O fundo de investimento Urbagestión chegou, esta segunda-feira, a acordo com os representantes legais de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos que foi despejada há cinco dias.
Segundo avança a imprensa espanhola, após uma reunião que durou quatro horas, a empresa que detém o apartamento aceitou que Maricarmen volte à casa onde viveu mais de 70 anos, no bairro do Retiro, em Madrid, com um novo contrato de arrendamento. A mulher de 87 anos ainda não deu luz verde ao acordo, ainda assim.
A reunião ocorreu entre a advogada de Maricarmen, os representantes da Urbagestión, dirigentes da Empresa Municipal da Vivenda e Solo (EMVS), gerida pela autarquia de Madrid, assim como esteve presente o Sindicato de Inquilinas.
A mulher soube a notícia no hospital onde está internada pelo “nervosismo provocado pelo despejo”. O acordo prevê que Maricarmen Abascal pague pela renda 30% da renda dos seus rendimentos brutos. Este acordo deverá prolongar-se por oito anos.
Citada por El Mundo, a advogada da mulher, Beatriz Duro, disse que o resultado “é muito positivo”: “Se se assina este acordo será um ótimo resultado e muito feliz para todos”. “Foi fruto da mobilização. A imagem de Maricarmen despejada não pode voltar a repetir-se. Oxalá sirva para mudar o paradigma da habitação em geral”.
Em simultâneo, mantêm-se os protestos em Madrid. Centenas de pessoas continuam acampadas na Puerta del Sol, apesar da chuva que está a cair na capital espanhola esta segunda-feira. Em Barcelona, centenas de manifestantes estiveram à porta do Palácio de Congresos da Catalunha, onde Pedro Sánchez, o presidente do Governo espanhol, está a assistir a uma entrega de prémios.
Nos últimos dias, a mulher de 87 anos tornou-se um dos principais rostos dos protestos gerados pela crise da habitação em Espanha.
Sob o lema “nem uma Maricarmen mais”, 300 mil pessoas, segundo a associação Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, e 25.000, segundo as autoridades, manifestaram-se no sábado nas ruas da cidade e centenas estão desde esse dia acampadas na praça Porta do Sol.
O Sindicato das Inquilinas e Inquilinos exige ao Governo a aprovação na terça-feira, pelo Conselho de Ministros, de um “decreto Maricarmen”, que impeça despejos de inquilinos vulneráveis como Maricarmen Abascal, idosa e sem uma alternativa de alojamento.
Entre outras reivindicações, a associação exige também a renovação automática de contratos de arrendamento, sem subidas aleatórias da renda, quando os inquilinos estão a cumprir com as obrigações de pagamento.
Se o “decreto Maricarmen” não sair do Conselho de Ministros, o acampamento no coração histórico e turístico de Madrid vai continuar, por tempo indefinido, assim como outros protestos, já garantiu o Sindicato das Inquilinas e Inquilinos.
Face à pressão nas ruas e apelos diretos da própria Maricarmen Abascal, o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, revelou no domingo que o Governo e o PSOE estão a “trabalhar em contrarrelógio” para levar na terça-feira ao Conselho de Ministros um decreto com várias medidas para a habitação. “E peço aos grupos parlamentares um último esforço para que seja aprovado no parlamento”, afirmou Sánchez.
Em Espanha, para um decreto do Governo se manter em vigor tem de ser ratificado pelo parlamento num prazo máximo de 30 dias. Segundo dados oficiais, este ano tem havido uma média de 44 despejos diários em Espanha.
Em 10 anos, o preço médio do metro quadrado no arrendamento no país quase duplicou, atingindo os 15,1 euros/m² em agosto, de acordo com o portal imobiliário Idealista.