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(A) :: Será que estamos todos enganados? 

Será que estamos todos enganados? 

O mercado não remunera títulos académicos. Remunera procura, escassez, organização e capacidade de criar um serviço pelo qual alguém esteja disposto a pagar.

Maria Asensio
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Uma vez por mês vou a um pequeno salão de cabeleireiro e estética, gerido por nepaleses, em Lisboa, para fazer as unhas. Já lá fui à hora do almoço, ao fim da tarde, depois do trabalho, e ao sábado. E adquiri um pequeno hábito enquanto espero: contar clientes. Nunca contei menos de dez pessoas atendidas durante a hora em que lá estou.

Não é um estudo científico. Não é uma amostra representativa. É apenas uma observação repetida, em dias e horários diferentes, que me começou a levantar uma pergunta muito simples: quanto fatura um negócio destes?

Façamos uma conta grosseira. Se cada cliente deixar, em média, 10 euros e houver dez clientes por hora, estamos a falar de 100 euros por hora. O salão abre aproximadamente das 10h às 20h: dez horas por dia, 1.000 euros por dia, 6.000 euros por semana, se abrir de segunda-feira a sábado. Se aquele ritmo se mantivesse ao longo das dez horas de abertura — uma hipótese, não um dado observado —, estaríamos a falar de cerca de 1.000 euros por dia, 6.000 por semana e perto de 26.000 euros num mês médio.

Naturalmente, faturação não é rendimento. Há rendas, salários, Segurança Social, eletricidade, água, produtos, equipamentos, impostos, seguros, contabilidade, perdas e risco empresarial. Mas continuo a sair de lá com a mesma pergunta: será que estamos todos enganados?

Durante décadas, ensinámos às classes médias uma determinada ideia de sucesso: estudar, entrar numa boa universidade, fazer uma licenciatura, talvez um mestrado, aprender línguas, conseguir um emprego qualificado, entrar num escritório às nove, sair às seis — quando se consegue sair às seis —, receber um salário ao fim do mês e progredir lentamente.

É o caminho socialmente reconhecido. E continua, naturalmente, a ser um bom caminho para muitas pessoas. O problema começa quando comparamos aquilo que foi prometido com aquilo que muitos jovens encontram quando chegam ao mercado de trabalho.

Um jovem economista, arquiteto, advogado ou engenheiro pode passar cinco anos na universidade e iniciar a vida profissional a receber pouco mais de mil euros. Por vezes menos. Pode trabalhar nove ou dez horas por dia, levar trabalho para casa, responder a emails à noite e passar duas horas em transportes. E pode descobrir, aos 28 ou 30 anos, que, apesar de ter feito tudo aquilo que lhe disseram ser necessário para integrar a classe média, continua sem conseguir pagar sozinho uma renda em Lisboa.

Entretanto, entra num pequeno salão e vê dez clientes numa hora. É difícil não fazer contas.

Continuamos também a atribuir estatutos sociais muito diferentes às profissões. Dizer que alguém é advogado, economista, arquiteto ou engenheiro continua a produzir uma determinada imagem. Dizer que alguém tem um salão de unhas, uma barbearia, uma pequena loja, uma lavandaria ou um restaurante produz outra. Mas o mercado não remunera títulos académicos. Remunera procura, escassez, organização e capacidade de criar um serviço pelo qual alguém esteja disposto a pagar.

Com o tempo percebi que o proprietário não gere apenas aquele espaço. Segundo me foi explicado, tem cinco estabelecimentos relativamente próximos entre si, entre o Areeiro, a Avenida de Roma e Almirante Reis. E é aqui que a história começa a ficar mais interessante.

O telefone do chefe toca constantemente. Um salão começa a encher, ele recebe a informação e dá instruções. Duas trabalhadoras saem de um estabelecimento e deslocam-se para outro. Se a procura aumenta num ponto, desloca-se mão de obra. Se abranda noutro, liberta-se capacidade. As trabalhadoras vão rodando entre os vários espaços em função do movimento.

É uma espécie de gestão de capacidade em tempo real, feita sem dashboards, sem software sofisticado e sem consultores. Um telefone, cinco lojas e observação permanente da procura.

Mas há mais. Os cinco estabelecimentos não praticam exatamente os mesmos preços. O do Areeiro é o mais barato. O da Avenida de Roma é mais caro. E isso parece ter lógica empresarial. O espaço da Avenida de Roma é maior e, provavelmente, a renda também será mais elevada. A localização, a dimensão e a estrutura de custos parecem refletir-se no preço cobrado ao cliente. Ou seja, não existe apenas uma rede de cinco lojas. Existe uma pequena segmentação interna: mesma lógica de negócio, mas preços diferentes consoante o local.

