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This Is Lorelei: é desta que damos ouvidos a Nate Amos?

Enquanto a "outra" banda do americano — os Water From Your Eyes — ia somando seguidores, este pseudónimo mais country-bluesy ficava meio anónimo. O novo "The Singer in my Band" pode mudar tudo.

João Bonifácio
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Nate Amos passou mais de uma década a repetir o mesmo gesto sem que daí adviessem quaisquer consequências: ligava-se ao wifi de casa e despejava no Bandcamp canções novas, mixtapes, EPs até que, disco após disco dos This Is Lorelei alojado na plataforma, gigabyte após gigabyte de música carregada para os entrefolhos da www, o público alcançado era (fazendo as contas) nenhum. É uma micro-história triste, mas não muito diferente do que acontece na arte em geral – ao fim e ao cabo, que percentagem de músicos é que realmente encontra uma audiência para a sua música?

A ironia é que Nate tinha audiência para a sua música – só não para a música que mais lhe interessava. Enquanto os This Is Lorelei acumulavam teias de aranha no lugar de plays, a sua “outra” banda, os Water From Your Eyes, somavam streams e iam-se tornando numa das bandas indie americanas mais celebradas da década. Ao menos Nate não passava fome para fazer a música que queria, já não é mau.

É aqui que entra a empatia, a velha ideia de nos colocarmos nos sapatos dos outros: imaginem que um valente número de pessoas adora o vosso trabalho de contabilidade, um curso que tiraram por recomendação dos vossos pais; mas o vosso sonho é a pastelaria, fazer bolos e doces – só que o grande público não liga nenhuma aos vossos bolos e doces; as únicas pessoas que gostam da vossa pastelaria são os outros mestres pasteleiros; infelizmente, por mais que os outros mestres pasteleiros elogiem a vossa pastelaria, esta não alcança qualquer êxito.

https://open.spotify.com/intl-pt/album/24cxezS5U9YTFapgKpYG16?si=FeC1grQJSoeCjJyfQ3AY2g

Parece piada, mas foi o que aconteceu a Amos, ou é o que ainda hoje acontece a Amos e vamos lá ver se o será depois do recém-lançado The Singer In My Band: a dada altura parecia que as únicas pessoas que falavam dos This Is Lorelei eram – além de cinco críticos virgens – os outros músicos, para quem ele era claramente um grande compositor. Gente como MJ Lenderman, Snail Mail, Waxahatchee, Jeff Tweedy, Hayley Williams, Cameron Winter, Phoebe Bridgers, enfim, companhia boa.

Em 2024, Nate, ou antes, This Is Lorelei, lançou Box for Buddy, Box for Star: um álbum original, 10 músicas; outra forma de descrever é: um grande disco, 10 grandes canções, e bastava Where’s your love now para ele merecer o estrelato. Mas não, ninguém ligou a este pequeno doce. Ninguém é como quem diz: em 2025 saiu Box for Buddy, Box for Star – Deluxe, que era o mesmo disco mas com três versões feitas por outros músicos: Angel’s Eye (Bob & Sarah Amos), Dancing in the Club (MJ Lenderman) e Two Legs (Snail Mail). Como disse: a obra deste pasteleiro só é apreciada por outros pasteleiros.

O que se tornou ainda mais claro este ano com Super Deluxe, que pega na ideia de Deluxe e a leva ao extremo: cada uma das 10 canções do álbum passou a ter uma versão feita por outro artista: às 3 do ano anterior juntaram-se as de malta como Hayley Williams, SASAMI, Jeff Tweedy, Waxahatchee, etc; cuido que a intenção comum a todos era não só fazer as versões mas sobretudo homenagear Nate e dizer ao mundo: este moço é tão bom pasteleiro quanto nós; porque é que vocês não provam os bolos dele?

Isto pode ou não ter sido um golpe de marketing, mas convém lembrar que antes destas gravações oficiais de canções de This Is Lorelei já os ditos artistas andavam a tocá-lo ao vivo: MJ Lenderman e Snail Mail já o tocavam nos seus concertos, por exemplo, enquanto Waxahatchee já tocava Where’s Your Love Now.

