França enfrentou esta terça-feira uma conjugação de protestos de grande intensidade por todo o país. Além da greve geral que abrangeu pelo menos 200 mil trabalhadores da Função Pública e bombeiros, os protestos estudantis continuaram, escalando em violência. Segundo o ministro do Interior francês, 440 pessoas foram detidas, sendo a maioria menores, e 48 polícias ficaram feridos.
As situações mais complicadas a gerir pelas autoridades foram as mobilizações estudantis, que aumentaram fortemente de intensidade e violência. “Em todo o território nacional, foram realizadas 440 detenções”, declarou o ministro Laurent Nuñez à estação televisiva BFMTV, explicando que os detidos causaram danos materiais e confrontos com as forças de segurança.
"Moins de flics, plus de fric" : blocage ce matin du collège/lycée Hélène-Boucher à Paris.#29septembre2026 #blocus #GrèveGénérale pic.twitter.com/Ky8of8s5jb
— AnthoZ (@AnthoDepe) September 29, 2026
Nuñez detalhou que os protestos afetaram 416 instituições de ensino, contra pouco mais de 180 no dia anterior, e descreveu o movimento como uma mobilização que se tinha “expandido” e que foi acompanhada por numerosos episódios de violência, incluindo ataques contra agentes e atos de vandalismo.
As agências de notícias internacionais deram conta de protestos em muitas escolas, com estudantes a bloquear entradas. As fotografias publicadas mostram contentores de lixo e outras estruturas incendiadas em várias cidades.
Em Bordéus, um bombeiro ficou ferido devido à “explosão de um aerossol à margem das manifestações nos arredores da Escola Secundária de Montaigne”, avança a autarquia, citada pela France Info.
Um total de 48 elementos das forças de segurança ficaram feridos, quatro vezes mais do que no dia anterior, adiantou o ministro. Também 31 elementos da equipa escolar e alunos ficaram feridos, a maioria com ferimentos ligeiros, segundo o balanço divulgado pelo Ministério da Educação.
Paris, Lyon, Lille… Les manifestations et blocages aux abords de lycées se poursuivent mardi à travers la France dans le cadre de la journée de mobilisation de la fonction publique. pic.twitter.com/Ijj8LBetRX
— Le Figaro (@Le_Figaro) September 29, 2026
“A gravidade das agressões, especialmente contra as forças de segurança, bem como dos danos e de algumas ações contra funcionários e professores, é significativa”, sustentou Nuñez.
O ministro do Interior defendeu a atuação das forças de segurança, afirmando que intervieram de forma “extremamente proporcional” e em coordenação com os responsáveis pelas escolas para evitar incidentes mais graves.
“A violência nunca é legítima”, sublinhou o ministro do Interior, classificando de “muito graves” as declarações feitas hoje pelo vice-presidente da Câmara de Saint-Denis (arredores de Paris), Bally Bagayoko (esquerda), que justificou os atos violentos “num determinado momento”.
“O direito de se manifestar é uma liberdade fundamental que não pode servir de pretexto para tais atos”, declarou o ministro da Educação, Édouard Geffray, classificando as agressões como “inqualificáveis”.
“Apresentar reivindicações é um direito. Agredir, ameaçar, incendiar ou impedir os outros de estudar, não”, afirmou Geffray numa mensagem nas redes sociais, na qual denunciou disparos e ameaças de morte contra professores.
O ministro afirmou que foram adotadas medidas para garantir a proteção dos funcionários e que foram iniciadas ações judiciais.
O candidato presidencial Jean-Luc Mélenchon, que participou no arranque oficial da marcha da função pública em Paris, pronunciou-se quanto aos protestos estudantis. “Estamos orgulhosos de estar às portas das escolas para defender as nossas crianças”, afirmou, citado pelo Le Figaro. “Mobilizemo-nos para nos opormos à brutalidade policial. Aqueles que espancam os nossos filhos, aqueles que os agridem, aqueles que os insultam, aqueles que dão rédea solta ao seu racismo vão em breve encontrar-nos no seu caminho. Não haverá esquecimento, nem perdão para ninguém”, continuou o líder da França Insubmissa, relembrando um episódio que deixou um estudante ferido durante uma manifestação numa escola.
A secretária-geral do principal sindicato de professores em França, Caroline Chevé, demonstrou publicamente o seu apoio à luta estudantil, referindo que estão a manifestar-se contra “os mesmos problemas” e estão igualmente “zangados”. “Os estudantes estão a enfrentar a mesma situação que nós. Estão em salas de aula superlotadas. Por vezes, faltam-lhes professores devido à escassez de pessoal”, completa a dirigente sindical.
Grupos de alunos reivindicam mais recursos para a educação e denunciam turmas sobrelotadas, cargas horárias excessivas e condições precárias em algumas instituições. Entre as queixas, figuram também as temperaturas excessivamente altas ou baixas nas salas de aula e a falta de profissionais de apoio nas escolas.
Greve geral pressiona Governo francês antes de Orçamento
Esta terça-feira foi também marcada por uma greve geral convocada pelos sindicatos da função pública de França na véspera da apresentação do orçamento do primeiro-ministro Sébastien Lecornu, um aliado próximo do presidente Emmanuel Macron. Os trabalhadores do setor público protestaram contra o aumento do custo de vida e exigiram aumentos salariais e “recursos orçamentais compatíveis” com as funções dos serviços públicos.
Segundo dados recolhidos pela France Info junto do Governo francês, a greve teve uma adesão de 9,64% dos trabalhadores do Estado, 5,68% dos trabalhadores do funcionalismo público regional e 4,5% dos trabalhadores dos hospitais. Esta adesão foi sujeita a contagens diferentes das duas partes em oposição: a Confederação Geral do Trabalho (CGT) contabilizou mais de 300 mil manifestantes em todo o país, incluindo 70 mil em Paris; o Governo baixa essa cifra para 206 mil a nível nacional, 30 mil dos quais na capital.
A CGT anunciou também a presença de 30 mil manifestantes em Marselha (apenas 3.800, segundo a polícia), 11 mil em Toulouse, 10 mil em Lille e Bordéus, e 8.000 em Lyon e Orléans.
“A indignação é imensa. Alerto o Governo: tem de dar resposta às reivindicações e rever o projeto de orçamento, que é perigoso para o país e está a conduzir-nos diretamente contra a parede da recessão a 200 quilómetros por hora”, avisou a líder da CGT, Sophie Binet, à BFMTV.