Existe ainda outro elemento de controlo. As câmaras de cada salão registam permanentemente o que se passa nos espaços. A sensação é a de uma operação observada ao detalhe: entradas, saídas, movimento de clientes, circulação de trabalhadores. Pelo menos, nunca presenciei qualquer reclamação.

E a organização vai mais longe. Dos cinco estabelecimentos, dois abrem também ao domingo. Porquê abrir todos, se a procura é menor? Se ao domingo há menos clientes, dois espaços parecem suficientes para concentrar a procura e continuar a faturar, evitando os custos de manter os cinco em funcionamento.

Durante a semana distribui-se. Quando a procura baixa, concentra-se. Quando uma loja enche, deslocam-se pessoas. Quando outra esvazia, reduz-se a equipa. Quando a localização muda, muda também o preço.

Que grande engenharia.

Não a engenharia que se aprende necessariamente numa universidade. A engenharia prática de quem percebe capacidade instalada, custos fixos, preços, localização, utilização dos recursos e rotação da mão de obra — sem lhe chamar nenhuma dessas coisas.

Há ainda outro detalhe que me impressiona naquele espaço. As únicas palavras que habitualmente ouço em português são as indispensáveis à relação com o cliente: “bom dia”, “gelinho ou normal?”, “mãos ou pés”. Todo o resto das conversas decorre numa língua que não compreendo — provavelmente sobretudo nepali e, por vezes, hindi.

Para quem está sentado do lado de cá, quase tudo é ininteligível. E, no entanto, nada parece falhar. Os clientes entram, escolhem a cor, sentam-se e pagam. As trabalhadoras circulam. O telefone toca. O chefe decide. E a máquina continua.

A língua portuguesa ocupa apenas o espaço necessário à transação. É quase um pequeno mundo económico e social instalado dentro da cidade. E isso também levanta uma pergunta interessante: até que ponto é necessário integrar-se culturalmente para conseguir integrar-se economicamente?

Seria, contudo, um erro transformar esta história numa celebração ingénua do empreendedorismo. Porque, quando olho para aquele salão cheio, penso também nas pessoas que lá trabalham.

Não conheço os contratos. Não conheço os salários. Não conheço a organização formal dos horários. Por isso, não posso transformar aquilo que observo em afirmações sobre eventuais incumprimentos laborais.

Mas há coisas que são visíveis. Já lá fui à hora do almoço e o salão continua a funcionar sem interrupção. Já lá fui ao fim do dia e ao sábado e encontro frequentemente as mesmas pessoas. Dois dos cinco estabelecimentos continuam abertos ao domingo. O negócio descansa pouco. E aparentemente algumas das pessoas que o fazem funcionar também.

Há momentos em que a fronteira entre empresa, família e vida quotidiana quase desaparece. Num dos espaços, enquanto os clientes entram e saem, o chefe aquece no micro-ondas a comida para uma criança que brinca no chão, junto ao ventilador que refresca o estabelecimento. As mulheres interrompem o trabalho por instantes e sentam-se a comer num canto mais sombrio do salão, comida aquecida naquele micro-ondas, antes de regressarem aos clientes.

Algumas delas são, segundo me foi dito, mulheres ou familiares dos proprietários. A criança brinca. As mulheres comem. O telefone toca. Duas recebem instruções para mudar de salão. Os clientes continuam a chegar. Entretanto, um jovem nepali, de cabelo comprido e corpo tatuado desce umas pequenas escadas que dão acesso a um piso superior e sai à rua para fumar um cigarro.

A cena poderia passar despercebida. Mas diz muito. Ali misturam-se trabalho, família, migração, língua, almoço, crianças, pausas, ordens, clientes e dinheiro. Tudo no mesmo espaço.

Talvez a rentabilidade não resulte apenas do número de clientes. Talvez resulte também da forma como todo o sistema está organizado: muitas horas de funcionamento, cinco estabelecimentos próximos, rotação de trabalhadores entre lojas, concentração da atividade em apenas duas lojas ao domingo, preços diferentes consoante a localização, trabalho familiar, utilização intensiva dos espaços, poucas horas mortas e grande capacidade de adaptação da mão de obra à procura.

É uma verdadeira engenharia de utilização de recursos.