Será, então, desta? The Singer In My Band, o novo disco de This Is Lorelei, vem na sequência do disco de versões, do apoio público das estrelas, com os putos a verem fotos de Cameron Winter (dos Geese) e Phoebe Bridgers na festa de lançamento. No que toca ao mundo indie, isto é quase todo o apoio que se pode ter, mas também não garante nada. A questão já não é se será desta? É se alguma vez será.

https://www.youtube.com/watch?v=LkvqdXBpQss

The Singer in My Band é o primeiro disco para uma editora com algum peso, a Matador, o que pode mudar a parada. Mas não deixa de ser caricato o seguinte pormenor: este homem tem sucesso com os Water From Your Eyes, formado com Rachel Brown em Chicago em 2016. Gradualmente foram-se afastando da indie-pop convencional e Structure, de 2021, chamou a atenção, enquanto Everyone’s Crushed, em 2023, transformou-os numa das bandas experimentais americanas mais celebradas do momento.

Só que o sucesso não é propriamente uma fórmula. O Nate Amos, guitarrista, compositor, produtor e arquiteto dos Water From Your Eyes sabe chegar a um sem-número de pessoas. O Nate de This Is Lorelei, com os seus lamentos country e inflexões bluesy e canções eivadas de depressão, não consegue vender um copo de sumo num dia de calor. Ninguém faz ideia do que vende ou deixa de vender.

Nascido em 1991, Nate passou parte da infância entre a Virgínia e Vermont. O pai, Bob Amos, é músico de bluegrass; a irmã Sarah também toca e canta com ele. Antes de descobrir o noise-rock, a música eletrónica ou o indie experimental, Nate cresceu rodeado pela forma mais antiga e elementar da canção americana: uma progressão de acordes, uma história, uma melodia suficientemente forte para sobreviver sem produção nenhuma.

Agora façam o favor de ir até Watching Heaven Fall, a quarta canção de The Singer In My Band: soa ao parágrafo escrito acima. É como se os Water From Your Eyes fossem o emprego corporate indie de Nate, enquanto This Is Lorelei fosse a música que ele faz quando regressa a casa e vai para o seu quarto, que ainda tem os mesmos posters do quarto de infância. Há um acordeão em Watching Heaven Fall, há um violino. O que é que se passa com as pessoas? Vocês deviam adorar isto.

Nem sequer é claro que Nate ainda esteja realmente à procura do sucesso com This Is Lorelei: em Box for Buddy, Box for Star sim, notava-se que houvera cuidado ao selecionar aquelas dez canções e que havia nisso uma intenção; mas em The Singer in My Band, com as suas slide-guitars, a sujeira nas guitarras, o seu sabor a Mississippi poluído ele parece estar a marimbar-se para o seu destino mediático e preocupado sobretudo em soar à música com que cresceu. É como se já não precisasse de provar nada.

https://www.youtube.com/watch?v=bn7wmxAOTn8

The Singer in My Band é o disco mais country, folk e bluegrass de This Is Lorelei, isto apesar de The Kid With the Crown me lembrar imenso Eliot Smith. Amos escreveu grande parte do disco durante viagens, mas de uma forma diferente da habitual – escreveu apenas mentalmente: sentado numa carrinha, olhando pela janela, não tinha um instrumento nas mãos. Chamou a isto “road record”; estranhamente é a isso que soa.

Há pequenas variações: Billy Came Back é uma maravilha de power-pop rural, enquanto The Kid With the Crown deixa entrar algum do velho ruído de Amos; na faixa-título aparece Bob Amos no banjo. Mas as variações não alteram a impressão de esta ser a sua música, aquela que está próxima do seu coração.

É curioso que o disco se chame The Singer in My Band. Nos Water From Your Eyes, Rachel Brown ocupa o centro do palco, enquanto Amos se esconde atrás da guitarra, dos pedais, da produção, das ideias. Ele próprio admite que sempre teve cuidado para não ser o frontman das bandas em que tocava.

Mas com This Is Lorelei, um microprojeto que foi crescendo quase acidentalmente, ele já não pode esconder-se. Desconfio que queira, mas não pode. Devagarinho isto foi chegando a uma e outra pessoa, que se aperceberam que era aqui que estava o coração de Nate. MJ Lenderman ouviu isso. Snail Mail ouviu. Katie Crutchfield ouviu. Jeff Tweedy ouviu. Cameron Winter, que nunca — mas nunca — se engana, ouviu isso.

E vocês, quando é que vão ouvir o coração de Nate?