vitória consecutiva com a Dinamarca e evitar ao máximo a exposição do grupo a questões sobre Cristiano Ronaldo. Mais tarde, e num trabalho que já começa a ser feito pela cúpula dirigente, haverá a preparação para uma nova era na FPF também fora de campo, com a aposta em mostrar que a “máquina” consegue superar e funcionar sem um jogador e um capitão que era também por si só uma “marca”. O que não foi falado (nem deverá ser)? Uma potencial sanção de um a seis meses ao número 7 por abandonar a Seleção, à luz do Regulamento Disciplinar da FPF. Agora, e nas próximas semanas, todos percebem que haverá aspetos bem mais relevantes para ultrapassar na Cidade do Futebol.

Já do lado de Cristiano Ronaldo, que teve um início de temporada discreto pelo Al Nassr com apenas três golos em oito jogos entre alguns deslizes à mistura na Liga saudita e na Champions Asiática, chega ao fim um percurso que conseguiu arrebatar todos os recordes a nível de Seleção A entre 146 golos marcados ao longo de 246 internacionalizações, com participação em seis fases finais de Mundiais e outras tantas de Europeus com a conquista de um Campeonato da Europa e duas Ligas das Nações, a última no ano passado. No entanto, falta ainda um capítulo – aquele que ficou prometido na mensagem de despedida. E é esse momento que alguns temem que possa criar ainda mais réplicas dentro do abalo que foi este 30 de setembro. Para já, ao Observador, sobra uma ideia para descrever tudo o que se passou: “um conjunto de equívocos”.

https://twitter.com/elchiringuitotv/status/2105434580245225605

Exemplo prático? Comparar aquilo que Edu Aguirre, jornalista espanhol do El Chiringuito que é amigo de Ronaldo, referiu na perspetiva do jogador e aquilo que Jorge Jesus considerou na conferência. “Houve uma reunião terça-feira à noite. Jorge Jesus pede desculpas ao Cristiano pela desconsideração ao pô-lo a aquecer durante 30 minutos e não o colocar a jogar. Não só lhe pede desculpas em privado, como também lhe diz que vai pedir-lhe desculpas publicamente, que vai dizer publicamente que se equivocou. É a promessa do Jorge Jesus ao Cristiano. Depois vai para a conferência de imprensa e diz esta quantidade de mentiras em que ninguém acredita. Por isso é que o Cristiano explode, porque se sente traído”, começou por dizer.

“Não há mais nada, é mesmo assim. O teu treinador vem ter contigo em privado e diz: ‘Olha, vê lá, isto foi assim, entende-me, não geri bem a situação, estamos juntos, desculpa lá. Se tiver conferência vou esclarecer tudo, vou pedir desculpas, não te preocupes, vai correr tudo bem, vai ficar tudo resolvido’. Depois vais para a conferência de imprensa 12 horas mais tarde e deixas o Cristiano ainda pior, a armar-te em forte, a dizer que quem manda és tu e que o Cristiano é só mais um. Para casa e siga para outra. Por isso é que digo: traição”, acrescentou. No entanto, entre pessoas próximas de Jesus, sobrou a ideia de que, dentro do estilo que é conhecido por todos, o técnico assumiu esse mesmo erro em forma de desculpas na conferência…