Fez sete defesas, seis das quais a remates de fora da área, acertou metade dos passes longos (11), teve três saídas aéreas eficazes, acabou como o guarda-redes titular mais velho de sempre a terminar um encontro do Mundial sem sofrer qualquer golo. Quando todos tentavam adivinhar por quantos iria ganhar a Espanha no encontro inaugural da prova, Cabo Verde alcançou uma estreia histórica. Josimar, que já era Vozinha, foi apresentado ao mundo. Foi um herói entre os postes, tornou-se um herói ainda maior fora deles, com os 90 minutos de brilho em Atlanta a multiplicarem-se por dias e dias de fama também à boleia da CazéTV.
– Sabe quantos seguidores tem no Instagram?
– Tenho cerca de 40 e tal mil, penso eu…
– E tem ideia de quantos poderá ter agora?
– Falaram ali que tinha quase meio milhão mas não sei…
– Nãooooo…
– Ainda não fui ao meu Instagram, tenho medo que fique bloqueado…
O apelo da transmissão brasileira para que todos passassem a seguir o guarda-redes de Cabo Verde teve um efeito sem precedentes neste tipo de eventos. Do nada, Vozinha, que chegou aos Estados Unidos sem clube após terminar contrato com o Desp. Chaves mas como número 1 de uma equipa que em condições normais contaria com Bruno Varela na baliza, tinha o mundo a seus pés. E não, o efeito não passou: já depois de ter voltado ao país para um jogo de estrelas organizado pela FIFA e de ter aceitado assinar pelos chilenos do Colo-Colo a troco de um salário como nunca tivera, o jogador de 40 anos entrou nos nomeados para Melhor Guarda-Redes do Ano na escolha da Bola de Ouro (algo que Diogo Costa, por exemplo, não conseguiu).
Vozinha tinha tudo. Aliás, Vozinha tem tudo. Uma imagem projetada pelo mundo que chegou aos quase 30 milhões de seguidores no Instagram. Um rumo desportivo que foi aquele que preferiu em relação a todos os que tinha entre mãos sendo já um quarentão. Uma notoriedade que dificilmente mais alguém vai conseguir obter nos próximos tempos por 90 minutos de sonho. Tendo tudo, Vozinha preferia não ter “nada”.
“Perdi a minha paz e tranquilidade. Já não tenho privacidade, ou pelo menos muito menos do que antes. Agora saio, vou a um restaurante, e há sempre alguém a querer tirar uma fotografia comigo ou a pedir-me um autógrafo. Ou, pior, alguém a filmar-me. Isso é o que mais mudou na minha vida e acho que não há nada que possa fazer quanto a isso”, começou por contar (ou lamentar) numa entrevista ao The Observer que saiu depois da derrota de Cabo Verde no Mali na estreia na qualificação para a CAN-2027.
“No Mundial, um membro da equipa de apoio de Cabo Verde veio ter comigo e disse que tinha uns mil milhões de seguidores. Não fazia ideia do que estava a falar. Pensei que estivesse a brincar mas ele insistiu. Mais tarde, fui dar algumas entrevistas na zona mista e uma jornalista da CazéTV perguntou-me se sabia o que se estava a passar. Mostrou-me o telemóvel e foi aí que vi que tinha mais de um milhão de seguidores”, contou, numa imagem mais “amplificada” que chegou a toda a equipa. “Não foi fácil voltar ao normal”, disse também à publicação uma pessoa próxima do balneário dos Tubarões Azuis. Com um mérito à mistura: após a passagem à fase a eliminar sem derrotas, Cabo Verde só caiu no prolongamento com a Argentina.
“Decidi desativar as notificações do Instagram para não ter a tentação de estar sempre a verificar quem me estava a seguir. Sei que durante o Mundial havia muitas empresas e marcas que queriam trabalhar comigo mas, enquanto estávamos a competir, fiz apenas uma colaboração promocional, com a UFL Mobile. Não sei que ofertas podem surgir no futuro mas por enquanto não quero trabalhar com nenhuma marca de tabaco, álcool ou apostas”, salientou o guarda-redes cabo-verdiano que leva três encontros pelo Colo-Colo com apenas um golo sofrido, entre duas vitórias e um empate entre Primeira Liga e Taça do Chile.
Muita gente quer ser famosa e ter uma imagem pública mas só vê o lado positivo dessa realidade. Para ser sincero, se pudesse escolher entre a vida que tenho hoje e a vida que tinha antes, escolheria a que tinha antes”, assumiu Vozinha na entrevista ao The Observer.
Esse impacto chegou também ao país e aos próprios pais. Segundo o guarda-redes, são muitos os fãs que vão aparecendo à porta de casa da mãe para pedir uma fotografia ou apenas conversar (algo que a mãe não nega). Já o pai, que é mais reservado, manteve uma distância maior. “Não estou lá e é por isso que não os consigo ajudar. Eles têm de aprender a viver com esta situação e colocar limites”, referiu, antes de retirar um lado “positivo” de tudo: “É bom sentir-me uma espécie de embaixador mas quero deixar claro que o que conseguimos foi um esforço coletivo. Fizemos história e a melhor notícia seria se pudéssemos aproveitar este impulso para desenvolver o nosso país e melhorar as condições de vida do nosso povo”.
Por fim, numa entrevista feita por telefone quando o guarda-redes estava ainda em Lisboa, Vozinha explicou a escolha pelo Colo-Colo e fez uma “antevisão” sobre a cerimónia da Bola de Ouro: “Foi o clube que demonstrou maior interesse. Não recebi nenhuma proposta dos Estados Unidos e o contacto com a Arábia Saudita que houve não foi nada de concreto. Espero agora poder jogar a Taça dos Libertadores em breve. Nomeados para Melhor Guarda-Redes? Nunca imaginei que isto pudesse acontecer. Era impensável mas estou grato a todos os que pensaram em mim. Só o facto de estar nesta lista já é uma grande honra”.