Mas a eficiência tem custos que não aparecem na caixa registadora: horas de trabalho, sábados, domingos, refeições feitas num canto, férias que podem ser escassas, crianças que acompanham os adultos durante o trabalho, disponibilidade permanente e, eventualmente, remunerações modestas para quem executa uma parte importante do trabalho.

Isto não diminui o mérito empresarial de quem criou e expandiu o negócio. Mas impede-nos de fazer uma comparação demasiado simples.

Porque não podemos comparar diretamente 1.200 euros de salário num escritório com 26.000 euros de faturação mensal de um salão. São grandezas completamente diferentes. O que devemos comparar é rendimento líquido, horas trabalhadas, risco, investimento, proteção social, férias, tempo familiar, responsabilidade sobre trabalhadores e qualidade de vida.

Portugal realizou uma transformação educativa extraordinária nas últimas décadas. Foi necessária. Mas talvez tenhamos cometido um erro ao transformar a universidade não apenas numa possibilidade, mas quase numa obrigação social para quem quer ter sucesso.

Criámos a ideia de que o futuro pertence necessariamente ao trabalho intelectual, administrativo, digital ou altamente qualificado. E fomos desvalorizando os ofícios, os serviços e o pequeno empreendedorismo.

Talvez seja necessário voltar a dizer aos jovens uma coisa muito simples: abrir um negócio não é um plano B para quem não conseguiu um “bom emprego”. Pode ser uma escolha racional. Pode, em alguns casos, ser economicamente melhor.

Quando observo aquele salão cheio, penso no jovem de 25 anos que entra às nove num escritório. Tem licenciatura. Talvez tenha mestrado. Fala inglês. Domina Excel. Produz relatórios. Faz apresentações impecáveis. Participa em reuniões. Às seis da tarde continua ao computador. Recebe 1.100 ou 1.200 euros, ou ainda é explorado com 750 euros se está a iniciar o percurso profissional num contrato assinado cheio de ilegalidades, como que não pode engravidar durante o estágio remunerado.

E, a poucas ruas de distância, existe alguém que talvez não tenha feito o mesmo percurso académico, mas percebeu outra coisa. Arrendou um espaço. Depois outro. Depois outro. Hoje, segundo me dizem, são cinco.

Percebeu que as lojas têm de estar suficientemente próximas para permitir que as trabalhadoras circulem. Percebeu que não precisa de cobrar o mesmo em todo o lado. O Areeiro pode ser mais barato. A Avenida de Roma, com um espaço maior e provavelmente uma renda mais elevada, pode cobrar mais. Percebeu que, se a procura é menor ao domingo, não precisa de abrir cinco portas: abre duas. E percebeu que, se uma loja enche, basta pegar no telefone e mandar duas pessoas para lá.

Todos os dias observa aquilo que qualquer grande empresa tenta prever com sistemas sofisticados: onde está a procura, quanto pode cobrar e onde devem estar os recursos.

Que grande engenharia.

Não sei qual dos dois — o jovem no escritório ou o pequeno empresário — fez a escolha certa. Nem existe uma escolha certa para todos.

Mas talvez a pergunta que fazemos aos jovens esteja incompleta.

Perguntamos: “Que emprego queres ter?”

Talvez devêssemos perguntar também: “Que valor consegues criar que alguém esteja disposto a pagar?”

E logo a seguir: “Que vida estás disposto a ter para criar esse valor?”

Porque dez clientes por hora, a uma média de 10 euros cada, podem parecer uma fortuna.

Mas convém fazer todas as contas.

Não apenas as que entram na caixa.

Também as horas, os salários, os sábados, os domingos, as refeições feitas num canto, as férias que não se tiram, as crianças que brincam enquanto os adultos trabalham, o telefone que nunca deixa de tocar, as câmaras sempre ligadas, a disponibilidade permanente e o risco assumido.

Porque talvez a verdadeira pergunta seja esta: é preferível ser um jovem altamente qualificado, trabalhar num escritório e viver permanentemente apertado porque o salário mal chega para a renda, ou ser um pequeno empresário imigrante que construiu uma rede capaz de faturar dezenas de milhares de euros por mês?

A resposta não é tão simples como parece. Um tem mais proteção, previsibilidade e tempo; o outro assume risco, trabalha muitas mais horas e organiza a vida inteira em torno do negócio. Mas talvez seja precisamente essa comparação que nos obrigue a repensar aquilo a que continuamos a chamar “sucesso”.

E, entretanto, no imaginário português, continua a ecoar Boss AC: “É sexta-feira / Suei a semana inteira / No bolso não trago um tostão…”